Economia do Egito cresce, assim como a miséria

Por David J. Lynch
No Cairo, Egito

Após quatro anos de robusta expansão econômica, o Egito deixou para trás sua história como um adormecido Estado socialista árabe e abraçou o mercado. Uma nova onda de construção está despejando edifícios comerciais tão rápido quanto o processo de criação dos nomes ocidentalizados que recebem, como Palm Hills, por exemplo. Companhias estatais sonolentas que vão desde bancos a lojas de departamento estão sendo vendidas para investidores privados e há uma enxurrada de capital estrangeiro no país, atraído pelo aroma do lucro certeiro.

O Egito hoje tem todos os sinais de um boom crescente. É estranho, portanto, que a maioria dos egípcios pareça tão miserável. "As condições de vida não são fáceis. Todos estão sofrendo por causa dos preços altos", diz o cansado Gomaa Ali, dono de um restaurante.

Um dia desses no pequeno restaurante de Ali, as moscas ultrapassavam o número de clientes. A inflação na casa dos dois dígitos combinada com os salários estagnados abocanhou seu negócio e fez com que o discurso do governo sobre uma economia em crescimento parecesse divorciado da realidade. "As pessoas estão evitando comer fora de casa. Se você viesse aqui dois ou três anos atrás, esse lugar estaria lotado, e os clientes tinham de fazer fila para conseguir uma mesa", diz ele, apontando para as cadeiras vazias e suando ao calor opressivo do meio-dia.

Nasser Nuri/Reuters - 6.abr.2008 
Egípcios fazem fila diante de padaria que distribui pão de graça em Mahalla, no Egito

Mesmo enquanto o governo recita uma liturgia de estatísticas impressionantes, as queixas de Ali ecoam entre os 80 milhões de cidadãos do país que sofrem há muito tempo. As reformas econômicas ambiciosas lançadas em 2004 ganharam o aplauso dos empresários mais fizeram pouco pelo povo em geral. A pobreza, na verdade, aumentou durante os últimos três anos apesar de um crescimento econômico anual de 7%. Essa desconexão leva a questionar se o governo será capaz de sustentar suas reformas num cenário de descontentamento crescente por parte dos trabalhadores e um clima generalizado de reclamações.

O primeiro-ministro reformista egípcio Ahmed Nazif continua comprometido com a transição de uma gigante economia estatal para uma mais orientada pelo mercado. Mas as autoridades de segurança temem que o perigo da instabilidade, à medida que os subsídios populares para alimentos e energia são reduzidos, sobrepuja o potencial de melhoria a longo prazo do padrão de vida. Os preços dos alimentos muito mais altos mundialmente apenas intensificam o dilema, enquanto o governo opta por aumentar os gastos com subsídios para o pão, que na verdade queria reduzir.

"Eles estão relutantes em fazer mais. Não estão com ânimo para desafiar o povo", diz o economista George Abed do Instituto de Finança Internacional, uma associação global que reúne instituições financeiras em Washington, D.C..

Acompanhando a situação de perto estão os investidores internacionais que têm derramado fundos no país mais populoso do mundo árabe. O investimento estrangeiro direto cresceu de apenas US$ 450 milhões há cinco anos para mais de US$ 10 bilhões no ano passado. Uma pista: o Egito está entre os principais beneficiários de uma torrente de dólares do petróleo vindos de países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos. Os Estados Unidos foram a principal fonte de capital no ano passado, apesar de estarem em oitavo lugar no investimento cumulativo. Grandes corporações americanas como o Citybank, General Motors e Procter & Gamble têm investimentos grandes no país.

O maior investidor norte-americano é a Apache, uma companhia de energia sediada em Houston que começou a explorar as reservas de óleo e gás em 1994. Cerca de um quinto da dos US$ 3,2 bilhões do lucro da companhia no primeiro quadrimestre veio do meio do deserto egípcio.

