Melhoria na economia do México leva esperança para os dois lados da fronteira

Chris Hawley
Em Ixmiquilpan, México

Enquanto mexicanos arriscam suas vidas para emigrar ilegalmente para os EUA e tiroteios entre traficantes continuam a dominar os noticiários, é compreensível que se pense que o México é um lugar com pouca esperança.

Ainda assim, em lugares como esta cidade turística que atende a classe média crescente fora da Cidade do México, muitos mexicanos dizem que seu futuro parece mais luminoso hoje do que em gerações.

Nos finais de semana, uma fila de sedãs da Chevrolet e outros novos carros baratos lotam os estacionamentos dos parques aquáticos da cidade. Lá, turistas comem cachorros quentes por US$ 2 (cerca de R$ 4), tiram fotos com câmeras digitais e gastam parte de suas rendas modestas. Todo ano, seus números crescem, diz o departamento de turismo de cidade. E a cada ano, eles têm um pouco mais a gastar.

"Os últimos cinco ou seis anos foram bons para o México", diz Crescenciano Montiel 34, gerente do parque aquático Valle Paraíso. "Pouco a pouco, as coisas melhoraram".

Tim Gaynor/Reuters - 9.jan.2008 
Guarda dos EUA observa grupo de imigrantes ilegais preso na fronteira com o México

Tais histórias abundam, envolvendo mexicanos de todos os níveis sociais. A economia está crescendo constantemente, e os índices de pobreza estão declinando significativamente. O crime caiu, a saúde pública e a educação estão melhorando, e a democracia do México está mais robusta do que em qualquer momento da história.

"O país está mais forte do que nunca", diz Leon Krauze, autor político e apresentador de televisão no México. "Nós conseguimos superar muitas das tempestades políticas e econômicas que costumavam nos ameaçar".

Enquanto o debate sobre a imigração ilegal ocupa os EUA, há esperanças dos dois lados da fronteira que a melhoria na economia do México eventualmente forneça empregos suficientes para estimular números significativos de mexicanos a ficarem e prosperarem no país.

Há sinais de que está começando a acontecer.

O cenário econômico mais promissor no México é uma das razões que explicam porque o número de imigrantes presos por agentes de fronteira declinou 20% durante o último ano. Outros fatores foram o reforço da fiscalização de fronteira e a desaceleração da economia americana, diz Wayne Cornelius, especialista em migração mexicana da Universidade da Califórnia em San Diego.

O avanço contínuo no México seria bom para a economia americana, diz Eduardo Loria, economista da Universidade Autônoma Nacional do México. O México comprou US$ 126 bilhões (em torno de R$ 252 bilhões) em bens americanos entre janeiro e novembro do ano passado, o que representou um acréscimo de 25% desde 2004. É provável que o México continue a comprar mais se a economia continuar a melhorar, diz ele.

A emigração mexicana reduzida e um governo cada vez mais estável também podem diminuir os problemas ao longo da fronteira com os EUA, diz Krauze. Contrabandistas de imigrantes levaram violência ao lado americano, envolvendo-se em tiroteios no deserto do Arizona, atacando agentes de patrulha estrangeira e seqüestrando os clientes de outros em solo americano.

"Em termos das tensões muito evidentes da migração e dos confrontos ao longo da fronteira, eu imagino que, em uma década, se o México continuar nesse caminho e começar a ver esses benefícios microeconômicos, os EUA verão uma redução dessas áreas", disse Krauze.

Por enquanto, porém, o problema permanece.

A corrupção e um sistema jurídico fraco são limitações ao crescimento mexicano, e ainda há uma falta aguda de empregos bem pagos. A dependência do México nos EUA para exportações e remessas de dinheiro podem deixá-lo especialmente vulnerável à recessão americana.

Mesmo assim, os mexicanos como Montiel citam exemplos crescentes de como seu país está sofrendo uma transformação lenta, porém dramática.

Nascido em uma família de 14 irmãos em Ixmiquilpan, a 110 km da cidade do México, Montiel diz que poderia ter ido para os EUA como muitos de seus parentes e vizinhos.

