Disputas para evitar mesquitas na Europa refletem sentimento anti-muçulmano

Jeffrey Stinson
Em Londres

Os europeus cada vez mais se opõem à construção de novas mesquitas em suas cidades à medida que o medo do terrorismo e a imigração constante alimentam o sentimento anti-muçulmano em todo o continente.

A disputa mais recente acontece na Suíça, que planeja realizar um referendo nacional para banir os minaretes (torres) das mesquitas. No início desse mês, o ministro de interior da Itália prometeu fechar uma controversa mesquita em Milão.

Analistas dizem que os conflitos em relação às mesquitas são a manifestação de um medo crescente de que os muçulmanos não estejam assimilando e aceitando os valores ocidentais, e de que representam uma ameaça à segurança.

"É um símbolo visível do sentimento anti-muçulmano na Europa", diz Daniele Joly, diretora do Centro de Pesquisa em Relações Étnicas na Universidade de Warwick na Inglaterra. "Isso faz parte da islamofobia. Os europeus sentem-se ameaçados."

As disputas refletem a ansiedade em relação aos cerca de 18 milhões de muçulmanos, que constituem a segunda maior religião do continente, vivendo entre uma população predominantemente cristã de 400 milhões de europeus na Europa Ocidental, diz Joly.

Sentimento anti-muçulmano
Os conflitos também representam uma mudança de direção em relação aos anos 80 e 90, quando a construção de grandes mesquitas era aceita e até mesmo celebrada em muitas cidades. "Acho que a onda mudou de rumo", diz Joly.

Indicativos da mudança:

- Defensores do referendo suíço coletaram assinaturas suficientes há duas semanas para pedir uma proibição constitucional dos minaretes, as torres usadas para chamar os fiéis para a oração. Ainda não foi marcada uma data para a votação.

- O ministro de Interior da Itália, Roberto Maroni, anunciou nesse mês que pretende fechar uma mesquita de Milão porque as multidões que atendem às orações das sextas-feiras se espalham pela rua e irritam os vizinhos. Em abril, a cidade de Bolonha descartou planos de construção de uma nova mesquita, dizendo que os líderes muçulmanos não cumpriram com algumas exigências, como divulgar suas fontes de financiamento.

- Na Áustria, a província de Carinthia, no sul do país, aprovou uma lei em fevereiro que na prática proíbe a construção de mesquitas, uma vez que exige que elas mantenham o visual geral e conjunto harmônico das vilas e cidades.

Líderes da extrema-direita de 15 cidades européias se reuniram em Antuérpia, Bélgica, em janeiro e defenderam a proibição de novas mesquitas e a interrupção da "islamização das cidades da Europa ocidental". O grupo disse que as mesquitas atuavam como catalisadores para tomar conta de bairros e impor o modo de vida islâmico aos europeus.

"Já temos mais de 6 mil mesquitas na Europa, que não são apenas um lugar para culto, mas também um símbolo de radicalização, algumas financiadas por grupos extremistas da Arábia Saudita ou Irã", disse Filip Dewinter, líder de um partido separatista flamengo da Bélgica, à Rádio Netherlands Worldwide, durante a conferência.

Dewinter criticou uma mesquita que estava sendo construída em Roterdã, na Holanda: "os minaretes têm seis andares de altura. Esse tipo de símbolo tem de parar."

Apesar de o grupo de Antuérpia representar partidos políticos minoritários da Bélgica, Áustria e Alemanha, sua causa encontrou ressonância em outros lugares.

A construção de uma mesquita em Colônia, Alemanha, causou protestos entre os moradores no ano passado e deu início a um debate político em Berlim em torno da possibilidade de a mesquita deixar a grande catedral gótica da cidade em segundo plano.

Em Londres, planos para uma "mega-mesquita" para 12 mil pessoas próxima ao lugar dos Jogos Olímpicos de 2012 resultaram em mais de 250 mil assinaturas em contrário.

As atuais controvérsias em relação às mesquitas representam uma atitude anti-muçulmana que emergiu logo após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos e das bombas nos transportes em Madri em 2004 e em Londres em 2005, disse Joly. Essa visão é agravada pela pressão do aumento do número de imigrantes e do crescimento da população de muçulmanos em toda a Europa.

Outros acontecimentos alimentaram a preocupação com o fato de que muitos muçulmanos não aceitam os valores ocidentais: os protestos generalizados por parte de muçulmanos depois que um jornal dinamarquês publicou uma charge com o profeta Maomé em 2006, e o assassinato do cineasta holandês Theo van Gogh por um extremista muçulmano em 2004 em retaliação por um filme sobre o abuso de mulheres muçulmanas.

Restrições podem ter efeito contrário
Sakib Halilovic, imã [sacerdote] em Zurique, diz que o referendo suíço para proibir os minaretes "dá uma vantagem" para os extremistas islâmicos ao negá-los um lugar para orar ou ao limitar a forma de construção das mesquitas.

"Isso irá alimentar as posições radicais dentro da sociedade muçulmana na Suíça", disse Halilovic à Swiss Broadcasting na semana passada.

Alguns muçulmanos moderados dizem que aqueles que são contra construir mais mesquitas às vezes têm preocupações legítimas.

"Falando a verdade, nós não precisamos de tantas mesquitas", diz Irfan al-Alawi, diretor internacional do Centro para o Pluralismo Islâmico em Londres. "Temos 1.600 mesquitas (na Grã-Bretanha) e uma população (de muçulmanos) de 1,6 milhões. Elas se tornaram um negócio em vez de um lugar de oração."

Al-Alawi, que se opõe à construção da mega-mesquita em Londres, disse que os desentendimentos dentro de uma mesquita podem fazer com que alguns membros saiam e queiram seu próprio prédio, que é desnecessário.

As mesquitas normalmente não se adaptam ao urbanismo dos bairros ou superam em número as igrejas e outros templos religiosos, diz ele. Eloise De Vylder

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