Henry Kissinger: a Rússia além do senso comum

Henry A. Kissinger

O senso comum tratou o início da presidência de Dmitry Medvedev na Ferderação Russa como uma continuação do domínio do Kremlin e da política internacional assertiva que predominaram nos dois mandatos do presidente Vladimir Putin.

Uma visita a Moscou, em que tive a oportunidade de encontrar lideranças do mundo político, assim como representantes de vários grupos etários do círculo intelectual e dos negócios, convenceu-me de que esse julgamento é simplista demais e prematuro.

Uma das razões para isso é que a estrutura de poder que está emergindo em Moscou parece mais complexa do que crê o senso comum. Nunca se soube ao certo por que Putin, no auge de uma popularidade que o teria permitido criar uma emenda à constituição para estender seu mandato, escolheu o caminho incerto e complicado de se tornar primeiro-ministro, se o seu principal objetivo era continuar no poder.

Minha impressão é de que a política russa está caminhando para uma nova fase. A mudança do gabinete de Putin do Kremlin para o prédio que abriga o governo russo é simbólica. Medvedev já declarou que tem intenção de participar do Conselho Nacional de Segurança e de cumprir a determinação da constituição russa que atribui ao presidente a tarefa de elaborar e representar a face pública da política internacional do país. Essa concepção de que o é o presidente que determina a política internacional e de segurança, e o primeiro-ministro que implementa parte delas, tornou-se um mantra entre as autoridades russas, de Medvedev e Putin para baixo. Não encontrei nenhum russo, dentro ou fora do governo, que duvidasse de que algum tipo de redistribuição do poder esteja acontecendo no país, apesar de não terem certeza sobre os resultados disso.

Putin continua poderoso e bastante influente. Ele é visto pela maioria dos russos como o líder que superou a humilhação e o caos dos anos 90, quando o governo, a economia, a ideologia e o império russo entraram em colapso; a recuperação da economia russa precisou da ajuda internacional; e a política estrangeira do país era passiva. É provável que Putin tenha atribuído a si mesmo a tarefa de zelar pela atuação de seu sucessor; também é possível que ele esteja deixando em aberto a possibilidade de se tornar candidato numa eleição presidencial futura.

Qualquer que seja o resultado, a eleição russa marca a transição de uma fase de consolidação para um período de modernização. A cessão voluntária do poder por parte de um governante que não estava sob nenhuma pressão para fazê-lo é um evento sem precedentes na história russa. A complexidade crescente da economia russa gerou a necessidade de procedimentos legais previsíveis, como já indicou Medvedev. O funcionamento do governo russo com dois centros de poder - pelo menos inicialmente - pode assinalar o começo de uma evolução para um sistema de divisão de poderes que até então não existia.

A evolução da Rússia para um governo democrático não era certa, é claro, e as motivações para isso não vieram necessariamente de reflexões teóricas sobre a natureza da democracia. Mas tampouco foi assim com a evolução da democracia no Ocidente. Afinal, a Carta Magna foi um documento elaborado para garantir os direitos da aristocracia, não do povo em geral.

Quais são as implicações disso para a política internacional americana? Durante os próximos meses, a Rússia estará ocupada em implementar na prática essa separação entre o planejamento e a aplicação de sua política de segurança nacional. Seria prudente se o governo Bush e os candidatos à presidência dessem espaço para a Rússia trabalhar nesses ajustes, restringindo seus comentários públicos.

Ao longo dos anos, desde a queda da União Soviética em 1991, uma sucessão de governos norte-americanos agiram como se a principal tarefa americana fosse a criação de uma democracia na Rússia. Discursos denunciando as falhas e atitudes russas ocorriam com freqüência, num resquício da luta pela supremacia da Guerra Fria.

Defensores da nova política afirmam que a transformação da sociedade russa é uma pré-condição para o estabelecimento de uma ordem internacional mais harmônica. Eles argumentam que se a Rússia de hoje continuar sob pressão, irá eventualmente implodir, assim como aconteceu com a União Soviética. A política assertiva de intrusão que os russos consideram como sua própria personalidade corre o risco de minar os objetivos geopolíticos e até mesmo morais.

Sem dúvida há grupos e indivíduos na Rússia que esperam que os Estados Unidos ajudem a acelerar sua evolução democrática. Mas quase todos os observadores concordam que a grande maioria dos russos considera os Estados Unidos presunçosos e determinados a retardar a recuperação da Rússia. É muito mais provável que um ambiente como esse encoraje uma resposta nacionalista e de confronto do que uma evolução democrática.

Seria uma pena se esse humor persistisse porque, sob vários aspectos, estamos testemunhando um dos períodos mais promissores da história russa. O contato e a relação com sociedades modernas abertas têm sido mais prolongados e intensos do que em qualquer outro período anterior da história russa - mesmo sob medidas repressoras desafortunadas. Quanto mais tempo isso continuar, maior será o impacto sobre a evolução política russa.

Os valores da nossa sociedade ditam o compromisso americano com a evolução democrática. Mas o ritmo com que isso irá acontecer será inevitavelmente determinado pela Rússia. Podemos exercer uma influência muito maior por meio da paciência e da compreensão em relação à história do país, do que por meio de uma retirada ofendida ou do aconselhamento público.

O mais importante é que a nova realidade geopolítica oferece uma oportunidade única para a cooperação estratégica entre os antigos adversários da Guerra Fria. Sozinhos, Estados Unidos e Rússia controlam 90% das armas nucleares do mundo. A Rússia tem o maior território entre os países do mundo, com fronteiras na Europa, Ásia e Oriente Médio. O progresso em direção à estabilidade nuclear no Oriente Médio e no Irã requer - ou será facilitado em muito com - a cooperação russo-americana.

