Descobertas dos espiões modernos estão à vista de todos na Internet

Peter Eisler
Em Washington

Há 40 anos, os presidentes dos Estados Unidos começam seus dias com um relatório pessoal confidencial sobre ameaças de segurança e assuntos internacionais obtido em grande parte por meio de missões secretas de espionagem, observações de satélites clandestinos e outras fontes de inteligência altamente confidenciais.

Agora, todavia, o Relatório Diário do Presidente e outros relatórios chave da inteligência se baseiam cada vez menos em arriscadas missões de espionagem do que no material que está à disposição de quase todo mundo.

Funcionários da inteligência reuniram informações sobre a capacidade nuclear do Irã a partir de fotos na Internet. Eles já desenterraram documentos, inclusive um manual de treinamento terrorista, em conferências internacionais e fóruns públicos. Já encontraram informações em bibliotecas de universidades estrangeiras e serviços noticiosos.

Esse tipo de material é conhecido como "inteligência de fonte aberta" ou, no jargão carregado de siglas das 16 agências federais que formam a comunidade de inteligência dos EUA, Osint (open source intelligence). A explosão de informações disponíveis na Internet e outras fontes públicas levou a coleta e a análise desse material para o topo da lista oficial de prioridades do mundo da espionagem, dizem os funcionários da inteligência.

A mudança não tem sido fácil em uma burocracia que normalmente mede seu sucesso pela capacidade de roubar segredos. Comissões federais têm criticado repetidamente a comunidade de inteligência por não agir mais rápida e agressivamente ao explorar as informações de fontes abertas.

É uma tarefa difícil, levando em conta as montanhas de material a ser examinado. Cada pedaço potencialmente útil de informação precisa ser avaliado porque os países inimigos e grupos terroristas, como a Al Qaeda, às vezes usam a Internet ou outros canais abertos para divulgar informações falsas.

Ainda assim os oficiais dizem que as agências estão superando esses obstáculos e cavando um número cada vez maior de tesouros de inteligência.

"Não é mais exceção encontrar material de fonte aberta no Relatório Diário do Presidente e normalmente se trata de um componente muito importante da informação que é incorporado em nossas análises de inteligência", diz Frances Townsend, que até janeiro foi assistente de segurança nacional do presidente Bush e conselheiro para segurança interna e contraterrorismo.

Quer sejam informações sobre o desenrolar da política russa, a expansão da gripe aviária, o crescimento do fundamentalismo islâmico na Ásia ou a capacidade tecnológica das nações inimigas, "houve uma mudança considerável no sentido de se confiar mais nas informações de fontes abertas", acrescenta Townsend. E "muito do que sabemos sobre os nossos adversários (terroristas) vêm de declarações e vídeos que eles colocam na Internet."

A comunidade de inteligência está investindo pesado para melhorar sua coleção de informações de fonte aberta.

A CIA criou um Centro de Fonte Aberta, sediado em um prédio de escritórios discreto no subúrbio de Washington, onde os oficiais analisam de tudo, desde sites apoiados pela Al Qaeda até documentos distribuídos em simpósios de ciência e tecnologia, diz Douglas Naquin, diretor do centro.

Outras agências, como a FBI e a Agência de Inteligência de Defesa, estão treinando muitos analistas para garimpar as fontes abertas e dando a eles acesso à Internet. É uma grande mudança levando em consideração que até então os computadores dessas agências eram destinados a evitar a troca de dados com o domínio público.

Ao mesmo tempo, os funcionários de segurança nacional também estão lutando com o outro lado do fenômeno de fonte aberta: assegurar que as informações importantes do governo, empresas e até mesmo de indivíduos não caiam na mesma rede pública que as agências de inteligência dos EUA estão apurando.

Funcionários da inteligência vêem tudo isso como uma evolução necessária.

As fontes abertas podem fornecer até 90% da informação necessária para a maioria das necessidades de inteligência dos EUA, disse o deputado diretor de Inteligência Nacional Thomas Fingar em um discurso recente. Coletar essa informação é "terrivelmente importante", disse. "Isso deve ser uma parte normal do nosso trabalho, sem ficarmos fixados nos segredos que escorrem para a caixa de entrada do computador."

