A infidelidade conjugal ganha nova face

Sharon Jayson

Antigamente sabíamos o que era infidelidade: fazer sexo com uma pessoa que não fosse seu parceiro. Mas o século 21 parece ter borrado essas linhas tão claras. Almoçar todos os dias com um colega de trabalho do outro sexo é uma infração à confiança matrimonial? E uma paquera na internet? Se não houver sexo, é realmente traição?

Essas perguntas surgem quando as pressões sociais e psicológicas desafiam antigas idéias enraizadas sobre a natureza da infidelidade. "Como sociedade, finalmente estamos chegando a um consenso sobre o que significa ser fiel", diz Douglas Snyder, psicólogo da Texas A&M University-College Station. "Não é apenas fazer sexo com outra pessoa."

Muitos psicólogos e especialistas em família dizem que a infidelidade hoje não tem a ver só com sexo, mas com confiança, traição e deslealdade conjugal, mesmo que o adultério não se concretize. Eles acrescentam que os casamentos são mais vulneráveis hoje do que décadas atrás. Em tempos econômicos difíceis, os casais trabalham mais para pagar as contas, o que muitas vezes deixa pouco tempo ou energia para alimentar a relação. Os filmes e a TV tendem a glamourizar os "casos" e fazem o casamento parecer insosso. E a internet oferece uma nova fronteira, com a pseudo-intimidade das ciber-relações, assim como um maior acesso à pornografia.

Além disso, pesquisas sugerem que as pessoas que têm casos extraconjugais não são necessariamente infelizes com seus parceiros.

"As pessoas estão recebendo essa mensagem incrível de que se você não está tendo um certo tipo de sexo no estilo Hollywood há algo errado com você", diz a psicóloga clínica Sue Johnson, de Ottawa, Canadá.
Johnson, autora do livro "Hold Me Tight" [Me abrace forte], e o psiquiatra Frank Pittman estão entre os palestrantes da conferência Smart Marriages [Casamentos inteligentes], que começa na quarta-feira em San Francisco e incluirá sessões sobre casos extraconjugais.

"Eu encontro pessoas que acham que todo mundo está pulando a cerca e que há algo errado com elas se também não estiverem", diz Pittman, de Atlanta. "As pessoas captam na mídia a idéia de que é uma coisa normal e que alguém que não esteja fazendo isso está perdendo as coisas boas da vida."

Um estudo feito no último outono pela firma de pesquisas online Insight Express descobriu que 89% de 1.000 adultos entre 25 e 65 anos acreditam que a monogamia é uma meta realista. Mas 75% dizem que o estilo de vida dos jovens astros de Hollywood é um mau exemplo e somente 26% acreditam que a televisão mostra os relacionamentos "sérios" sob uma luz positiva.

O especialista em cultura pop Gary Hoppenstand, professor de estudos americanos na Michigan State University em East Lansing, analisou comédias românticas dos anos 1950 e 60 e encontrou "a desintegração da família americana tradicional e o adultério como temas comuns".

Ele cita filmes como "O Pecado Mora ao Lado" (1955); "A Guide for the Married Man", "Divórcio à Americana" e "A Primeira Noite de um Homem" (1967); e "Bob & Carol & Ted & Alice" (1969) como exemplos de agressões ao casamento.

Os casos são mesmo comuns?

É difícil avaliar se os casos são de fato mais comuns ou apenas são discutidos com maior franqueza, especialmente à luz de reportagens na mídia sobre celebridades e figuras públicas que fazem parecer que a traição está na moda. As pesquisas sobre infidelidade se baseiam principalmente em enquetes nas quais as pessoas falam sobre si mesmas, por isso elas podem ou não dizer a verdade; também podem discordar das definições como, por exemplo, se uma transa de uma noite conta como um "caso", ou se sexo oral é realmente sexo.

Os dados em grande escala mais recentes são da Pesquisa Social Geral realizada em 1998 pelo Centro Nacional de Pesquisas de Opinião da Universidade de Chicago. Ela revelou que de 2.169 pessoas que estiveram casadas em algum momento 17,9% relatavam infidelidade sexual.

Alguns pesquisadores dizem que hoje há uma probabilidade de 50% de que um dos parceiros tenha um caso durante o casamento. Isso inclui relações não-físicas.

Mas Snyder acrescenta que há um risco de superestimar a prevalência ou a aceitabilidade dos casos. "Quanto mais deixamos implícito que é uma coisa comum e que todo mundo está fazendo, mais se torna uma profecia que se auto-realiza", ele diz.

"A grande coisa que tornava os casamentos vulneráveis no passado era que esperávamos muito pouco, e hoje é que esperamos demais", diz Stephanie Coontz, diretora de pesquisa do Conselho sobre Famílias Contemporâneas, um grupo sem fins lucrativos para pesquisadores e clínicos.

Essas expectativas se concentram no cônjuge como melhor amigo ou alma gêmea, o que aumenta a pressão sobre os parceiros e torna os casamentos mais vulneráveis, dizem os especialistas.

"Esperamos que uma pessoa nos dê o que toda uma comunidade costumava dar - vida familiar, estabilidade, apoio econômico, um confidente, um amante apaixonado, viver aventuras -, tudo com a mesma pessoa", diz Esther Perel, uma terapeuta familiar e de casais de Nova York.

