Casal de poderosos da Argentina faz lembrar os Clinton

David J. Lynch
Em Buenos Aires

Uma figura distante paira sobre a senadora Cristina Fernández de Kirchner, a provável vencedora da eleição presidencial que será disputada aqui no próximo domingo. E não é o seu marido, Néstor, o atual presidente da Argentina, e tampouco a legendária Eva Perón.

A silhueta que se sobrepõe à senadora Kirchner, 54, quando esta completa uma extraordinária campanha tanto para suceder ao marido como para tornar-se a primeira mulher presidente eleita do país, é a da senadora dos Estados Unidos Hillary Clinton, que está engajada na sua própria campanha presidencial milhares de quilômetros ao norte.

As comparações entre a atual primeira-dama argentina e a ex-primeira-dama dos Estados Unidos tornaram-se um assunto corrente na campanha. Ambas são advogadas que conheceram os seus maridos na universidade. Ambas casaram-se com ex-governadores do sul que tornaram-se presidentes e governaram o país durante um notável boom econômico. E ambas são celebridades políticas instantaneamente reconhecidas pelos seus primeiros nomes icônicos.

Marcos Brindicci/Reuters - 26.jul.2007 
Cristina Kirchner discursa com imagem gigante de Eva Perón ao fundo

"O modelo dela não é Evita, e sim Hillary", afirma Rosendo Fraga, diretor do Centro de Estudos da Nova Maioria, um grupo de pesquisas independente.

Tal afirmação pode ser um exagero. Entre as duas políticas existem tantas diferenças quanto similaridades. A "Rainha Cristina", como ela é conhecida, tem um estilo pessoal que pouco lembra o da senadora pelo Estado de Nova York. A sua fixação na aparência física é motivo de zombarias freqüentes carregadas de insinuações sobre o uso de Botox, feitas pela mídia e pela sua principal oponente. O seu estilo acalorado de discursar é bem diferente das argumentações frias e racionais de Hillary Clinton.

A senadora Kirchner, que segundo as pesquisas tem uma enorme vantagem sobre uma oposição fragmentada, também observou publicamente que, ao contrário de Hillary Clinton, ela foi uma legisladora proeminente antes do seu marido ocupar a Casa Rosada, a mansão presidencial da Argentina. Nenhuma questão única está associada à ascensão de Kirchner, ao contrário do que ocorre com a candidatura de Hillary Clinton, que está ligada à reforma do sistema de saúde. Mas a senadora argentina tem se pronunciado contra a corrupção e em defesa das vítimas da ditadura militar que vigorou na Argentina de 1976 a 1983, e que matou ou "desapareceu" com até 30 mil pessoas. Ela também tem sido uma conselheira influente do marido.

Ameaças à recuperação econômica
Bem mais do que Hillary Clinton, que faz campanha com base na sua própria atuação no Senado dos Estados Unidos, a candidatura de Cristina Kirchner se baseia quase inteiramente nas realizações do seu marido ao administrar a Argentina em meio a uma contração econômica equivalente à Grande Depressão da década de trinta. Lançando mão de algumas políticas heterodoxas, incluindo controles de preços e impostos sobre as exportações, Néstor Kirchner promoveu uma recuperação econômica após uma suspensão do pagamento das dívidas do país em 2002 que desafiou as cartilhas econômicas convencionais. Ele reestruturou grande parte da dívida argentina, pagou os empréstimos devidos ao Fundo Monetário Internacional - ajudado pela renda obtida com as vendas de títulos ao governo do presidente venezuelano Hugo Chávez - e capitalizou os altos preços da soja e outros grãos, os principais produtos de exportação do país.

"Ele é o melhor presidente que já tivemos... Hoje a situação é muito melhor do que antes. Estou em situação muito melhor", afirma Manuel Ragno, 61, dono de uma casa lotérica no bairro operário de La Boca.

