Nações asiáticas cultivam um novo sentido de democracia

Paul Wiseman
Em Hong Kong

A democracia talvez esteja voltando à Ásia, depois dos eleitores conferirem derrotas impressionantes a governos autoritários na Malásia e no Paquistão.

"As coisas estão definitivamente mais esperançosas no momento", disse Larry Diamond, que estuda democracias jovens na Universidade de Stanford.

Até recentemente, Diamond e outros observadores preocupavam-se que a transição para a democracia na Ásia, de duas décadas, estava andando para trás. As preocupações foram alimentadas por um golpe militar na Tailândia, o estado de emergência nas Filipinas e processos de impeachment liderados por partidos da oposição no Taiwan e na Coréia do Sul.

Madaree Tohlala/AFP - 3.mar.2008 
Eleitor vota durante eleições para o senado tailandês realizadas no começo de março

Em particular, os eventos recentes no Paquistão ressaltaram como a ascensão e queda das instituições democráticas podem afetar os interesses de Washington na região.

A decisão do presidente Pervez Musharraf em outubro último de censurar a mídia do Paquistão e retirar juízes independentes do judiciário causou uma crise política que desestabilizou um importante aliado dos EUA na guerra ao terror. A inquietação diminuiu um pouco desde a votação no último mês para o Parlamento, que elegeu políticos que se opõem a Musharraf, mas talvez tenham maior suporte ao reprimirem militantes islâmicos.

"É decididamente do interesse dos EUA ver a democracia avançar e amadurecer na região", disse G. John Ikenberry, especialista de relações internacionais da Universidade de Princeton. "As democracias têm formas mais elaboradas e sólidas de cooperar com os EUA". Ikenberry admite que os governos eleitos nem sempre farão o que os EUA querem, "Mas, no longo prazo, (a democracia) ajuda a criar um mundo em que os EUA podem prosperar."

Diamond diz: "O pêndulo talvez esteja virando em uma direção mais positiva" em outros países:

Malásia. Os eleitores, cansados da corrupção, da alta dos alimentos e a discriminação de cidadãos de origem chinesa e indiana, deram uma derrota surpreendente no sábado à coalizão da Frente Nacional, que governou a ex-colônia britânica com pulso de ferro por décadas. A coalizão perdeu a maioria de dois terços do Parlamento, que a permitira reescrever a Constituição como quisesse desde 1969.

"Isso permite que nos distanciemos de um regime de um partido único para uma democracia saudável e operante", diz Lim Guan Eng, do Partido de Ação Democrática, de oposição. "Não esperávamos tamanho desejo por mudança."

Antes da votação, o grupo Human Rights Watch advertiu que seria impossível uma eleição justa porque a Frente Nacional controlava a mídia, proibia comícios de oposição e restringia a liberdade de expressão. Essa desigualdade na disputa não importou no sábado: "Eles não conseguiram fraudar o resultado porque a maioria foi grande demais", diz Lim. "Mesmo o pessoal deles votou em nós, tamanha a profundidade do desgosto público."

Paquistão. O partido governante pró-Musharraf foi derrubado nas eleições parlamentares do mês passado. O resultado foi uma rejeição do presidente aliado dos EUA, ex-comandante do exército que tomou o poder em um golpe em 1999, e um sinal que os paquistaneses querem ser governados por políticos eleitos.

Generais governaram o Paquistão por mais da metade de seus 61 anos de existência. Roedad Khan, servidor público aposentado e autor de um livro lamentando o lento desenvolvimento político do Paquistão, disse que as eleições do dia 18 de fevereiro "entraram para a história". E, acrescentou: "Deu orgulho de ser paquistanês. Gosto de pensar que nosso longo pesadelo nacional acabou."

Tailândia. As eleições de dezembro puseram fim a 14 meses de governo militar. Os eleitores devolveram o poder a defensores do primeiro-ministro popular Thaksin Shinawatra, que foi derrubado pelos militares. Thaksin voltou do exílio, mas diz que não está mais interessado em política.

Coréia do Sul. O partido governante foi derrotado nas eleições em dezembro, e os taiwaneses devem fazer o mesmo no dia 22 de março, no que Diamond, de Stanford, vê como rotação saudável de poder, "revigorante para as duas democracias".

Nepal. O país, há muito governado por um rei e dividido por uma década de guerra civil, vota no mês que vem enquanto se prepara para abolir a monarquia e tornar-se uma república.

Nem todos os países da Ásia estão se voltando para a renovação democrática. A Freedom House, que classifica a liberdade política em torno do mundo, retirou as Filipinas de sua lista de "democracias eleitorais" no ano passado - um retrocesso para o país que iniciou a tendência asiática para a democracia em 1986, derrubando o ditador Ferdinand Marcos.

Em Bangladesh, o exército suspendeu o Parlamento no ano passado e instalou um governo provisório, mas Diamond acredita que o país sofrerá intensa pressão para que restaure a democracia.

Enquanto isso, os militares de Mianmar deram de ombros para a condenação internacional pela repressão sangrenta e contra os monges budistas. Diamond diz: "Mianmar não poderia ser mais deprimente". Deborah Weinberg

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