Os EUA podem aprender com a rápida recuperação econômica da Suécia?

David J. Lynch

Enquanto as autoridades americanas buscam por soluções para o que muitos economistas estão chamando de a crise financeira mais séria desde a Grande Depressão, elas poderiam tirar algumas lições de outra emergência bancária dolorosa e onerosa.

No início dos anos 90, um enorme estouro de bolha imobiliária sueca encheu a economia nórdica de empresas financeiras quebradas, empresas inadimplentes e trabalhadores desempregados. Foi a primeira crise bancária sistêmica em um país industrializado desde os anos 30 e fez a economia sueca encolher por três anos consecutivos -algo que não acontece nos Estados Unidos desde a rápida desmobilização após a Segunda Guerra Mundial.

As crises sueca e americana compartilham muitas características: ambas ocorreram após períodos de desregulação financeira e ambas exibiram bancos audaciosos empregando manobras contábeis para assumir quantidades insustentáveis de dívidas. Felizmente, apesar das condições econômicas piores do que as atuais nos Estados Unidos -e diferente de um episódio semelhante no Japão- a Suécia se recuperou rapidamente.

Mas isso ocorreu de uma forma que seria altamente controversa nos Estados Unidos. A Suécia usou dinheiro dos contribuintes -muito- para reconstruir seus bancos feridos. "No caso da Suécia, a solução no final foi parar no balancete do governo. O governo acabou recapitalizando o sistema", disse o economista David Rosenberg, do Merrill Lynch. "Há uma lição aqui."

A gestão bem-sucedida da crise pela Suécia pode oferecer um roteiro para as autoridades americanas. Mas a limpeza sueca não foi barata. Ela custou à população cerca de 6% do produto econômico anual; uma conta equivalente para os Estados Unidos atualmente seria de quase US$ 850 bilhões. E a Suécia conseguiu implantar um socorro governamental ilimitado apenas por causa de um amplo consenso político que é difícil imaginar em meio ao clima hiperpartidário de uma eleição americana.

"Havia uma tradição na Suécia de cooperação entre os partidos. Era uma crise tão óbvia que todos estavam realmente assustados", disse Peter Englund, da Escola de Economia de Estocolmo.

Uma história familiar
Para qualquer um que esteja prestando atenção à deterioração das condições financeiras nos Estados Unidos, o episódio sueco parece estranhamente familiar. Primeiro, ocorreu uma expansão por vários anos, com os ganhos aumentando e os bons tempos parecendo permanentes.

Mas em meio ao boom, as sementes dos futuros problemas foram plantadas na Suécia. Uma desregulação abrangente dos mercados de crédito em 1985 introduziu os banqueiros a novos clientes, produtos e mercados que nem eles e nem os reguladores do governo entendiam plenamente. "A autoridade supervisora não estava preparada para o novo ambiente que surgiu após a desregulação do mercado de crédito. Isto fez com que, durante os anos 80, os bancos pudessem conceder empréstimos duvidosos e às vezes altamente inseguros sem qualquer intervenção supervisora", escreveu Urban Backstrom, na época alto funcionário do Ministério das Finanças.

Grande parte da avalanche de novos empréstimos foi despejada em um mercado imobiliário exageradamente aquecido, onde os preços dos imóveis comerciais mais que dobraram na segunda metade dos anos 80. Os primeiros sinais de problemas surgiram entre as empresas financeiras responsáveis por grande parte desses investimentos. Em setembro de 1990, uma empresa chamada Nyckeln -conhecida como "The Key" (a chave)- encerrou suas atividades quando foi incapaz de renovar seu financiamento.

Muitas financeiras eram de propriedade de um punhado de grandes bancos que dominavam a economia sueca. Empresas como a Nyckeln financiaram suas operações com um novo tipo de papel comercial chamado "marknadsbevis", que os bancos garantiam. Quando a Nyckeln se tornou inadimplente, o mercado para estes títulos repentinamente entrou em colapso e as perdas ricochetearam de volta aos balancetes dos bancos, assim como os bancos americanos de hoje sofrem com as perdas com os títulos complexos que cancelaram em seus balancetes.

"Há uma semelhança notável com o que está acontecendo agora", disse Staffan Viotti, alto conselheiro do presidente do banco central sueco.

No final de 1991, havia indicações de que dois dos maiores bancos suecos tinham esgotado suas reservas de capital e estavam caminhando para a falência. Os preços dos imóveis, que antes pareciam capazes de apenas subir, despencaram 50% em 18 meses.

A economia encolheu em 1991 pela primeira vez em 10 anos e então continuou encolhendo em 1992 e 1993. O desemprego deu um salto repentino de 1,6% em 1990 para 12% em 1993. As autoridades do governo que debatiam sua resposta se depararam com "um clima de emergência nacional de um tipo quase semelhante a uma guerra", segundo Viotti.

Diante do temor de que um colapso do setor bancário faria a economia ruir, o governo sueco emitiu em setembro de 1992 uma garantia a todas as obrigações dos bancos. Depositantes, credores e parceiros comerciais estariam protegidos das perdas. Mas para evitar o encorajamento de um comportamento financeiramente arriscado no futuro, os acionistas tiveram que sofrer. Em troca do dinheiro público, o governo recebeu títulos dos bancos individuais enquanto os proprietários existentes viram suas participações encolherem.

Os legisladores suecos criaram uma agência independente -a Autoridade de Apoio aos Bancos- para administrar a reabilitação do setor bancário e lhe deu um cheque em branco. Mas todos os bancos que buscaram ajuda do governo tiveram que se submeter a um levantamento detalhado de cada um de seus empréstimos. Na prática, isto representou um processo de triagem financeira promovido pelo governo, separando as partes saudáveis do setor bancário das que estavam podres.