Mas o progresso tem sido lento.

Robert David Steele, um ex-funcionário da CIA e da inteligência dos Fuzileiros Navais, dá à comunidade de inteligência um D+ no que diz respeito ao uso da informação disponível na Internet, em imagens de satélites comerciais e outras fontes abertas.

"Ainda existe um culto do segredo - nada é visto como importante a não ser que seja confidencial", diz Steele, fundador da OSS.Net, um provedor comercial de inteligência para companhias privadas e para o governo.

As agências ainda não estão investindo o suficiente em treinamento e tecnologia para usar as fontes abertas, diz ele, assim os analistas não têm habilidade com a linguagem e com a informática, e muitos usam equipamentos defasados de hardware e software que tornam as pesquisas lentas e pesadas.

"Há muitos problemas", diz Steele. "É o hardware, o software, a atitude mental, mas, principalmente, a falta de visão de liderança".

Poder nuclear do Irã
Talvez a maior prova até agora de que a comunidade de inteligência está abraçando as informações de fonte aberta tenha surgido em dezembro, quando oficiais do alto escalão dos EUA descobriram algumas fotos disponíveis na mídia pública que resultaram numa nova avaliação por parte dos analistas de inteligência dos EUA de que o Irã havia suspendido a construção de uma arma nuclear em 2003.

O novo Prognóstico de Inteligência Nacional sobre o programa nuclear do Irã reverteu as análises anteriores, que diziam que o país tinha um programa de armas nucleares em andamento.

A mudança de visão foi baseada principalmente em fotos da base nuclear de Natanz, no Irã, incluindo algumas fotos de um tour de imprensa e de inspeções das Nações Unidas, de acordo com o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional.

Ao levantar questões importantes, como o tamanho dos dutos dentro da usina nuclear, as fotos forneceram pistas importantes sobre a capacidade do local.

As fotos não estavam disponíveis quando as primeiras avaliações sobre o programa nuclear do Irã foram feitas. E, mesmo que estivessem, a coleta de informações públicas por parte do Centro de Fonte Aberta da CIA e outros projetos similares ainda estava no princípio.

Até agora, as agências de inteligência têm dificuldades em explorar todas as informações de fonte aberta que estão disponíveis e selecionar o que é útil, reconhece Naquin. "O volume é assustador".

Desde 2005, quando o centro foi aberto, o governo aumentou consideravelmente os gastos com tecnologia e treinamento para ajudar os analistas a encontrarem informações úteis, diz Naquin, mas a quantidade de dinheiro e o número de funcionários são sigilosos.

"Com tantas fontes de informação (para monitorar), precisamos usar muito mais a tecnologia do que fazíamos no passado para ajudar a encontrar informações úteis", diz ele.

Mudança lenta
As agências de inteligência têm usado informações de fonte aberta há décadas, mas isso consistia principalmente em monitorar os noticiários estrangeiros. Conforme a era da informação começou, as agências foram lentas para reunir todo o material que começou a se espalhar pelo domínio público.

Ainda em 1996, uma comissão do Congresso criada para estudar assuntos de inteligência havia percebido que quantidades imensas de informações de fonte aberta estavam "à pronta disposição", mas a comunidade de inteligência estava sendo "inexplicavelmente lenta" para usá-las.

Quase uma década depois, pouco mudou, conforme foi revelado por uma outra comissão criada pelo Congresso e pela Casa Branca para investigar por que a comunidade de inteligência acreditava, antes da guerra do Iraque, que o país desenvolvia armas de destruição em massa.

As fontes abertas "oferecem vastas possibilidades para a inteligência", disse o relatório da comissão de 2005. "Infelizmente, essas fontes 'não secretas' são com freqüência desvalorizadas e pouco utilizadas."

O ex-fuzileiro naval e ex-funcionário da CIA Steele aponta que o investimento da comunidade de inteligência nas fontes abertas ainda é uma fração mínima do que é gasto na busca de segredos, e segundo ele essa proporção deve ser invertida.

