Boas-vindas de Pequim são uma mistura de orgulho, espiões e suspeita

Calum MacLeod
Em Pequim

Montando guarda em um beco de Pequim decorado com dezenas de bandeiras vermelhas chinesas, Lu Ruzi, 80 anos, patrulha orgulhosamente seu bairro para "ajudar a trazer a glória para nossa pátria".

O bisavô está entre o meio milhão de chineses mobilizados para os Jogos Olímpicos, incluindo policiais, comandos, unidades do tipo SWAT e aposentados como Lu, que reconhecem ser espiões não tão secretos voluntários para o governo comunista, que têm como função relatar pessoas suspeitas ou manifestantes. "Se qualquer um tentar sabotar os Jogos Olímpicos, nós os controlaremos", disse Lu. "Nós também queremos proteger os estrangeiros. Se vieram para cá, eles devem ser nossos amigos, não é?"

Enquanto Pequim dá as boas-vindas a dezenas de milhares de atletas, dignitários e turistas de todo o mundo para os Jogos Olímpicos, que começarão na sexta-feira (8), está claro para quase todos aqueles que olharem que o governo está fundindo seu papel de anfitrião generoso com sua tradição de controlar a maioria dos aspectos da vida diária. Em um país conhecido por sua segurança rígida e intolerância a dissidentes, a segurança e a vigilância - tanto dos cidadãos chineses quanto de visitantes - aumentaram notadamente.

Regras de concessão de visto já rígidas foram reforçadas a ponto de alguns visitantes temporários terem sido forçados a deixar a China, enquanto que outros que planejavam vir para as Olimpíadas foram mantidos de fora - incluindo uma ex-nadadora americano de nado sincronizado que cobriria os Jogos como repórter.

Alguns donos de cafés e de lojas em Pequim e de fora da cidade foram requisitados a informar ou manter de fora certas minorias.

A Anistia Internacional informa que muitos dissidentes foram detidos ou estão sendo vigiados por agentes do governo. E o governo impediu os jornalistas visitantes de verem o que considera sites politicamente sensíveis na Internet.

Entre os sites estão o Free Tibet, que faz lobby pelo fim da "ocupação" chinesa na região, assim como sites do movimento espiritual Falun Gong, que é proibido na China.

As ações de Pequim criaram um tom que é significativamente diferente daquele estabelecido pelos organizadores dos últimos dois Jogos Olímpicos, em Atenas e Sydney.

Os gregos e australianos apreciaram a chance de transformar a atenção obtida com os Jogos Olímpicos em uma bonança econômica e turística que continuariam a render frutos muito tempo após os Jogos.

A China exibirá Pequim com a arquitetura impressionante de arenas olímpicas como o Centro Aquático Nacional (apelidado de Cubo de Água) e do Estádio Nacional de Pequim, conhecido como Ninho de Pássaro por ser envolto em uma teia de tubos de metal. A ascensão da China como potência econômica e atlética certamente será o tema dominante.

Os esforços de segurança sem precedentes da China - e seu imenso gasto nos Jogos, cerca de US$ 40 bilhões - sugerem que o futuro estímulo econômico e turístico não são a prioridade, disse David Wallechinsky, um historiador olímpico.

Pequim parece mais intencionada em promover uma Olimpíada livre de problemas que eleve a estatura do governo chinês e promova o nacionalismo entre os 1,3 bilhão de habitantes do país, ele explicou.

As medidas de segurança da China "vão muito além da proteção das pessoas contra ataques terroristas", falou. "Isto se trata do Partido Comunista mostrando ao seu próprio povo que o mundo o aceita como governante legítimo da China."

Kevin Wamsley, o ex-diretor do Centro Internacional para Estudos Olímpicos da Universidade de Ontário Ocidental, notou que a segurança foi extra reforçada em Salt Lake City para os Jogos de Inverno de 2002 - a primeira Olimpíada após os ataques terroristas do 11 de Setembro - mas ele disse que a abordagem de Pequim é bastante diferente.

"O estilo de segurança (em Salt Lake) era mais um confinamento dos complexos (olímpicos) - do movimento de entrada e saída", explicou Wamsley. Em Pequim, "a cidade toda está profundamente sob vigilância. É mais uma situação de Grande Irmão".

