O cenário de pesadelo para os democratas

Chuck Raasch
Do USA Today
Em Washington

Converse com democratas de carteirinha em todo canto do país e independente do candidato que apóiem na disputada indicação presidencial de seu partido, todos eles dizem uma coisa: democratas, não ponham tudo a perder.

Mas infelizmente para os democratas que acreditam que o momento é certo para uma volta à Casa Branca, após uma ausência de oito anos, os ingredientes para um cenário de pesadelo surgiram. A disputa acirrada entre Hillary Rodham Clinton e Barack Obama, somada às regras dos democratas que recompensam o segundo lugar, aponta para uma batalha extenuante pela indicação em uma temporada primária que expôs divisões significativas de raça, etnia e gênero.

Os dois candidatos dançam em torno de um calendário de campanha que poderia recolocar Bill Clinton como um divisor. E é muito provável que os figurões do partido -principalmente os mais de 400 "superdelegados" sem compromisso- serão os responsáveis pela decisão final, portanto enfurecendo o campo de Clinton ou de Obama com um retrocesso à política de salões esfumaçados.

Este cenário foi ignorado por causa da resistência que o provável indicado republicano, o senador John McCain do Arizona, enfrenta no Partido Republicano. Mas com a possível conquista antecipada da indicação por McCain, ele terá tempo para resolver os problemas e arrecadar dinheiro enquanto os democratas travam uma batalha pela alma do partido.

Ainda é possível que os democratas evitem este rancor, mas exigiria um esforço quase irreal.

Primeiro, exigira a permanência de Bill Clinton em um papel de apoio no momento em que a indicação de sua esposa, cuja perda todos disseram que seria uma derrota dela, pareça estar ameaçada. Depois que Bill Clinton atacou Obama na Carolina do Sul e foi censurado pelos líderes do partido, o ex-presidente voltou à mensagem e ajudou em Estados-chave como a Califórnia. Mas os Clinton também estavam ingressando em uma Superterça de perspectivas favoráveis. As disputas ao longo de fevereiro não são muito favoráveis para ela, de forma que caso a indicação dela pareça estar ameaçada, cuidado.

Segundo, tanto Obama quanto Clinton teriam que se retirar enquanto ainda fosse tecnicamente viável na disputa por delegados, algo que dificilmente acontecerá por dois motivos.

Primeiro, Hillary Clinton está realizando uma campanha de sucessora altamente ligada aos sucessos do governo de seu marido. Há muitos democratas que consideram os anos 90 como os Tempos Felizes, e há muitos outros que acreditam que ela é uma candidata do destino, na condição de primeira candidatura feminina séria à Casa Branca. Nenhuma facção suportará vê-la se render pelo bem do partido. Cada facção acredita ser o bem do partido.

Segundo, a campanha de Obama é o mais próximo de um movimento que os democratas têm em muito tempo, e um que parece estar em ascensão. Há evidência de que quanto mais Obama for exposto aos eleitores das primárias democratas, melhor ele se sairá. As primárias e convenções das próximas quatro semanas o favorecem e deverão estimular sua arrecadação de fundos. Se você tem dinheiro, impulso e paridade no número de delegados, qual o sentido em falar em desistir pelo bem do partido quando seu movimento é de tomada do partido por uma nova geração?

Um dos problemas dos democratas é que Clinton e Obama não são muito diferentes nas questões. Esta é uma receita para uma campanha necessariamente voltada para o caráter, liderança, honestidade e outras características humanas, que pode ficar feia a menos que candidatos tenham a disciplina de mantê-la civilizada. Obama e Clinton conseguiram isto em um debate significativo em Los Angeles na semana passada. Mas será que continuarão assim quando os riscos aumentarem?

David Keene, presidente da União Conservadora Americana, disse que quando um colega lamentou que os conservadores e moderados republicanos estavam brigando em torno das questões, Keene alertou ao colega para ter "cuidado quando começarem a concordar em tudo".

"Eu disse: 'Quando isso acontecer, a única coisa que poderão fazer é se xingarem'", disse Keene. "O Partido Democrata se tornou tão homogêneo que só o que podem fazer é chamar o outro lado de idiota."

Os democratas estão mais unidos em torno da necessidade de permanecerem unidos. Mas as pesquisas de boca-de-urna mostram profundas divisões segundo raça, etnia e gênero.

Obama tem exibido vantagens de 9 para 1 entre os eleitores negros enquanto Clinton está conquistando os latinos por uma margem igualmente grande. Clinton conta com uma grande vantagem entre as mulheres. Se, ao longo da campanha, for percebido que algum candidato desrespeitou um destes grupos importantes, cuidado.

Ron Walters, um assessor veterano de Jesse Jackson e outros democratas, disse acreditar que as diferenças de raça e gênero presentes nas pesquisas de boca-de-urna serão superadas assim que o partido tiver seu indicado. E ele acredita que haverá um grande incentivo, promovido pelos líderes do partido, para evitar uma disputa na convenção em Denver, em agosto.

"Não é do interesse de nenhum deles ter uma convenção cheia de rancor, em impasse", disse Walters, um cientista político da Universidade de Maryland.

Mas onde, e quando, Obama ou Clinton se sentirão compelidos a desistir em prol do partido? Se os eleitores não se decidirem nas próximas 11 semanas antes da primária da Pensilvânia, isto caberá aos líderes do partido. E isto é uma receita de rancor até novembro. George El Khouri Andolfato

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