Força do discurso de Obama se sobressai no rádio

Garrison Keillor*
Para o USA Today

Noite quente, Nova York: há uma pequena brisa movimentando as árvores nos profundos desfiladeiros de pedra enquanto olho pela minha janela, milhares de pequenas janelas iluminadas de vidas privadas, um das quais é minha. Eu sou lembrado disto pelo fato de que a uns trinta metros de distância, um homem está em uma janela olhando por binóculos que parecem apontados precisamente para mim, e apesar de que ele certamente preferiria olhar para alguém mais empolgante do que um homem alto, de óculos, camiseta preta e jeans, um homem que não está pulando tocando guitarra imaginária ou prendendo o cabelo na cabeça com pedaços de fita adesiva ou abrindo o vestido de uma bela mulher. Todavia, ele está concentrado em mim, e não me afasto da janela em horror -na verdade eu me sinto (ligeiramente) honrado pela atenção dele.

Isto é o que fazemos na cidade grande: nós olhamos uns para os outros. Eu levo minha filha com cabelos cor de areia até o metrô na Houston Street e ela se senta, segurando minha mão, olhando para os rostos. Como se trata do metrô, não a regata de Cold Spring Harbor, há uma variedade impressionante de rostos, de todos os tons, formas e cortes de cabelo, de punk a pós-cabelo. De onde venho nós somos bastante semelhantes -lembra a velha piada sobre a pequena formiga que estava confusa porque todos seus tios eram formigas- mas em Nova York há bastante coisa para chamar a atenção. Eu preciso lembrá-la da regra dos cinco segundos. Você pode olhar para alguém por cinco segundos, mas então é preciso desviar o olhar. Olhe, mas não faça uma cena.

E agora todos estamos olhando para Barack Obama, que é -se você escutá-lo no rádio- uma presença imponente e um grande candidato a presidente. Eu escutei o discurso que ele fez em Saint Paul, para uma arena cheia de simpatizantes, e o homem sabe fazer um discurso. Ninguém mais surfa nos aplausos como Obama ou transmite tão bem a sua mensagem, e tudo soa como se ele estivesse dizendo a você o que pensa, não lendo um texto.

Mas quando você olha atentamente para ele, ele é um sujeito negro jovem, magricela, e isto será um problema para algumas pessoas.

No ano em que meu pai se formou no colégio, Duke Ellington excursionou pelo país com sua orquestra de 15 músicos, tocando seus sucessos "Mood Indigo" e "Don't Get Around Much Anymore" e "It Don't Mean a Thing (If It Ain't Got That Swing)" para salões de baile lotados com seus fãs, mas as coisas sendo do jeito que são, ele viajou em um vagão de trem privado porque não dava para saber se conseguiriam um quarto de hotel, uma refeição no restaurante ou serem ignorados por algum idiota de terno e gravata.

Eles eram todos negros, mas Juan Tizol, o trombonista, tinha pele clara e tinha que pintar o rosto de preto para que ninguém pensasse que a banda era integrada.

Ellington não se queixava. Ele amava seu trabalho, era bacana e não se dignava a tratar da intolerância -ele simplesmente tocava em meio a tudo isso.

Aquela época não está tão distante. Uma cultura não muda de uma hora para outra. Racismo faz parte desta raça, apesar de ninguém pensar que sim. Mas Obama tem dons que transcendem raça e seu próprio curriculum vitae breve. No rádio, ele é um orador ressuscitado de uma época distante, em que as pessoas tinham altos padrões para este tipo de coisa. Ele é gracioso, ágil e cheio de confiança, e se você gosta da língua inglesa, você encontrará vários motivos para admirá-lo. As pessoas podem desprezar a importância do discurso, mas esta é uma grande parte do cargo ao qual está concorrendo.

Nós perdemos quatro mil homens e mulheres no Iraque e provocamos grande destruição e miséria, e tudo por uma causa que nunca foi apresentada em palavras que a maioria dos americanos possa entender ou aceitar, e agora a grande maioria de nosso povo considera os quatro mil como tendo perdido suas vidas em uma causa desonesta, deturpada desde o início. Este é o fracasso do atual presidente. Sempre que ele sobe o palco, a confiança do público cai como uma rocha. Ele não é um líder, apenas um sujeito comum.

Eu conheço um bocado de sujeitos comuns, alguns mais inteligentes que outros, e no momento estou pendendo para Obama. Ele tem estes dons e quando se lança contra as trevas funestas do recente republicanismo, ele tem conseguido verdadeiros strikes.

*O programa "A Prairie Home Companion" de Garrison Keillor pode ser ouvido nas noites de sábado em emissoras de rádio públicas por todo os EUA. George El Khouri Andolfato

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