As autoridades chinesas desenvolveram apoio público às suas restrições ao vincular a segurança ao patriotismo, tratando qualquer esforço para atrapalhar os Jogos como um ataque contra Pequim.

O governo apontou uma longa lista de sabotadores potenciais, de separatistas tibetanos e terroristas muçulmanos que lutam pela independência do noroeste da China a oponentes do retrospecto de direitos humanos da China e dos laços amistosos do país com o Sudão. Na segunda-feira (4), 16 policiais foram mortos no noroeste da China, quando dois homens jogaram um caminhão contra eles e arremessaram explosivos.

Segurança e patriotismo se tornaram temas-chave em março, depois que policiais chineses reprimiram manifestantes pró-independência no Tibete. O que se seguiu foram protestos anti-China durante a passagem da Tocha Olímpica em Paris, San Francisco e outros lugares.

Quanto ao confinamento de segurança em Pequim: "Nós devemos fazer uso pleno da superioridade do sistema socialista em organizar e mobilizar as grandes massas para travar a guerra do povo para a proteção da segurança dos Jogos Olímpicos", disse Zhou Yongkang, o chefe de segurança do Partido Comunista.

Se trata de respeito

As restrições aos que assistirão aos Jogos - ou no mínimo as preocupações com eles - parecem ter virtualmente eliminado qualquer estímulo ao turismo provocado pelas Olimpíadas. O birô de turismo de Pequim prevê até 450 mil visitantes na cidade neste mês - aproximadamente o mesmo que em agosto passado. No Peninsula Beijing Hotel de cinco estrelas, a porta-voz Cecilia Lui diz que as restrições mais rígidas à concessão de visto se traduz em menos hóspedes.

"O movimento atual às vésperas dos Jogos Olímpicos está aquém de nossas expectativas", ela contou.

Este é um preço que o governo concentrado na segurança está disposto a pagar, disse Kang Xiaoguang, um professor de ciência política da Universidade Renmin, em Pequim.

"Originalmente, o governo esperava que os Jogos dariam um grande empurrão ao turismo em Pequim". Após os protestos contra a repressão do governo no Tibete terem manchado a passagem da Tocha Olímpica pela Europa, "aquele plano foi abandonado. A situação dos vistos se tornou mais rígida e as pessoas com vistos que estavam se esgotando foram mandadas embora". Em vez disso, "os Jogos renderão pontos para o Partido Comunista junto ao povo".

James Kynge, autor de "A China Sacode o Mundo", disse que os Jogos Olímpicos não são vistos na China como algo "sobre esporte e generosidade na vitória ou na derrota, mas sim sobre exibir ao mundo que a China é um país poderoso e que exige respeito".

Tirando fotos do retrato do líder Mao Tse-tung na Praça Tiananmen na semana passada, Molly e Meg McIntyre, primas naturais do Maine, disseram que a segurança era menos perceptível do que esperavam. Meg McIntyre, uma violonista de 30 anos, disse que atendeu às regras mais rígidas de concessão de visto da China ao escrever uma carta prometendo não tocar seu violino durante sua estadia.

O encontro mais próximo delas com uma segurança reforçada foi quando o trem delas cruzou da China para a Mongólia na semana passada. "Havia três tipos diferentes de autoridades, e todas eram intensas", disse Molly McIntyre, uma estudante de ciência política de 26 anos. As autoridades se interessaram em particular por sua cópia do livro "Mentiras e os Grandes Mentirosos que as Contam" de Al Franken, mas no final deixaram que ela ficasse com o livro.

Para outros, a segurança reforçada foi mais significativa.

Kendra Zanotto, uma medalhista de bronze da equipe americana de nado sincronizado em Atenas, em 2004, teve seu pedido de visto negado para os Jogos deste ano.

Ela cobriria o evento para o "Olympic News Service", que é operado pelo comitê olímpico de Pequim para fornecer notícias esportivas e biografias dos atletas para os jornalistas nos Jogos.