"Não sou um bibliotecário dizendo que as fontes abertas são legais e devemos explorá-las", diz. "Sou um ex-espião competente dizendo que as fontes abertas são legais e devemos explorá-las."

Alguns funcionários de inteligência ainda vêem a informação secreta como mais confiável, mas cada vez mais "há uma aceitação cultural maior" do material vindo de fontes abertas, diz Charlie Allen, subsecretário de inteligência no Departamento de Segurança Nacional.

"Isso começou a mudar drasticamente no final dos anos 90, e de fato se estabeleceu depois do atentado de 11 de setembro", diz Allen, que pressionou para expandir a coleta de informações de fonte aberta durante as décadas em que foi alto oficial da CIA.

"As fontes abertas são o mundo do futuro"
Os sucessos das fontes abertas, como as novas conclusões sobre o programa nuclear do Irã, ajudaram a incitar essa mudança. Em outra ocasião, diz Naquin, um funcionário de inteligência encontrou um manual de treinamento terrorista que foi distribuído em um evento público no Sudeste Asiático.

Mas o reconhecimento das fontes abertas acontece raramente, porque os oficiais não querem revelar o tipo de informação que consideram útil.

Além disso, a informação de fonte aberta nem sempre leva a momentos de "eureka" no mundo da inteligência, diz o agente do FBI Murphy. Mais freqüentemente, é usada para "adicionar perspectiva e contexto" ao material conseguido de forma sigilosa.

No mais, diz ele, esse tipo de informação ajuda os oficiais a direcionarem mais as missões secretas a partir do material obtido de outras formas. "Cada vez mais nos pedem para pesquisar as fontes abertas primeiro, e depois mostrar o valor adicional a que chegamos com a espionagem."

"Conheça o inimigo"
Ellen Tudisco, chefe do departamento de fontes abertas da Agência de Inteligência de Defesa reconhece que tem havido "uma espécie de apego herdado às fontes sigilosas". Todavia, diz ela, "acabamos percebendo que podemos conhecer o inimigo ao avaliar o que ele diz, e ele diz isso em fontes abertas."

A experiência da AID reflete tanto a crescente aceitação das informações de fontes abertas quanto os problemas que as agências de inteligência enfrentam ao tentar usá-las.

Nos 18 meses desde que o departamento foi criado, a equipe de Tudisco cresceu de duas para 15 pessoas.

Mas ela diz que levará pelo menos mais nove meses para chegar ao objetivo de dar a todos os analistas da AID pronto acesso à Internet e ensiná-los a trabalhar com segurança no mundo sem sigilo.

O FBI enfrenta desafios similares. Cerca de 11 mil funcionários do FBI agora têm acesso à Internet, diz Wayne Murphy, diretor-assistente da diretoria de inteligência da agência.

Outros 19 mil ainda estão sem, e Murphy diz que levará até o fim de 2009 para que todos eles recebam o equipamento necessário e sejam treinados para usá-lo da melhor forma.

"Apenas dar um computador e uma conta na Internet para alguém não torna essa pessoa um analista de fontes abertas", diz Murphy.

O FBI é também uma das muitas agências de segurança que estão reavaliando sua abordagem para garantir que informações importantes do governo e do setor privado não vazem pelo mesmo tipo de fontes abertas que a comunidade de inteligência está tentando explorar. Isso significa estabelecer novas prioridades para proteção de dados.

"Quando é difícil manter os segredos, o que 'realmente' devemos proteger?", pergunta Joel Brenner, executivo de contra-inteligência para a diretoria de inteligência nacional.

É uma questão que tanto o governo, quanto o setor privado e os indivíduos devem enfrentar, acrescenta, apontando para o fato de que o FBI está trabalhando não somente com o Pentágono mas também com a indústria privada para identificar que tipo de informação precisa ser protegida e qual a melhor maneira de fazer isso.

"Agora a contra-inteligência é um problema para todos que têm segredos e estão conectados em uma rede", diz Brenner. "Ou seja, todos nós." Eloise De Vylder

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