Boom econômico do Camboja depende dos Estados Unidos

David J. Lynch
Em Phnom Pehn, Camboja

As ruas desta capital à beira-rio têm um tráfego pesado, e estão repletas dos veículos utilitários esportivos preferidos pelos agentes de auxílio internacional bem como dos carros mais modestos dirigidos pelos moradores locais. Canteiros de obras cercados por andaimes estão por todas as partes do centro da cidade poeirento, e os habitantes espionam os investidores ocidentais com aquele entusiasmo que em outras regiões é reservado às celebridades.

"Isso parece uma cidade em uma nova fronteira econômica, cheia de entusiasmo e de energia", afirma Nisha Agrawal, o gerente do Banco Mundial para este país.

A idéia de um boom econômico cambojano pode parecer incongruente, ou até meio absurda. Afinal de contas, este canto remoto do sudeste asiático continua sendo mais conhecido pelos seus "campos da morte", nos quais o genocida Khmer Vermelho trucidou ou matou de fome pelo menos 1,5 milhões de cambojanos.

Rungroj Yongrit/EFE 
Cliente conta notas de riel cambojano em comércio em Phnom Penh

Mas após passar uma geração paralisado à sombra dos seus vizinhos que emergiam rapidamente, o Camboja está se mexendo. Neste ano espera-se que a economia cresça à uma robusta taxa anual de 9,5%, após três anos consecutivos de crescimento na casa dos dois dígitos, afirma o Banco Mundial.

Os norte-americanos alimentaram o boom cambojano com a compra de calças jeans Levi's, roupas da Gap e tênis da Nike, todos estes produtos trazendo o rótulo "Feito no Camboja". Porém, a possibilidade de os consumidores continuarem agindo desta maneira dependerá das complexidades da lei de comércio dos Estados Unidos.

A próspera indústria de vestuários do Camboja está protegida desde 2005 pelas restrições dos Estados Unidos às importações de roupas da China. Mas tais limites expirarão até o final de 2008, abrindo potencialmente a porta para que a China conquiste esta fatia do mercado em detrimento dos produtores cambojanos.

Segundo Roland Eng, o principal diplomata do país e ex-embaixador do Camboja nos Estados Unidos, a China poderia ver a sua fatia do mercado mundial de vestuários saltar dos atuais 50% para 68%. "Eles liqüidarão todo mundo", afirma Eng.

O governo daqui está depositando as suas esperanças em um projeto de lei dos Estados Unidos que eliminaria as tarifas sobre os produtos dos países mais pobres do mundo, incluindo o Camboja. Neste ano, as exportações de roupas cambojanas para os Estados Unidos serão da ordem de US$ 2,6 bilhões, ou aproximadamente o dobro do volume de 2003, segundo dados do Departamento de Comércio. Sem o acesso preferencial ao mercado dos Estados Unidos, as encomendas de produtos cambojanos cairão 35%, enquanto as exportações chinesas dispararão, afirma Van Sou leng, presidente da Associação dos Manufaturadores de Vestuários do Camboja.

As fábricas daqui fornecem roupas para algumas das mais conhecidas marcas dos Estados Unidos, incluindo a Disney, a Sears e a Wal-Mart. Estas marcas foram atraídas pelo Camboja, apesar dos elevados custos da energia elétrica, das estradas precárias e da corrupção generalizada, devido a um programa inovador que promove bons padrões de trabalho, e que teve início nove anos atrás com o auxílio dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos garantiram ao Camboja uma quantidade específica de vendas anuais, encorajando o ímpeto do país para se posicionar como um produtor isento das "sweatshops" (estabelecimentos fabris, muito comuns na China, nos quais os funcionários trabalham em condições precárias e ganham baixos salários) em um mercado global de vestuários no qual prevalece a competição feroz. "O Camboja é um país especial", afirma Michael Kobori, vice-presidente de código de conduta global da Levi Strauss, que compra o seu modelo de jeans Signature de um produtor cambojano.