A política internacional imperialista do czarismo e da Rússia Soviética foi facilitada pela fraqueza de quase todos os países nas fronteiras russas. Isso permitiu à Rússia, ao longo de um século e meio, avançar inexoravelmente, quase como uma força natural, desde o Volga até o Elbe, ao longo das margens do Mar Negro, em direção ao Cáucaso e até as proximidades da Índia. Na Ásia, ela penetrou no Pacífico, na Manchúria e Coréia. A expansão russa foi impulsionada pela natureza autocrática do governo do Kremlin, que permitiu ao czar e aos governantes soviéticos conduzirem a política sem restrições significativas. A segurança tornou-se sinônimo de expansão contínua, e a legitimidade doméstica foi atingida principalmente pelo poder demonstrado fora do país.

Essas condições se alteraram de forma significativa. Os vizinhos da Rússia superaram as fraquezas que incentivaram as aventuras russas. A fronteira de quatro mil quilômetros com a China é um desafio demográfico; ao leste do Lago Baikal, 6,8 milhões de russos fazem frente a 120 milhões de chineses nas províncias ao longo da fronteira comum. Do outro lado de uma fronteira igualmente extensa, a Rússia tem de lidar com a militância islâmica, que estende seu alcance até o sul da Rússia. Na fronteira ocidental da Rússia, onde estão territórios identificados com a história russa por centenas de anos, o país se depara com a necessidade de se adaptar à perda de seu antigo império. Mas o alcance estratégico russo foi limitado pela nova realidade, que inclui a participação na Otan de países antes pertencente ao Pacto de Varsóvia.

Apesar de a população russa viver hoje um aumento da auto-estima nacional, seus líderes compreendem os riscos de tentar usar os métodos tradicionais da Rússia para alterar a ordem internacional. Eles sabem que a população islâmica da Rússia, de 25 milhões, tem em grande parte uma lealdade duvidosa em relação ao estado russo. O sistema de saúde precisa de uma reformulação; a infra-estrutura precisa ser reconstruída. A Rússia se vê obrigada a se concentrar na reforma nacional pela primeira vez na história.

Apesar da retórica de confronto e do estilo de menosprezo que desenvolveram durante o período do imperialismo, os líderes russos estão consciente de suas limitações estratégicas. De fato, eu diria que a política russa durante o governo de Putin foi caracterizada pela busca de um parceiro estratégico confiável. Os Estados Unidos eram sua escolha preferencial. A turbulenta retórica russa dos anos recentes reflete, em parte, a frustração com a nossa aparente impenetrabilidade em estabelecer essa parceria. Os dois presidentes formaram uma relação construtiva, mas não foram capazes de superar os hábitos institucionais formados durante a Guerra Fria. Do lado russo, duas eleições para a Duma e para a presidência deram aos líderes russos um incentivo para apelar ao sentimento nacionalista crescente depois de uma década de humilhação

Esses desvios não afetam a realidade subjacente. Três temas dominam a agenda política: segurança, Irã, e a relação da Rússia com seus antigos dependentes, especialmente com a Ucrânia.

Por causa de sua preponderância nuclear, a Rússia e os Estados Unidos têm uma obrigação especial de tomar a liderança em assuntos nucleares globais como a proliferação nuclear. Houve iniciativas construtivas, como a maior transparência e a conexão dos sistemas de defesa antimísseis dos dois países, que ficou notória no comunicado divulgado pelos presidentes Bush e Putin em Sochi em abril desse ano. Mas as declarações gerais ainda precisam de uma explicação detalhada.

Quatro questões precisam ser respondidas no que diz respeito à proliferação nuclear. Rússia e Estados Unidos concordam em relação à natureza do desafio imposto pela aquisição de armas nucleares pelo Irã? Eles concordam com o status do programa nuclear iraniano? Concordam com o uso da diplomacia para evitar o perigo? Concordam sobre quais medidas tomar se a diplomacia falhar?

Minha impressão é que há um consenso considerável emergindo entre os EUA e a Rússia em relação às duas primeiras perguntas. Em relação às outras, ambos os lados precisam ter em mente que nenhum deles é capaz de superar o desafio sozinho, ou pelo menos com uma enorme dificuldade.

A questão do relacionamento com a Ucrânia está no cerne da percepção que ambos os lados têm sobre a natureza dos assuntos internacionais. Os EUA, aplicando as lições da Guerra Fria e suas tradicionais máximas universais, vêem a questão em termos de superar uma potencial ameaça militar. Para a Rússia, a questão é, acima de tudo, entrar em termos com um passado histórico doloroso.

A independência genuína da Ucrânia é essencial para um sistema internacional pacífico e precisa ser apoiada sem ambigüidade pelos Estados Unidos. Criar laços políticos estreitos entre a União Européia e a Ucrânia, incluindo a filiação do país, é importante. Mas a mudança do sistema de segurança ocidental do Rio Elba para as proximidades de Moscou torna o declínio russo evidente na capital do país. E isso pode causar uma reação emotiva capaz de inibir a resolução de todas as outras questões russas. A questão da Ucrânia deve ser mantida em pauta, mas sem pressão, para que haja possibilidade de fazer progresso em outros temas.

A declaração de Sochi, assinada pelos presidentes Bush e Putin em abril, esboçou um plano para um diálogo estratégico emergente entre os dois lados. Cabe aos novos governos da Rússia e dos EUA determinarem o contexto operacional do acordo. Eloise De Vylder

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