Porém, há indicações de que a vigorosa expansão da Argentina - cinco anos consecutivos de crescimento econômico anual de cerca de 8% - está começando a esbarrar nos seus limites. Neste ano, enquanto a passagem sem precedentes da faixa presidencial de marido para mulher se aproximava, o governo gastou parte do seu superávit fiscal ao aumentar significativamente os gastos sociais com novas pensões e serviços públicos. Caso eleita, Cristina Kirchner, que não conta com experiência como administradora, herdará uma inflação de dois dígitos e uma carência de energia elétrica, problemas que serão difíceis de resolver sem uma modificação das políticas do seu marido. Um outro teste para ela é a necessidade de concluir um acordo com o Clube de Paris das nações credoras a fim de renegociar o pagamento de US$ 6 bilhões em títulos argentinos, incluídos na cifra que não foi paga em 2002.
ELEIÇÕES NA ARGENTINA
Daniel Garcia/AFP
Moticiclista passa diante de cartaz da candidata Cristina Kirchner
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O movimento peronista no qual o casal Kirchner ingressou na década de 1970 sempre foi um amálgama de políticas de esquerda e de direita difícil de se categorizar. Juan Perón, um ex-oficial do exército eleito presidente em 1946, era um admirador assumido do ditador fascista italiano Benito Mussolini, mas instaurou políticas trabalhistas que favoreceram os pobres da Argentina, chamados por aqui de "descamisados".

Assim, a ideologia não é uma barreira para correções significativas de rumo, caso estas se façam necessárias para a manutenção do poder político. Cristina Kirchner, no entanto, não deu nenhuma indicação de que pretende mudar de curso, e ela concorda nitidamente com a posição do marido quanto à necessidade de forte ação estatal para compensar as ineficiências do mercado. Os seus pôsteres de campanha, que estão por toda parte, trazem uma promessa inofensiva e imprecisa: "Sabemos o que falta. Sabemos como fazer".

Mercedes Marco del Pont, uma candidata ao senado formada pela Universidade Yale, afirma que Cristina Kirchner dará continuidade às atuais políticas econômicas estatais, mas "intervirá de forma mais inteligente no mercado". Integrante da coalizão de Cristina Kirchner, a "Frente Para a Vitória", Marco del Pont elogia a inteligência e os princípios da candidata. "Ela tem convicções muito fortes sobre aquilo que precisa ser feito na Argentina", afirma a candidata ao senado.

Estilo de campanha acima das brigas políticas
Desde que anunciou a sua candidatura à presidência em julho, Cristina Kirchner compartilhou poucos detalhes sobre os seus planos com os eleitores. Ela quase não concede entrevista a jornalistas locais, uma tática que copiou do marido (ela também se recusou a dar entrevista para esta matéria). Ao contrário de Hillary Clinton, que enfrentou uma enxurrada de debates com outros pré-candidatos democratas e passou meses em Estados nos quais serão realizadas as primeiras eleições primárias, como Iowa e New Hampshire, Cristina Kirchner foi escolhida pelo marido como candidata da Frente Para a Vitória.

Na semana passada o seu estilo de campanha que está acima das brigas políticas foi exibido em um comício em Vicente Lopez, no entorno da capital. Centenas de pessoas lotavam a rua em frente ao Hospital Santa Rosa para ver Cristina Kirchner aceitar um pequeno buquê de flores e saudá-las com um caloroso: "Obrigado, meus amores".

A candidata falou no palanque durante 12 minutos sem fazer nenhum comentário político específico. "Precisamos nos focar naquelas coisas que nos unem, de forma que possamos mover o país para frente... Ainda há muito a se fazer. Temos que trabalhar arduamente por aqueles que não têm empregos ou casas", disse ela, sob os aplausos da multidão.

Mais tarde, enquanto ela apertava a mão daqueles que lhe desejavam boa-sorte, vários eleitores elogiaram as façanhas econômicas do governo e afirmaram que o sexo da senadora pouco interessa. Mulheres ambiciosas na política não são um fato novo por aqui. Pela lei, metade da Câmara e um terço do Senado precisam ser ocupados por mulheres. O movimento peronista que os Kirchner lideram conta com uma longa tradição de mulheres poderosas, de Evita Perón ("Evita"), nos anos quarenta, a Isabel Perón, a terceira mulher do ditador Juan Perón, que assumiu o poder após a morte do marido em 1974.

"Não pensamos nela como sendo uma mulher. Ela é uma pessoa forte, e tivemos muitos homens que fracassaram na presidência", argumenta Hector Larretape, 60, um metalúrgico que participou do comício em frente ao hospital.