O casamento exige energia

Thomas Bradbury, do Instituto do Relacionamento da Universidade da Califórnia em Los Angeles, diz que a economia atual intensifica o problema. "Hoje temos duas pessoas que lutam poderosamente sob circunstâncias muitas vezes difíceis para manter seus casamentos", ele diz. "Mesmo que a dinâmica interna do casamento não tenha mudado tanto, se de repente as pessoas são menos capazes de gerar essa energia necessária os relacionamentos vão sofrer."

Os relacionamentos que envolvem uma ligação emocional, seja pessoalmente ou na internet, mas excluem seu marido ou sua mulher, podem ser território perigoso, diz Pittman, que está casado há 48 anos. Ele diz que aproximar-se de outra pessoa para suprir uma necessidade de intimidade "afasta você cada vez mais do seu casamento".

Essas ligações emocionais externas têm sido chamadas de "casos emocionais" - e um número crescente de pessoas casadas tem esses relacionamentos, segundo Ronald Potter-Efron, um psicoterapeuta clínico de Eau Claire, Wisconsin. Ele e sua mulher são co-autores de um livro sobre o fenômeno chamado "The Emotional Affair" [O caso emocional], a ser publicado em janeiro.

Muita gente envolvida nesses relacionamentos afirma que seus cônjuges ficam enciumados irracionalmente, diz Potter-Efron, mas o outro diz que "simplesmente não parece certo".

Natalie James-Tapley, 37, de Miami, conhece essa sensação. Ela e seu marido se divorciaram há quatro anos, depois de uma série de separações. Ela acredita que estava emocionalmente envolvida com um colega de trabalho. "Se uma pessoa procura apoio emocional em outra, é uma espécie de traição", ela diz.

O bombeiro aposentado Pete Wright, 53, de Greenville, Carolina do Sul, acredita que "enganar a mulher ou o marido de qualquer maneira é procurar problemas, mesmo que não haja sexo na história".

Wright, que é casado há 25 anos, viu o que acontece quando o virtual se torna real: a mulher de um amigo teve um relacionamento na internet que levou ao divórcio, ele conta. "Tenho certeza de que começou como uma conversa amigável, mas com o tempo evoluiu para uma coisa que arruinou seu casamento."

Os casos no ciberespaço podem parecer seguros e administráveis, mas as pessoas podem se envolver mais do que pretendiam, dizem os pesquisadores. "Elas procuram algum tipo de contato ou conexão. Não estão necessariamente procurando ligação sexual", diz Peggy Vaughan, de San Diego, autora de "Preventing Affairs" [Evitando casos]. "O grande debate hoje é quão real é o virtual."

Ed Diener, um psicólogo e professor da Universidade de Illinois em Urbana-Champaign e líder no campo de pesquisa da felicidade, diz que as pessoas procuram mais emoções hoje e podem achar que estão infelizes quando as coisas estão simplesmente bem.

Felicidade incompreendida

"Um número cada vez maior de pessoas não sabe o que é a felicidade", diz Diener, co-autor de "Happiness: Unlocking the Mysteries of Psychological Wealth" [Felicidade: desvendando os mistérios da riqueza psicológica], a ser lançado em setembro.

"Costumávamos pensar que a felicidade era uma espécie de contentamento e satisfação com a vida. Hoje passamos a defini-la como uma espécie de grande excitação. 'Como vai?' 'Tudo ótimo! Super!' - essas palavras são extremas, mas hoje são uma resposta comum."

A necessidade de estímulo extremo pode ser um dos motivos pelos quais a pornografia online está se tornando mais um problema no casamento, segundo alguns.

Bill Maier, um psicólogo clínico da organização Focus on the Family, de Colorado Springs, dedicada aos valores familiares cristãos, diz que os telefonemas sobre pornografia feitos para o centro de aconselhamento do grupo duplicaram nos últimos cinco anos, pois a internet tornou mais acessíveis as imagens sexualmente explícitas.

Dois estudos de 1998 sobre as conseqüências do consumo prolongado de pornografia descobriram que para homens e mulheres a pornografia alimenta expectativas irreais sobre como devem ser o sexo e seus parceiros, deixando-os insatisfeitos de modo geral. Esses estudos foram publicados no "Journal of Family Issues" e no "Journal of Applied Social Psychology" muito antes de a internet ser usada amplamente.

Michael Leahy, de Herndon, Virgínia, diz que seu trabalho nos primeiros dias da indústria tecnológica facilitava o acesso à pornografia. Ele conta no livro "Porn Nation" como se viciou no assunto, o que, segundo ele, causou seu divórcio.

Quando ele sentia tensão ou estresse, "a pornografia estava sempre ali como uma droga que modifica o humor. E era algo que eu nunca compartilhava com minha mulher. Ela não tinha idéia de que eu fazia aquilo", diz Leahy, 50 anos.

Embora alguns especialistas afirmem ser capazes de tornar os casamentos "à prova de casos", Snyder, co-autor do livro "Getting Past the Affair" [Superando o caso], de 2007, diz que um fato não pode ser ignorado: "Na questão da excitação, o casamento não pode competir com um caso. Os casais precisam encarar a realidade de que a paixão e a excitação do romance, da paquera e da lua-de-mel não vão durar". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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