O CEO Steven Farris, 60, diz que o Egito tem se tornado mais "amigável aos negócios" nos últimos anos. Uma prova disso pode ser encontrada na pesquisa anual "fazendo negócios" do Banco Mundial, que em 2006 qualificou o Egito no 152º lugar, entre 178 países. Depois de cortar a faixa inaugural, o Egito atingiu o maior lucro anual entre todos os países, subindo para o número 126 na última pesquisa, divulgada no outono. O progresso significativo foi comprovado pela facilidade de abrir um negócio e de fazer comércio entre as fronteiras, disse o banco. "O Egito é um lugar diferente do que era em 94. Se eu acho que ele vai continuar nesse caminho?", diz Farris. "Acho que sim."

O shopping mais elegante
O Egito não vai tão bem em uma outra pesquisa anual, a lista da organização Transparência Internacional, que revela a percepção dos executivos sobre a corrupção nos países. Entre 179 nações, o Egito empatou em 105º lugar com países como a Albânia e a Bolívia, de acordo com o grupo não-partidário contra a corrupção.

"Se você quiser ter sucesso, tem de participar desse círculo dos que mandam em todos os níveis", diz Yousef Zaki, 59, empresário local que usa a propina rotineiramente ao negociar com os órgãos do governo.

Um fluxo contínuo de capital estrangeiro é fundamental para manter as esperanças do governo em um aumento de investimentos por toda a economia. Os investimentos hoje equivalem a 22% do total da produção de bens no país, 17% a mais do que há três anos, mais ainda assim menor do que a meta do governo, de 27%.

A localização do Egito no meio de rotas de comércio que ligam a Ásia, o Oriente Médio e a Europa é sua principal propaganda quando as autoridades do país se encontram com investidores em potencial. Até agora, o governo tem sucedido em competir contra países como a Turquia pelo direito de abrigar companhias que procuram uma plataforma de exportação para os consumidores da África e do Oriente Médio. Mas já perdeu para países de rápido crescimento como o Vietnã quando as companhias multinacionais avaliaram possíveis anfitriões em todo o mundo para centros de pesquisa de alta tecnologia.

Uma grande parte do investimento estrangeiro vem de países árabes vizinhos que estão investindo seus dólares de petróleo em projetos de especulação imobiliária. Nas ruas de Cairo, outdoors divulgam o projeto comercial Towers Mall - "o shopping mais elegante" - e fazem propaganda de condomínios residenciais para os moradores mais abastados.

"A região está irrigada com dinheiro. Tradicionalmente, esse capital era destinado a investimentos na América do Norte e na Europa", diz Amer Kayani, conselheiro comercial da Embaixada dos Estados Unidos. "Agora, os investidores estão procurando oportunidades cada vez mais próximas de casa."

Não há dúvida de que o Egito tem sido bastante bem sucedido em atrair o investimento estrangeiro. Mas não está claro qual foi o impacto desse capital em criar empregos em toda a economia.

O investimento estrangeiro no Egito - que já foi concentrado em peso no petróleo e na gasolina - ficou mais diversificado conforme os investidores abriram caminho para fábricas de fertilizantes, produtos químicos e bens de consumo. Mas no ano passado, mais de um terço do investimento estrangeiro foi para a privatização das grandes empresas estatais, como o Banco de Alexandria e a loja de departamentos Omar Effendi. Essas negociações tipicamente levam a grandes cortes de emprego conforme as enormes folhas de pagamento estatais são reduzidas.

Nos últimos cinco anos, a taxa de desemprego oficial diminuiu de 11 para cerca de 9%. Ainda assim, os economistas dizem que o número parece ser menor do que a falta de emprego atual. E o governo diz que é incapaz de quantificar o efeito dos investimentos estrangeiros sobre o emprego.

Com uma população que cresce rapidamente, o Egito tem de abrir 600 mil novos postos de trabalho a cada ano para acompanhar a quantidade de pessoas que entram no mercado de trabalho. "Isso é um desafio", reconhece Neveen El Shafei, vice-presidente da Autoridade Geral para Investimentos e Zonas Livres.

Um dos piores engarrafamentos do mundo
Um dos maiores sucessos egípcios cresceu a partir de uma medida na lei de comércio dos EUA planejada para promover a reconciliação árabe-israelense. Em 2004, os EUA aprovaram planos para que o Egito exportasse os produtos americanos feitos em zonas de exportação especiais. Desde que os produtos tivessem pelo menos 11,7% de seu valor de investimentos israelenses, poderiam entrar nos EUA sem taxa alfandegária.

