Ativistas chineses temem "férias forçadas" nas Olimpíadas

Calum Macleod
Em Pequim

Li Fangping, advogado de defesa em dois casos bem conhecidos da China envolvendo direitos humanos, acredita que estará sob vigilância policial 24 horas por dia durante os Jogos Olímpicos do mês que vem.

"Sem dúvida a minha liberdade será restringida", afirma Li. "Mas eu poderei também ser colocado sob prisão domiciliar ilegal, ou ser retirado da cidade e levado para um remoto resort de férias, onde seria completamente privado dos meus direitos".

Zhang Xingshui, um outro advogado, diz que isso também poderá acontecer com ele. "Durante a vista do presidente Bush à China, em 2005, fui seqüestrado pela polícia e fiquei detido em um hotel de Pequim, sem acesso a telefone, durante sete dias".

"Espero que o governo não me remova novamente da cidade durante as Olimpíadas. Mas isto é algo que pode acontecer", diz Zhang, que espera assistir uma disputa pela medalha de ouro no basquete entre China e Estados Unidos.

Advogados e ativistas dos direitos humanos estão preocupados com a possibilidade de que a China silencie os cidadãos que criticam o governo, a fim de projetar o tema da "harmonia", elaborado por Pequim, quando as atenções mundiais se voltarem para o país de 8 a 24 de agosto.

O grupo de direitos humanos International PEN divulgou um relatório nesta semana acusando: "O clima para a liberdade de expressão na China deteriorou-se visivelmente nos últimos 12 meses". O PEN está acompanhando os casos de 44 escritores e jornalistas presos na China por fazerem denúncias contra o governo.

Dois casos que têm recebido muita publicidade envolvem Chen Guangcheng, um assessor jurídico cego que cumpre pena de mais de quatro anos de prisão devido ao seu papel na divulgação dos abortos forçados na província de Shangong, e Hu Jia, um ativista de direitos humanos que no ano passado, após meses de prisão domiciliar, foi condenado a três anos e meio de detenção por "incitar a subversão do poder estatal".

"A vigilância policial também se estende às famílias dos ativistas, e as mulheres deles são monitoradas com rigor para impedir que não se engajem também em atividades similares", afirma Mark Allison, da Anistia Internacional.

Nicholas Bequelin, pesquisador do grupo de defesa dos direitos humanos Human Rights Watch em Hong Kong, diz que as "férias" forçadas estão tornando-se cada vez mais comuns.

Ele estima que "entre 36 e 48" ativistas de Pequim estejam sob estrita vigilância.

"O objetivo é impedir que notícias ou informações embaraçosas cheguem aos outros países", explica Bequelin. "Silenciar e intimidar as vozes críticas é uma violação clara das promessas feitas pela China quando o país tentava ser escolhido para sediar as Olimpíadas".

O porta-voz das Olimpíadas de Pequim, Sun Weide, recusou-se a fazer comentários sobre o plano da polícia para vigiar alguns cidadãos pequineses.

"Os preparativos para os Jogos Olímpicos promoveram desenvolvimento social e econômico em Pequim, incluindo a situação dos direitos humanos", disse ele. "Eles criaram milhões de empregos e transformaram a capital chinesa. A qualidade do ar vem melhorando há nove anos consecutivos, e as nossas passagens de ônibus e metrô estão entre as mais baratas do mundo. As Olimpíadas fizeram uma grande diferença".

Wan Yanhai, um ativista ligado à questão da Aids, pretende sair da cidade.
"Em agosto, Pequim vai se tornar uma espécie de acampamento do exército, de maneira que eu não quero ficar", diz Wan, que defende os direitos dos portadores de HIV na China.

"A polícia em Pequim e na província de Henam me investiga há meses para verificar se eu estou envolvido com algum plano referente a protestos durante as Olimpíadas", diz Wan.

O ativista Lu Jun ainda não se decidiu. Lu defende os direitos de milhões de chineses que sofrem de hepatite B, e que muitas vezes enfrentam discriminação no trabalho ou na escola. Lu conta que recentemente foi detido, e que o website da sua organização foi retirado da Internet em maio. "Quero estar em Pequim. Mas, por outro lado, tenho medo de ser preso caso fique. Em outras ocasiões muitos dos meus amigos foram levados para resorts nos subúrbios", diz ele.

"As Olimpíadas são um teste para as questões da lei e dos direitos humanos na China", afirma Li, o advogado. Ele faz parte de um grupo de advogados chineses defensores dos direitos humanos que foram detidos para que não participassem de um jantar oferecido em 29 de junho, em Pequim, por dois parlamentares dos Estados Unidos: os deputados Chris Smith, republicano por Nova Jersey, e Frank Wolf, republicano pela Virgínia.

Zhang, o outro advogado, diz que apóia o governo e o fato de o país sediar as Olimpíadas. "Mas eu defendo casos religiosos, e, como o governo considera a religião e a liberdade de expressão assuntos sensíveis, as autoridades temem um impacto negativo caso eu me encontre com políticos estrangeiros ou outras pessoas". UOL

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