As partes "boas" do setor foram salvas com injeções de novo capital tanto do governo quanto de fontes privadas. As partes "ruins" foram colocadas em duas empresas de administração de ativos criadas pelo governo e vendidas. Um grande banco, o Gota Bank, foi à falência e foi fundido ao saudável Nordbanken em 1993 (atualmente conhecido como Nordea).

"Uma das lições mais importantes é que as autoridades devem poder intervir o mais rápido possível quando um banco enfrenta problemas", escreveu posteriormente Stefan Ingves, o arquiteto da operação de socorro e atual presidente do Riksbank, o banco central sueco.

Centavos por dólar
A forma como o governo decidiu lidar com a situação levou a uma recuperação econômica quase tão repentina quanto a crise que a precedeu. A economia expandiu a uma taxa anual de quase 4% tanto em 1994 quanto em 1995. A garantia emergencial aos bancos foi eliminada em 1996 e substituída por um sistema de depósitos de seguro semelhante à Federal Deposit Insurance Corp. nos Estados Unidos.

A solução firme da crise por parte da Suécia recebeu aplauso dos economistas, incluindo do então presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central americano), Alan Greenspan, que disse em 1999 que o episódio mostrou que uma "solução rápida é boa". O FMI usou o caso sueco na preparação de uma lista de "melhores práticas" para os países asiáticos que tentavam sobreviver às suas próprias crises no final dos anos 90.

Atualmente, a porta-voz do Departamento do Tesouro, Brookly McLaughlin, disse que as autoridades estão cientes da experiência sueca mas não a consideram "um exemplo para nós".

Há diferenças entre as situações americana e sueca, com alguns dizendo que é necessário cautela. A Suécia, afinal, é um país pequeno. Seu produto econômico anual é igual à 10 dias de atividade nos Estados Unidos. Os problemas da Suécia também foram exacerbados por artigos de seu sistema tributário e uma defesa equivocada de uma taxa de câmbio fixa. Isto levou as autoridades, em meio à crise monetária européia no final de 1992, a aumentar brevemente as taxas de juros do overnight para comercialmente fatais 500%.

Os atuais problemas financeiros americanos são sem precedentes em sua complexidade. A atual crise não se limita aos bancos comerciais e às práticas de empréstimo tradicionais. Em vez disso, os bancos de investimento e uma série de títulos que nem mesmo existiam no início dos anos 1990 -como os swaps de inadimplência de crédito, obrigações de dívida colateralizada e veículos de investimento estruturados- ocupam papéis proeminentes no momento.

"Era muito mais fácil naqueles dias para alguém de fora promover um levantamento da situação financeira de um banco específico", disse Goran Lind, um alto funcionário do Riksbank. "Hoje as coisas são muito menos transparentes."

Ainda assim, alguns vêem indicações de que os Estados Unidos já estão aplicando algumas lições aprendidas com a Suécia. Anders Aslund, um economista sueco do Instituto Peterson para Economia Internacional, em Washington, DC, aponta para a rápida venda do problemático banco de investimento Bear Stearns para o JP Morgan Chase como um exemplo. O negócio, promovido pelo Federal Reserve, evitou o risco de que um colapso do Bear Stearns pudesse derrubar instituições financeiras adicionais. E deixou os acionistas com centavos para cada dólar de investimento.

Pagando o preço
"O Bear Stearns parece, a meu ver, exatamente saído da cartilha de como a Suécia lidou com a crise bancária", ele disse.

Edward Kane, um professor de finanças do Boston College, disse que a decisão do Fed de facilitar a venda ao garantir US$ 29 bilhões em ativos do Bear Stearns é o primeiro sinal do que representa uma tomada do sistema financeiro pelo governo. "Eles forneceram implicitamente garantias a quaisquer uma dessas firmas. Há uma nacionalização (ocorrendo). É implícita e não reconhecida", disse Kane, que já prestou consultoria ao Fed, ao Fundo Monetário Internacional e a bancos centrais estrangeiros.

Essas garantias tornam o governo um proprietário parcial das grandes instituições financeiras do país. Na Suécia, por exemplo, no auge da crise, o governo detinha 22% do sistema bancário. Quando a crise passou e os bancos retornaram à lucratividade, o contribuinte sueco compartilhou os ganhos.

Kane disse que o governo americano devia adotar o remédio sueco e emitir garantias formais às instituições financeiras do país, para que os contribuintes possam se beneficiar com uma recuperação. "Para obter as vantagens, nós temos que torná-las explícitas. O público merece uma melhor descrição do que está acontecendo do que a que está recebendo", ele disse.

Autoridades suecas como Lind dizem que o governo no final recuperou todo o dinheiro gasto na recapitalização dos bancos com as vendas dos ativos "non-performing" (de curso anormal). Mas o "Banco de Dados de Crise Bancária" definitivo do Banco Mundial coloca o custo líquido em ainda altos 4% do produto interno bruto.

Mesmo enquanto a economia recuperava impulso, a Suécia continuou pagando pelos abusos cometidos anteriormente. O desemprego permaneceu acima dos níveis pré-crise ao longo de todos os anos 90 e o governo sueco, que tinha superávits nos anos 80, sofreu déficits orçamentários por sete anos consecutivos. Os padrões de vida relativos da Suécia também sofreram um golpe.

Kenneth Rogoff, professor da Universidade de Harvard e co-autor de um recente estudo sobre crises financeiras modernas, disse que o custo de consertar o sistema financeiro americano seria no mínimo igual ao gasto pelos suecos. George El Khouri Andolfato

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