Em vez disso, foi fazer faculdade com uma pequena bolsa, conseguiu um diploma em negócios e trabalhou em um banco e uma firma de seguros. Montiel e sua mulher têm um filha de dois anos, um reflexo de como as famílias mexicanas se tornaram menores nos últimos anos, graças ao melhor planejamento. O índice de fertilidade é de 2,1 filhos por mulher, similar ao índice americano e suficiente para manter os níveis populacionais estáveis.

Em 2003, Montiel persuadiu sua família a construir um parque aquático em um canto de sua fazenda de 10 alqueires, usando água de uma fonte térmica antes usada para irrigação. O parque tem cinco piscinas, três escorregadores, um restaurante e uma estalagem de nove quartos e é visitado por 800 a 1.500 pessoas por mês.

"Estávamos subsidiando com nossa lavoura, mas acho que neste ano vamos nos pagar", disse Montiel enquanto supervisionava a instalação e uma fonte de pedra falsa com um golfinho de fibra de vidro. "Será um novo negócio de família".

Uma economia estabilizadora
Tais demonstrações de empreendimento e otimismo eram incomuns há uma década quando o México sofria com crises econômicas e um levante armado no Estado de Chiapas, no Sul. Os bancos quebraram em todo o país sob uma montanha de calotes.

Politicamente, o país foi monopolizado pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) que usou propinas, intimidação e fraude eleitoral para governar a nação sob um sistema de praticamente um único partido desde 1929.

Mas a mudança estava no ar.

O Acordo de Livre Comércio Norte Americano (Alca) de 1994 abriu um enorme mercado para os bens mexicanos, levando a construção de fábricas ao longo da fronteira com os EUA.

Enquanto isso, uma nova geração de tecnocratas do governo, muitos graduados de universidades de primeira linha nos EUA, começaram a controlar os gastos públicos e a inflação que prendiam a economia mexicana em ciclos de explosão e implosão por gerações.

Em 2000, o conservador Vicente Fox tornou-se o primeiro presidente de fora do PRI em sete décadas. Sob Fox e seu sucessor, Felipe Calderon, a inflação teve média de 4% ao ano sem grandes quedas financeiras.

"A estabilidade da última década permitiu que os mercados financeiros e bancos crescessem. Hoje existe financiamento. As pessoas podem pegar empréstimos. Houve o nascimento de uma classe média no México", diz Gray Newman, economista do banco de investimento Morgan Stanley em Nova York.

O crescimento econômico foi modesto, em média de 3% ao ano, mas a maior melhoria nos padrões de vida entre os 103 milhões de mexicanos foi vista entre os humildes -mais surpreendente diante do histórico vão entre ricos e pobres.

"Todos os indicadores internacionais mostram avanços", diz Loria. "E não é só na pobreza. Há melhoria na igualdade também."

A economia mexicana criou quase 950.000 empregos no ano passado, de acordo com o governo.

Isso é um grande avanço de uma década atrás, quando o crescimento de emprego foi quase nulo, mas ainda não é suficiente para absorver os 1,1 milhão de mexicanos que entraram para a força de trabalho em 2007.

Essa disparidade e o fato dos salários nos EUA freqüentemente serem cinco vezes maiores do que os do México são razões importantes para a continuidade da emigração para os EUA, diz Newman.

Entretanto, se a economia mexicana continuar crescendo em índices similares ou ligeiramente melhores e se o crescimento populacional continuar a se equilibrar, então, depois de uma geração, talvez não haja pessoas suficientes em idade de trabalho para suprir a demanda por mão-de-obra, diz Leonardo Martinez-Diaz, especialista em México da Instituição Brookings, centro de estudos em Washington.

"Nos próximos 20 anos, o México poderia passar de exportador de pessoas para importador", diz Martinez-Diaz. "Isso seria uma mudança bastante notável."

Os subúrbios emergentes
Talvez nada seja mais emblemático da transformação do México do que as fileiras de casas idênticas de baixo custo crescendo como milho nas planícies empoeiradas em lugares como Zumpango e Tecamac, ao norte da Cidade do México.