A companhia que tem a sua sede em São Francisco, e que pretende continuar se baseando nos fornecedores locais depois que os limites impostos sobre os produtos chineses forem revogados, apóia o projeto de lei para a eliminação de tarifas.

As perspectivas de aprovação da medida, proposta pelo deputado Jim McDermott, democrata do Estado de Washington, são nebulosas. O deputado Charles Rangel, democrata pelo Estado de Nova York e presidente do Comitê de Recursos Orçamentários na Câmara dos Deputados, aprovou a proposta, que tem como objetivo ajudar os países mais pobres do mundo a se desenvolver. Mas com o apoio da população à redução comercial, e com o enfraquecimento da economia, os parlamentares poderão se esquivar de passar a impressão de estarem ajudando os trabalhadores estrangeiros durante um ano eleitoral.

Este debate que está por ser travado nos Estados Unidos tem um peso enorme para os 14 milhões de habitantes do Camboja. Mesmo após o atual boom econômico, o salário anual de um cambojano típico não seria suficiente para comprar um televisor decente nos Estados Unidos (a renda per capita do país é de apenas US$ 550). Existem apenas 1.600 quilômetros de estradas pavimentadas em todo o país, que é aproximadamente do tamanho do Estado de Missouri, e somente 10% da população tem acesso à energia elétrica.

As cicatrizes da era do Khmer Vermelho, de 1975 a 1979, ainda estão abertas. Sob o governo do líder radical Pol Pot, guerrilheiros vestidos de negro assassinaram sistematicamente advogados, médicos e professores - chegando às vezes a matar pessoas pelo simples fato de elas usarem óculos - em uma tentativa demente de fazer com que o Camboja retornasse a uma existência pura e agrícola. O Khmer Vermelho acabou sendo deposto por uma invasão vietnamita.

Foi só em 1999 que o país desfrutou do seu primeiro ano inteiramente pacífico em três décadas. Atualmente, um aumento da atividade turística é um sinal nítido da virada. Durante os dez primeiros meses deste ano o Camboja registrou a presença de 1,6 milhão de visitantes estrangeiros, contra 286.524 em 1998.

Os formidáveis templos de Angkor Wat são a principal atração do país. Em dias típicos, os extraordinários monumentos do século 12 ficam superlotados por multidões de turistas sul-coreanos, japoneses e norte-americanos.

Embora o país alimente esperanças de longo prazo de explorar possíveis reservas de petróleo ao largo da sua costa, a indústria de vestuários é o centro da economia. Desde 1994, quando começou da estaca zero, essa indústria cresceu até alcançar níveis de exportação com um valor total estimado de US$ 3 bilhões, empregando diretamente 355 mil pessoas. Estas, por sua vez, apóiam cerca de 1,7 milhões de indivíduos por meio de auxílios regulares a familiares, que freqüentemente moram em aldeias rurais pobres nas quais há pouca atividade econômica, de acordo com a Internacional Finance Corporation.

Sokla Sem, 29, veio para a capital para encontrar trabalho nas fábricas 11 anos atrás, após a morte do seu pai. Trabalhando para uma fábrica de camisas de propriedade de chineses, ela e a irmã ganhavam um salário mensal conjunto de US$ 150. Desta cifra, dois terços eram enviados à mãe, para que esta pagasse os estudos de um irmão mais velho. Assim como muitas jovens daqui, a escolaridade de Sem limita-se à quarta série do primeiro grau.

Após ter sido despedida devido a uma discussão sobre o pagamento, ela tornou-se militante trabalhista. Mas Sem não esqueceu quais são os imperativos econômicos que impulsionam a principal indústria do país.

"Para mim foi muito difícil quando comecei trabalhando em uma fábrica", conta ela. "Mas não me importava com a dificuldade. Só pensava em ganhar dinheiro para mandar para casa". UOL

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