Os Clinton e a teoria do caos da política

Chuck Raasch
Do USA Today
Em Washington

Hillary e Bill Clinton são as figuras mais versáteis da política. Março está apenas na metade e a candidata já esteve na lanterna, na liderança, já deu uma virada, foi vítima de ataques e também atacou, foi a comprovada voz da experiência e também a agente de mudanças. Às vezes até parece que os Clinton estão triangulando a si mesmos.

O que pode muito bem ser o objetivo final do casal. Se há alguma coisa que aprendemos sobre os Clinton desde 1992, é que quanto mais as coisas ficam complicadas, mais eles prosperam. Quem foi o maior beneficiado com o revés do governo em 1995 e 1996? Bill Clinton, de longe. Acusações e contra-acusações, alegações, defesas, quedas e brigas longas são os elementos dos Clinton.

Criar confusão, dúvidas e criticar os amigos. Quando encurralado ou por baixo, basta virar a situação para o outro. Onde está aquela conspiração da direita quando se precisa dela?

Ben Sklar/Getty Images/AFP - 13.fev.2008 
Simpatizante dos Clinton segura bonecos de Billy e Hillary durante comício da pré-candidata

Perder o seu status de líder por não estar preparado para concorrer com o principal oponente que tem um grande apelo e poder para ficar? Diga que é o oponente, Barack Obama, que não está preparado.

Os Clinton tentaram transformar março no mês da dúvida na disputa pela nomeação no Partido Democrata. Eles tentaram provocar o remorso dos democratas sugerindo que Obama, que ganhou em 25 Estados e no distrito de Columbia, não é nada além de um bom discurso. A campanha de Hillary questionou o processo de seleção de delegados dos democratas e ajudou a colocar lenha na fogueira das primárias na Flórida e em Michigan.

Os Clinton criticaram a tática de campanha de Obama, mostrando ser tão agressivos e divisórios quanto o candidato. Tanto Bill quanto Hillary Clinton sugeriram que Obama seria um bom aliado de campanha, apesar de ela estar atrás dele em número de delegados e Estados.

Confiança ou atrevimento?

"Talvez seja a primeira vez na história que a pessoa que está em segundo lugar ofereça a quem está em primeiro lugar a posição de segundo", disse o ex-líder democrata no Senado, Rom Daschle, que apóia Obama, no programa "Meet the Press" da NBC. Daschle parecia dividido entre estar horrorizado e ter uma admiração relutante pela audácia da sugestão dos Clinton.

Poucos políticos teriam triunfado nessas alturas. Os analistas já deram as despedidas solenes a Hillary Rodham Clinton por duas vezes, mas sua tenacidade além de sua própria sobrevivência são as suas principais razões para ir para Pensilvânia em 22 de abril. Se há alguém determinado a conseguir uma nomeação, é ela.

Os Clinton transformaram a incongruência em triangulação política. Depois do retorno da senadora com as vitórias em Ohio, Texas e Rhode Island, os Clinton argumentam que Obama não estava pronto para ser presidente, e ao mesmo tempo sugeriram que ele seria um bom aliado. A campanha da senadora declarou que ela está sendo vítima de má publicidade - e até mesmo conseguiu levantar dinheiro com isso - enquanto seu diretor de comunicações comparava as táticas da campanha de Obama com as táticas de Ken Starr, o ex-promotor altamente desprezado pela esquerda. O que é pior para um democrata: ser chamado de "monstro", como um conselheiro de Obama dispensado desde então chamou Hillary Clinton, ou ser comparado a Starr?

Os Clinton têm argumentado que os grandes Estados nos quais ela ganhou são mais importantes para os democratas do que o número maior de pequenos Estados conquistados por Obama, mesmo que o Partido Democrata sob a presidência de Howard Dean esteja no quarto ano de uma estratégia de 50 Estados que procura não deixar nenhum Estado de fora.

Será que desgastar o adversário, se esquivar, dividir, provocar e triangular são as habilidades políticas que o país almeja em um novo presidente? Ou será que o país, exausto com a guerra e com a ameaça de terrorismo, preocupado com a economia e cansado das disputas infindáveis em Washington, não estaria afinal precisando de algo bem diferente?

O sucesso de Obama - ele tem uma liderança de mais de cem delegados - diria que sim. Mas a incapacidade do jovem senador de Illinois em fechar o negócio com sua campanha conciliatória também sugere que a atração anos 90 dos Clinton, e a admiração pela sua tenacidade e até mesmo por sua audácia, continua sendo uma força potente no Partido Democrata.

Talvez a proposta de fusão que ambos os Clinton sugeriram seja possível, apesar de que, enquanto eles fazem papel de vilão e mocinho em relação a Obama, os republicanos continuam tocando sua propaganda eleitoral adiante. Talvez a hierarquia do Partido Democrata - os escalões de superdelegados, oficiais eleitos e outras figuras importantes - tenha de tomar a decisão.

E nesse ambiente - de disputas políticas a portas fechadas, negociações e manobras - ninguém é melhor do que os Clinton. Eloise De Vylder

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