No bairro de Paseos de San Juan, com 7.000 casas, operários andam em ondas, aparentemente incapazes de suprir a demanda -uma equipe joga concreto, outras aplicam reboco, passam fiação e instalam janelas.

No escritório de vendas, Manuel Navarro, ex-professor, esperava pegar as chaves de sua nova casa.

Navarro construiu sua primeira casa na forma tradicional mexicana: economizou um pouco, comprou tijolos e construiu ele mesmo, um quarto por vez, em 15 anos. As cidades mexicanas são cheias dessas casas semi-construídas.

A nova casa de Navarro -de dois andares de concreto e dois quartos- custou-lhe US$ 41.200 (cerca de R$ 82.400) com financiamento de um fundo de habitação para funcionários do governo. "Quem hoje quer esperar 15 anos para uma casa?", pergunta.

Ao todo, 1,2 milhão de casas foram compradas com financiamento em 2007, um aumento relativo às 476.788 em 2000. A maior parte dos financiamentos foi feita pelo Infonavit, fundo do governo que dobrou seus empréstimos em sete anos.

Navarro credita à mudança do México a uma democracia multipartidária.

"Quando o PRI estava no poder, você podia conseguir crédito do governo, mas só se fosse membro do partido ou de uma cidade do PRI", diz ele. "As coisas são mais transparentes agora, mais abertas a todos."

Depois de décadas nas quais itens caros tinham que ser comprados com dinheiro, o crédito está disponível em termos mais típicos dos países desenvolvidos.

Na Abamex Chevrolet, na Cidade do México, o caixa de supermercado David Galvez, 20, e sua namorada Priscilla Torres estão comprando seu primeiro carro zero.

"Praticamente decidi por aquele", diz, apontando para um três portas vinho chamado C2, que custa US$ 7.300 (em torno de R$ 14.600).

A Chevrolet estava oferecendo financiamento de 30 meses sem juros para qualquer um que desse uma entrada de 35%.

Uma rápida transformação
Em lugares como o shopping Las Americas, que abriu há dois anos no local de uma velha fábrica química no subúrbio de Ecatepec, muitos dos consumidores estão há uma geração ou duas removidos dos camponeses que viviam da mesma forma por séculos.

O cinema está cheio de pessoas fazendo fila para ver o mais recente filme de Will Smith; famílias compram filhotes na loja de animais de estimação e as praças de alimentação estão cheias de consumidores comendo McDonald's e comida chinesa.

A transformação foi tão rápida que algumas pessoas -particularmente as que viveram os golpes econômicos de 1982 e 1994- temem que a prosperidade possa desaparecer de forma igualmente veloz.

"As pessoas têm casas e carros e coisas, mas estão endividadas. Tenho medo que muitos sejam despejados por não saberem administrar o crédito", disse Susana Hernandez, 34, entre colheradas de sorvete no shopping.

Alguns mexicanos duvidam do progresso porque seu país tem uma longa história de altas esperanças seguidas de crises devastadoras, diz Krauze.

"Somos um país que adora cicatrizes históricas", diz Krauze. "As pessoas não ouvem o lado bom da história."

O crime talvez seja um exemplo de como as percepções públicas ainda não se adaptaram à realidade.

O índice de criminalidade nacional vem caindo constantemente desde 2001, de acordo com o Instituto Citizens de Estudos sobre Insegurança. O índice de homicídios caiu 23% na última década.

Essas boas notícias, entretanto, foram encobertas pela guerra de drogas em cidades ao longo da fronteira com os EUA.

Decapitações, tiros à luz do dia e uma onda de mortes de policiais convenceram muitos mexicanos que seu país não é seguro.

"A classe média cresceu, e a situação política está um pouco melhor. Mas ainda é um país duro para se viver. Temos muito que progredir", diz César Sumano, cuja mulher foi seqüestrada no ano passado na porta de uma mercearia. Deborah Weinberg

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