Kissinger: os paradoxos da globalização

De Henry A. Kissinger

Pela primeira vez na história surgiu um sistema econômico genuinamente global com perspectiva de gerar um bem-estar até então inimaginável. Ao mesmo tempo -e paradoxalmente- o processo de globalização constitui-se em tentação para um nacionalismo que ameaça que tal globalização se concretize.

A premissa básica da globalização é que a competição selecionará o mais eficiente, um processo que, por definição, envolve vencedores e perdedores. Se houver perdedores perenes, estes voltar-se-ão para as suas instituições políticas familiares em busca de alívio. Eles não serão pacificados pela proposição válida de que os benefícios do crescimento global superam em muito os seus custos. Ademais, para permanecerem competitivos, muitos países são obrigados a encolher a sua legislação social -algo que sem dúvida acaba gerando protestos domésticos. Em períodos de conturbação econômica, essas tendências são ampliadas. O debate sobre a política comercial na campanha presidencial norte-americana é um caso ilustrativo.

Nos países industrializados, a globalização provoca impactos de duas formas sobre a política doméstica: o aumento da produtividade gera o paradoxo de uma elevação do bem-estar acompanhada de maiores índices de desemprego. Ao mesmo tempo, há uma fuga por parte da força trabalhadora dos empregos que não exigem qualificação. Estes empregos são, a seguir, ocupados por trabalhadores estrangeiros. Desenvolve-se um choque de culturas e um nacionalismo que prega a exclusão. Assim, variações do protecionismo adquirem uma base doméstica.

Essa tendência ocorre até mesmo em meio ao setor produtivo do mundo industrializado. Conectadas através da Internet às instituições industriais e financeiras similares de diversas partes do mundo, as empresas transnacionais operam no mercado global por meio de equipes que muitas vezes têm um mandato mais longo do que o dos governos e enfrentam menos restrições às suas análises. As empresas que permanecem dependentes da economia nacional geralmente não têm as mesmas oportunidades. De forma geral, elas empregam a força de trabalho que conta com os menores salários e as piores perspectivas. Elas tendem a se basear mais em mercados mais limitados e nos processos políticos nacionalistas. As companhias transnacionais defendem o livre comércio e a livre movimentação de capital. As companhias nacionais (e os sindicatos) exigem freqüentemente protecionismo.

É óbvio que as crises econômicas exponenciam essas tendências. E o sistema financeiro globalizado produziu crises periódicas quase tão previsíveis quanto o seu crescimento constante: na América Latina na década de 1980, no México em 1994, na Ásia em 1997, na Rússia em 1998 e nos Estados Unidos em 2001, e, novamente, a partir de 2007.

Embora cada crise conte com um desencadeador diferente, as suas características comuns são a especulação despudorada e a subestimação sistêmica do risco.

A cada década o papel do capital especulador aumenta. Para este capital, o atributo essencial é a agilidade. Entrando quando enxerga uma oportunidade e procurando a porta de saída ao primeiro sinal de problema, o capital especulador com muita freqüência transformou meras oscilações em bolhas e ciclos de desaquecimento econômico em crises.

O impacto estratégico da globalização talvez traga à tona as questões mais importantes em dois níveis: existem indústrias indispensáveis para a segurança nacional nas quais o investimento estrangeiro deveria ser limitado ou até mesmo proibido? Segundo, que indústrias precisam ser protegidas do colapso para a manutenção da nossa capacidade de defesa nacional? As respostas a estas questões sem dúvida costumam gerar abusos. Mas isto não é uma desculpa para se evitar aquilo que o interesse nacional determina que precisa ser enfrentado.

Assim, o sistema internacional depara-se com um paradoxo. A sua prosperidade depende do sucesso da globalização, mas esse processo produz uma dialética que pode funcionar contra o sistema. Os gerenciadores da globalização contam com poucas ocasiões para administrar o processo político desse sistema. E os gerenciadores do processo político norteiam-se por incentivos que não estão necessariamente harmonizados com os gerenciadores econômicos. Esta lacuna tem que ser eliminada, ou pelo menos estreitada.

Para começar, eu sugiro as seguintes prescrições:

- O primeiro imperativo é reconhecer que esses problemas são as conseqüências desagradáveis do grande sucesso. O debate sobre as deficiências do processo não devem descambar para ataques contra a sua estrutura conceitual básica, conforme tem ocorrido freqüentemente na campanha presidencial. Os líderes políticos têm que evitar -e não encorajar- o protecionismo que conduziu ao desastre da década de 1930.

