Campos de petróleo em águas profundas são a fronteira final

De David J. Lynch
A bordo do Cajun Express, no Golfo do México

A oito quilômetros de profundidade, passando por barracudas e atuns, se encontra uma grande massa de arenito marmoreada com petróleo. Extrair o fluido como tinta, que repousa sem ser perturbado por milhões de anos, e enviá-lo por 240 quilômetros até a costa, não será fácil.

Mas com o aumento global da demanda elevando o preço de um barril de petróleo para perto de US$ 140, obter novas reservas de petróleo em pontos distantes, profundos, como o campo de codinome Tahiti, é crítico. Este é o motivo para a Chevron ter alugado esta sonda de perfuração móvel, que desloca mais água do que um porta-aviões classe Nimitz da Marinha, para preparar a produção de meia dúzia de poços espalhados pelo solo do oceano. Os propulsores da embarcação a mantém quase perfeitamente parada, diretamente acima de seu alvo, submerso sob 1.200 metros de água.

"As águas profundas são potencialmente a próxima onda de hidrocarbonetos no mercado global de energia. É imensamente importante", disse Stephen Thurston, o vice-presidente da Chevron para projetos e exploração em águas profundas.

Campos de petróleo em águas profundas, aqueles a mais de 300 metros de profundidade, representam uma das fronteiras finais da exploração de petróleo. A boa notícia é que há abundância de petróleo nestes depósitos, especialmente aqui no Golfo do México e além das costas do Brasil e do oeste da África. A má notícia é que grande parte deste óleo cru valioso se encontra em formações geológicas complexas, escondido sob um quilômetro ou mais de camadas de sal problemáticas -o que significa que estes novos reservatórios serão caros para desenvolver e portanto farão pouco para eliminar a gasolina a US$ 4 o galão (N.E.: cada "galão americano" equivale a aproximadamente 3,78 litros).

No próximo ano, quando Tahiti começar a enviar petróleo para consumidores ansiosos em terra, a Chevron espera ter investido US$ 4,7 bilhões neste projeto. A soma imensa reflete um aumento nos custos dos equipamentos especializados, matérias-primas e combustível para os campos de petróleo, que mais que dobraram desde 2000, segundo a Cambridge Energy Research Associates. Somente o aluguel diário do Cajun Express custa US$ 463 mil.

"O nível de custos manterá os preços (da gasolina) em alta. Não se trata de encontrarmos algo fácil para produzir e o preço da gasolina voltará de repente a US$ 3", disse Gary Taylor, da publicação do setor "Platts Oilgram News".

As águas do oeste do Golfo do México representam as únicas áreas oceânicas dos Estados Unidos onde as companhias de petróleo podem explorar. Os preços persistentemente altos do petróleo abalaram, mas não colocaram um fim, à proibição federal de 1981 de exploração além das costas leste e oeste dos Estados Unidos e no leste do Golfo. O presidente Bush se juntou na quarta-feira ao virtual candidato presidencial republicano, o senador John McCain, na reversão de seu apoio à proibição. Os democratas mantêm sua oposição à expansão da exploração costeira, dizendo que ela ameaçaria o meio ambiente e faria pouco para coibir os altos preços da gasolina por anos.

Descobertas cada vez mais proeminente em águas profundas como Tahiti ilustram uma verdade por trás do aumento constante do combustíveis: todo o petróleo fácil foi encontrado ou usado. Agora, as sondas devem atravessar 1.200 metros de água e mais de 6 mil metros de areia, rocha e sal para encontrar o que restou.

"As pessoas em casa não pensam a respeito, mas são mais de 7 quilômetros! Quando comecei neste negócio, se conseguisse ir a 3 quilômetros, era incrível. Seu nome era colocado em uma placa", disse Buddy Horton, um consultor de segurança da DC International, de Lafayette, Louisiana, que trabalha há 32 anos no setor.

No mês passado, a Chevron, a segunda maior companhia de petróleo dos Estados Unidos, informou ganhos de US$ 5,2 bilhões no primeiro trimestre, um aumento de quase 10% em comparação ao mesmo período em 2007. A empresa espera gastar US$ 2 bilhões neste ano à procura de mais petróleo ao redor do mundo, com a exploração em águas profundas representando a maior fatia. A Chevron planeja iniciar neste ano a extração de petróleo de outro campo em águas profundas no Golfo, chamado Blind Faith (Fé Cega), assim como no projeto Agbami, além da costa da Nigéria.

Em águas profundas
O primeiro campo além da costa da indústria foi perfurado em 1947, ao alcance da vista na costa da Louisiana, em água não muito mais profundas do que uma piscina pública. Desde esse início modesto, o setor tem marchado constantemente para profundidades mais desafiadoras. No ano passado, 130 projetos em águas profundas produziram petróleo, em comparação a 17 há uma década, segundo o Serviço de Gestão de Minerais (MMS), a agência do Departamento do Interior que arrenda as áreas além da costa.

Em 2015, a Chevron espera que os poços em águas profundas representem um quarto da produção de petróleo em alto-mar, em comparação aos atuais 9%.

Grande parte da ação agora está nos chamados campos em águas ultraprofundas, além de 1.500 metros de profundidade. Em 2003, a Chevron perfurou um poço recorde a 3.051 metros de profundidade, e a gigante do petróleo de San Ramon, Califórnia, tem planos de ir ainda mais fundo. Ela alugou dois novos navios-sonda da empresa de perfuração Transocean, capazes de chegar a profundidades totais de poço de 12 mil metros, incluindo 3.660 metros de água. A primeira entrega deverá ocorrer no próximo ano.