Zanotto disse que o comitê disse que o visto dela foi negado porque ela pertence à Team Darfur, uma coalizão de atletas co-fundada pelo americano Joey Cheek - um medalhista de ouro por patinação de velocidade nos Jogos Olímpicos de Inverno de 2006 - para levantar dinheiro e chamar a atenção para as crianças em Darfur.

"Eu fiquei chocada", disse Zanotto, 26 anos, que recentemente se formou em Columbia e vive em Los Gatos, Califórnia. "Eu nunca imaginei que o que estava fazendo era errado, político ou algo que o governo chinês veria como ameaçador, especialmente porque a Team Darfur apóia os Jogos Olímpicos de Pequim. Ela não pediu por um boicote como muitas organizações ativistas."

Repressão gera ceticismo

A China prometeu uma "Nova Pequim, Novas Olimpíadas" quando lhe foi concedido o direito de realizar os Jogos de 2008 pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), em 2001. O prefeito de Pequim, Lui Qi, disse que as Olimpíadas ajudariam a "promover nossas políticas econômicas e sociais e ajudariam a desenvolver nossa causa de direitos humanos".

O presidente do COI, Jacques Rogge, concordou, dizendo em março: "Nós acreditamos que a China mudará ao abrir o país para o escrutínio do mundo, por meio dos 25 mil órgãos de mídia que estarão presentes no Jogos". Ele chamou as Olimpíadas de "uma força para o bem" e "catalisadora de mudanças".

Russell Moses, um analista político americano em Pequim, disse que o público internacional "realmente superestimou quanto a liderança (da China) se importa com sua imagem, em comparação a quanto deseja projetar a certeza de controle".

Moses descreve o governo chinês como "navegando entre os bancos de areia da ansiedade e autocelebração, e ninguém está autorizado a balançar o barco".

A nova abordagem da China em relação aos visitantes estrangeiros foi o motivo para Meg Stivison ter deixado o país no mês passado com seu namorado, Chris Malavette, e ela assistirá os Jogos Olímpicos da casa de seus pais, em Nova Jersey.

Stivison, 27 anos, disse que voltou depois que o visto do seu namorado não foi renovado. As renovações anteriores eram uma formalidade durante os dois anos em que estiveram na China como professores. "Eu chorava a caminho do aeroporto, me sentia absolutamente miserável", disse Stivison. "Não me ocorreu que a China mandaria embora duas pessoas que amam a China."

A segurança olímpica se estende muito além de Pequim. Zhang Suzhen há anos abriu a fazenda de sua família para estudantes estrangeiros, para ajudá-los a aprender sobre a vida no interior da China. Há duas semanas, ela rejeitou um ônibus lotado de estudantes da Capital Normal University que queriam visitar a casa dela na Floresta do Pagode de Prata, a uma hora de carro de Pequim.

"A polícia nos disse que não poderíamos receber convidados estrangeiros", disse Zhang. "Eu acho que é um exagero. Do que estão com medo? Ninguém quer causar problemas para os Jogos Olímpicos."

Na província de Zhejiang, a cerca de 1120 quilômetros ao sul de Pequim, a dona de café Joanna Wu disse que a polícia ordenou que ela informasse qualquer "muçulmano, indiano, pessoa do Oriente Médio ou negro" que entrasse em seu estabelecimento, que é popular entre estrangeiros.

Para alguns em Pequim, a segurança extra tira o prazer dos Jogos.

Shauna Liu, proprietária de um hotel butique em Yanyue Hutong, o beco patrulhado por Lu Ruzi e outros, disse: "A festa está sendo adiada até depois dos Jogos Olímpicos. Meus amigos brincam que a segurança se tornou ainda mais importante para a China do que ficar à frente no quadro de medalhas".

Os Jogos poderiam representar uma oportunidade perdida para exibir uma Pequim reformada, disse Tom Pattinson, editor da "Times Out Beijing", uma edição local da revista de entretenimento. "Ao tentar controlar tudo, as autoridades estão perdendo o grande quadro. Ninguém verá o que Pequim se tornou nos últimos três anos - uma cidade vibrante e cultural."

Dick Patrick, em McLean, Virgínia, e Vicki Michaelis, em Denver, contribuíram com reportagem. George El Khouri Andolfato

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