- Os parâmetros dos limites de segurança nacional à globalização devem ser estabelecidos segundo uma perspectiva nacional, em vez de ficarem a cargo de grupos de pressão, lobistas e a política eleitoral. O próximo governo deveria estabelecer uma comissão bipartidária de mais alto nível para avaliar o que se constitui em uma base industrial e tecnológica estratégica para os Estados Unidos, e estudar medidas para preservá-la.

Uma das maiores prioridades de tal comissão deveria ser uma análise profunda de um sistema educacional que cria um número insuficiente de engenheiros e tecnólogos em relação aos nossos concorrentes. O critério deveria ser aquilo que é essencial para a segurança nacional, e não proteger empresas da concorrência essencial para o crescimento global.

Não será fácil traçar esta linha divisória, e há o risco de que tal esforço seja alvo de manipulação política. Mas o problema não desaparecerá e em algum momento tornar-se-á inadministrável.

- É preciso tornar as instituições econômicas internacionais relevantes para os atuais desafios sociais e econômicos. A reunião de cúpula anual de oito chefes de Estado (G-8) originou-se em 1975 como uma reunião de seis democracias industrializadas com o objetivo de mapear o futuro econômico e social daqueles países durante a primeira crise de energia (o Canadá ingressou no clube em 1976; a Rússia em 1998). Na primeira reunião, em Rambouillet, cada país só teve permissão para enviar três participantes, incluindo o presidente, e um membro da equipe de governo, para facilitar a discussão integral e franca. Desde então, essas reuniões degeneraram, tornando-se grandes assembléias cujas funções são essencialmente políticas.

Elas deveriam voltar a ter o seu objetivo original, dedicando-se antes de mais nada às questões que afetam a saúde de longo prazo da economia global, incluindo o fornecimento de oportunidades a sociedades que ficaram muito para trás para poderem participar do crescimento global. A Índia, a China e, potencialmente, o Brasil deveriam ser incluídos.

- O Grupo dos Sete países democráticos industriais original continua reunindo-se no nível dos ministros das finanças durante as reuniões do G-8. Este G-7 deveria ter, acima de tudo, a missão de fazer frente, de forma sistemática, às distorções domésticas e sociais provocadas pelo processo de globalização.

- O Fundo Monetário Internacional (FMI) , na sua forma atual, constitui-se em uma anacronismo. Ele foi criado para lidar com as crises resultantes dos empréstimos feitos ou tomados por governos. A instituição tem ficado à margem durante as crises financeiras do século 21, que foram produzidas por práticas no âmbito do setor privado. O FMI tem procurado adaptar-se às novas circunstâncias, mas de forma muito lenta; ele precisa ser reformulado.

- As práticas de empréstimo que geraram a crise econômica dos Estados Unidos exigem atenção urgente e uma maior cooperação internacional. Práticas condenáveis e obscurantistas foram observadas bem antes de a crise atingir o país. Elas tornaram-se possíveis devido à invenção de instrumentos financeiros que encorajaram a especulação enquanto, ao mesmo tempo, obscureciam a natureza das obrigações. Na crise das hipotecas, quem emprestou dinheiro perdeu a capacidade de estimar a extensão das suas obrigações e os devedores deixaram de entender as implicações dos seus compromissos. Os reguladores não intervieram, talvez porque a sua autoridade fosse insuficiente, ou porque o mercado encontrava-se saturado de instrumentos financeiros opacos que ocultavam o risco.

O perigo moral precisa ser enfrentado. Há uma contradição inerente quando as entidades financeiras têm permissão para auferir lucros extraordinários e gerenciar enormes recursos monetários e, a seguir, quando as condições mudam, declara-se que elas são muito grandes para permitir-se que fracassem, o que exige operações de resgate bancadas pelo contribuinte. As instituições financeiras, sejam elas bancos de investimentos ou fundos de hedge, precisam ser fiscalizadas de uma forma que proteja os interesses do contribuinte.

Em suma, se a lacuna entre as ordens econômica e política do mundo não for substancialmente reduzida, as duas estruturas acabarão enfraquecendo-se mutuamente. UOL

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