Néstor Kirchner, um líder provinciano com pouca reputação nacional, chegou à presidência após uma série notável de tais fracassos. Durante a crise financeira argentina de 2001 e 2002, depois que o país foi obrigado a abandonar a sua política de paridade entre o peso e o dólar, a Argentina teve cinco presidentes. Nas eleições de 2003, Kirchner obteve 22% dos votos no primeiro turno, ficando atrás de Carlos Menem, um ex-presidente profundamente impopular que tentava voltar ao poder. Quando Menem preferiu retirar a sua candidatura a sofrer uma esperada derrota no segundo turno, Kirchner tornou-se presidente.

Kirchner poderia ter disputado a reeleição, mas ele preferiu deixar o cargo e concentrar-se na construção do seu partido, e ao mesmo tempo preservar a sua opção de retorno ao poder depois que a sua mulher ocupar a presidência por quatro ou oito anos. A constituição da Argentina determina que os presidentes só podem cumprir dois mandatos consecutivos, mas permite um número ilimitado de mandatos não consecutivos. Algumas analistas, como Fraga, acreditam que o casal pretende governar o país por anos.

Mais interesses globais do que o marido
Se ele passar a presidência à mulher, o maior desafio provavelmente dirá respeito à imagem global da Argentina. Durante quatro anos como presidente, Néstor Kirchner deu pouca atenção às relações internacionais, chegando a abster-se da tradição de receber os embaixadores recém-chegados a Buenos Aires. A sua mulher, que viajou aos Estados Unidos e à Europa durante a campanha, é descrita como uma política bem mais sintonizada com as questões externas.

Cristina Kirchner previu publicamente que Hillary Clinton, que ela conheceu em 2004 em Boston, será a próxima presidente dos Estados Unidos. Assumindo que ela esteja certa, com novas líderes do sexo feminino em Washington e Buenos Aires, poderá haver uma nova oportunidade para a melhora das relações entre os Estados Unidos e a Argentina. A esperança dos argentinos de melhores relações bilaterais entre os dois países foi alimentada por um ensaio de Hillary Clinton, que será publicado na próxima edição do periódico "Foreign Affairs", no qual ela diz que os Estados Unidos devem "aprofundar a cooperação econômica e estratégica com a Argentina".

O governo Bush tem se mantido afastado devido ao populismo ardente de Néstor Kirchner e a sua relação amável com Chávez. Além de comprar os títulos argentinos, a Venezuela prometeu financiar parte de uma usina de gás natural para ajudar a Argentina a resolver a sua crise energética. Kirchner, por sua vez, apóia a proposta da Venezuela de ingressar no Mercosul, um grupo comercial sul-americano de quatro países. Durante a Cúpula das Américas de 2005, na qual Kirchner foi o anfitrião em um resort à beira-mar, Chávez teve permissão para liderar um comício anti-Estados Unidos em um estádio de futebol próximo, no qual declarou "morto" um pacto comercial regional desejado pelo presidente norte-americano. No início deste mês, Néstor Kirchner estava notavelmente ausente de uma lista de "líderes democráticos responsáveis" da América Latina que a secretária de Estado, Condoleezza Rice, apresentou em Washington durante um discurso na Organização dos Estados Americanos (OEA).

Porém, alguns estão céticos quanto às perspectivas de mudanças reais. "Existem muitos boatos segundo os quais, se Cristina Kirchner ganhar, ela e Hillary promoverão uma relação muito próxima entre os dois países. Na verdade Hillary Clinton não terá nem tempo nem interesse para se envolver com os tipos de coisas pelas quais Cristina Kirchner se interessa", afirma Riordan Roett, especialista em América Latina da Escola de Estudos Internacionais Avançados da Universidade Johns Hopkins.

Recentemente, em Nova York, Cristina Kirchner expôs a sua filosofia em um discurso no Conselho das Américas, um grupo empresarial cuja diretoria inclui representantes do JPMorgan, da Merrill Lynch, da IBM e da Merck. Ela se gabou do progresso do país durante o governo do seu marido, e disse que se a Argentina crescer conforme o esperado no ano que vem, aquele será o sexto ano consecutivo de expansão econômica, algo que ocorreria pela primeira vez em quase 200 anos. E ela reiterou uma filosofia de governo carregada de tons peronistas: "A economia não é uma ciência exata conforme muita gente acredita - ela é profundamente social". UOL

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