Houve um boom de companhias como a Cairo Cotton Center, que fabrica camisetas, moletons e calças para lojas americanas como Macy's e The Gap. Com uma venda anual de US$ 14,7 milhões em 2005, a companhia foi crescendo de forma estável e espera chegar a US$ 32 milhões este ano. Isso aumentou seu número de funcionários de 1.700 há quatro anos para 3 mil hoje e proporcionou ao seu dono Magdy Tolba uma vida que a maioria dos egípcios nem é capaz de imaginar. Um dos empresários mais eminentes da cidade, Tolba atravessa o horrível congestionamento da cidade num sedan Mercedes com motorista. Seu filho monta a cavalo muito bem. E sua filha desfruta de educação universitária fora do país.

Mesmo assim, Tolba diz que o Egito não capitalizou totalmente suas oportunidades. A infra-estrutura inadequada na cidade do Cairo, que faz com que o congestionamento crônico seja um dos piores do mundo, é um obstáculo numa era de entregas imediatas. Tolba perdeu todo o lucro num pedido recente da The Gap porque seus caminhões ficaram parados no tráfego. A mercadoria não conseguiu chegar a tempo no porto e Tolba foi obrigado a arcar com os custos de enviá-la por avião.

O executivo bem sucedido também lamenta o fraco sistema educacional do país que forma uma mão-de-obra sem qualificações necessárias. Os jovens egípcios, diz Tolba, querem trabalhar no governo onde não se exige muito deles. Isso limitou a capacidade de expansão da indústria de confecções. "Nossos compradores americanos precisam que o Egito tenha capacitação, mas não encontram isso aqui. O Egito tem potencial, mas sinto dizer que não o estamos usando", diz.

Falta de esperança
A frustração popular com o baixo padrão de vida tem crescido ao longo dos anos. O crescimento econômico recente, sentido apenas por aqueles que já estavam bem de vida, fez pouco para mudar esse descontentamento.

Em 1970, o salário mínimo fixado pelo governo para universitários graduados entrando no mercado de trabalho era suficiente para comprar cerca de 340 quilos de arroz, de acordo com o economista Ahmed El-Nagar do Centro Ahram de Estudos Políticos e Estratégicos. Quase quatro décadas depois, como reflexo do aumento dos preços dos alimentos e da estagnação dos salários, um funcionário novo no governo recebe um pagamento capaz de comprar pouco mais do que 45 quilos de arroz.

O descontentamento por parte dos trabalhadores vem crescendo há meses; protestos violentos eclodiram no início de abril na capital têxtil de Mahalla, ao norte de Cairo. No fim do mês, o presidente Hosni Mubarak decretou um aumento de 30% no salário dos funcionários públicos. As taxas corporativas vão aumentar e os subsídios sobre a gasolina serão cortados para pagar a conta do aumento salarial. O gesto foi planejado para eliminar a pressão da panela fervente do sentimento antigoverno. E pode dar certo; os egípcios têm uma reputação de suportar bem seus fardos.

Aqueles que apóiam as reformas dizem que poderá levar mais alguns anos até que os benefícios do crescimento econômico sejam sentidos nas ruas. Poucos parecem antecipar alguma melhora tangível em suas próprias circunstâncias em breve.

Num dia claro e quente no mês passado, dois irmãos, Abdel Bari Hadila, 40, e Ibrahim Hadila, 32, estavam num campo das terras férteis do Delta do Nilo. Eles falavam sobre a dificuldade de viver da terra - numa época em que os custos dos fertilizantes e tudo mais ficam cada vez mais altos - e sobre suas esperanças de um dia conseguir comprar uma simples casa de tijolos.

Ao ser lembrado de que a economia egípcia vem se expandindo há vários anos, o irmão mais velho explodiu. "Isso é o que o governo diz. Mas nós não estamos sentido isso que o governo diz. Pessoas como nós que não temos nada podemos trabalhar por 60 anos e ainda assim terminar sem ter nada", disse Abdel Bari, irritado. "As pessoas estão tendo de recorrer a todos os meios para ganhar seu pão, legítimos ou não. São tempos muito difíceis." Eloise De Vylder

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