Enquanto as empresas correm para desenvolver novos campos em águas profundas, elas encontram obstáculos. O mais crítico: a escassez mundial de sondas de perfuração, o legado dos baixos preços do petróleo que inibiam o investimento há uma década, quando o petróleo caiu abaixo de US$ 12 o barril. A escassez de sondas é tão séria que alguns campos promissores continuam inexplorados, segundo o MMS. Os clientes que tentam alugar uma sonda da Transocean, a dona do Cajun Express, precisam esperar dois anos, disse Steven Newman, o presidente da empresa. Os pedidos acumulados da empresa agora ultrapassam US$ 30 bilhões, em comparação a menos de US$ 1 bilhão há quatro anos. "Eu estou neste negócio há 15 anos, e estes são os melhores tempos que eu já vi. Meu chefe, nosso presidente-executivo, está neste ramo há 30 anos, e estes são os melhores tempos que ele já viu", disse Newman.

Quase um terço das sondas de águas profundas do mundo estão ativas no Golfo. Muitas estão explorando uma formação antiga chamada Terciário Inferior, que se espalha do Texas e Louisiana até bem distante da costa e pode conter até 2,8 bilhões de barris de hidrocarbonetos.

O campo Tahiti da Chevron, que a empresa anunciou como uma grande descoberta em 2002, parece ser uma das maiores descobertas na região, potencialmente contendo de 400 milhões a 500 milhões de barris de petróleo. Ele deverá começar a produzir 125 mil barris por dia no próximo ano.

Mas neste ambiente exigente, tropeços não são incomuns, até mesmo em componentes prosaicos como as correntes pesadas projetadas para segurar a plataforma de produção da Chevron -uma estrutura flutuante de 60 andares que está tomando forma nas proximidades- ao solo do oceano. Em 2007, a Chevron retardou o programa Tahiti após descobrir o que descreveu como sendo "problemas metalúrgicos" com os braceletes industriais de cerca de 1 tonelada.

Da mesma forma, no ano passado, a Chevron foi forçada a abandonar temporariamente um dos seis poços na fase inicial do projeto, após uma tentativa de concluí-lo ter fracassado. Agora, os mais de 140 trabalhadores da Chevron e várias empresas de apoio alojados no Cajun Express estão fazendo uma segunda tentativa. O trabalho deverá ser concluído no início de julho.

Reclamando das grandes companhias de petróleo
O simples fato de se chegar tão longe neste projeto de vários anos da Chevron é um feito. Os trabalhadores a bordo da sonda de perfuração suportam furacões e fluidos tóxicos enquanto enfrentam as correntes ardilosas que arrastam o cano de perfuração ao chegar ao solo do oceano. Abaixo do fundo do mar, camadas imprevisíveis de sedimentos -como um bolo de casamento com mente própria- ameaçam com problemas imprevistos a cada metro adicional de profundidade. Áreas de baixa pressão conhecidas como "zonas ladrão" podem frustrar os perfuradores ao roubar os fluidos necessários para lubrificar o avanço da broca de perfuração.

"Exige muito perfurar estes poços atuais. Não é fácil como costumava ser. O equipamento precisa ser mais robusto, maior, para trabalho mais pesado", disse Marty Hebert, 52 anos, gerente da Transocean.

Um motivo são as condições extremas associadas à operação em campos muito profundos. O petróleo preso sob o solo do oceano está sob pressões que chegam a 20 mil libras por polegada quadrada -talvez o dobro da força de um poço mais raso- assim como temperaturas que se aproximam de 200ºC. Extrair o petróleo com segurança é equivalente a manusear um frasco gigante de ketchup cheio de um fluido lento, mas propenso a uma liberação explosiva.

Para completar os poços de Tahiti, a Chevron teve que projetar várias variantes de ferramentas-padrão de perfuração usando ligas exóticas como inconel, resistente a corrosão, disse Clay Jostes, 29 anos, um engenheiro de perfuração. Este é outro motivo para os custos serem tão altos.

A prospecção de petróleo conjura imagens de homens musculosos carregando canos pesados e empunhando ferramentas enormes. E há um pouco disso aqui. Em uma ponta do Cajun Express, um conjunto vertical de vários canos de perfuração lembram um enorme órgão de tubos industrial.

Mas a indústria do petróleo atual deve tanto ao Vale do Silício quanto à força bruta. Software especializado tridimensional permite aos geólogos do setor "ver" sob o solo do oceano e sob as camadas de sal espessas que escondem o petróleo. Na ponte, trabalhadores monitoram as correntes marítimas e o tempo em 10 monitores de tela plana, enquanto no centro de controle do poço, um sondador sentado em uma cadeira acolchoada observa a pressão dos fluidos no poço abaixo. Minissubmarinos robóticos executam inspeções quase diárias ao cano de perfuração.

"Muitas das coisas que fazemos rivalizam com o programa espacial. É tecnologia de vanguarda", disse Jostes.

Mas quando o jovem engenheiro conclui seu período de duas semanas aqui na fronteira do petróleo e retorna para sua casa em New Braunfels, Texas, ele sabe que será recebido com resmungos, não com aplausos. "Eu fico frustrado ao ouvir meus amigos. Eles reclamam do preço do galão de gasolina", ele disse. "Eles só querem culpar as grandes companhias de petróleo. Mas não estamos pilhando o povo americano, e não devemos pedir desculpas pelos lucros que estamos obtendo."

Ainda há muito o que fazer até que Tahiti possa enviar seu primeiro barril de petróleo por um oleoduto até a costa. Todos os seis poços no solo do oceano estarão ligados a um coletor submarino, uma parada intermediária a caminho da plataforma de produção acima. Mas a esta altura Jostes estará em outro local.

"Quanto ao petróleo ser um recurso limitado, será que verei o fim dele? Ou meus netos verão o fim dele?" perguntou Jostes. "Eu acho que não. Eu não acho que haja um limite." George El Khouri Andolfato

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