Paraolimpíadas buscam mudar preconceitos chineses

Calum MacLeod
Em Pequim

Quando uma ouvinte de um programa de rádio se queixou de que seu pai cego era um fardo e colocava em risco suas perspectivas de casamento, o apresentador Ma Xinyu entendeu.

"Meu pai era infeliz por não ter um filho fisicamente perfeito", disse Ma, 26 anos, que perdeu a visão aos 13 anos. "Ele não gostava de sair comigo. 'Você é um menino cego e também é feio', ele dizia. Então eu raramente saía de dentro de casa."

Ma disse que estas posições preconceituosas algum dia desaparecerão. Esta é a principal meta dos Jogos Paraolímpicos que começaram aqui no sábado (6).

Apesar do progresso nos últimos anos, as posturas tradicionais em relação à deficiência física permanecem entrincheiradas neste país que possui pelo menos 83 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, quase o equivalente à população da Alemanha.

As Paraolimpíadas, realizadas sempre após as Olimpíadas, incluirão 4.200 atletas de 148 países competindo em 20 esportes até 17 de setembro. Entre os atletas paraolímpicos americanos estão dois veteranos da guerra no Iraque no atletismo e na natação.

Apesar da probabilidade de que a China lidere novamente o quadro de medalhas -como fez nos Jogos Paraolímpicos de Atenas em 2004, e nos recentemente encerrados Jogos Olímpicos- as pessoas que trabalham com os deficientes da China esperam que eles tenham um impacto bem mais profundo.

"Eu espero que as Paraolimpíadas estimulem uma maior participação e entendimento por parte tanto das pessoas deficientes quanto das pessoas fisicamente aptas", disse Da Wei, fundador do Centro Hongdandan de Ensino e Intercâmbio Cultural, em Pequim, que apóia os cegos. Ele treinou Ma para se tornar um locutor de rádio e narra filmes para pessoas cegas.

"Eu quero romper os limites de emprego para pessoas cegas, que freqüentemente são informadas que só podem treinar para ser massagistas. Se cegos podem ser locutores como Ma, eles podem fazer qualquer coisa. Podem ser advogados, compositores e professores. Basta lhes dar as condições certas", disse Da.

Pequim gastou US$ 80 milhões desde 2001 para melhorar o acesso para os quase 1 milhão de deficientes da cidade, disse Zhao Chunluan, chefe da Federação das Pessoas Deficientes de Pequim, um órgão governamental.

As melhorias incluem 2 mil ônibus com acesso para cadeiras de roda, 300 pontos de ônibus com rampas e "caminhos para cegos" -relevos ao longo das calçadas que os cegos podem sentir sob seus pés.

"Agora há muitos caminhos para cegos", disse Da, "mas não são padronizados e não foram construídos nem projetados por cegos. Alguns deles são como armadilhas (com obstáculos). Nós fizemos um programa de rádio onde um jornalista cego caminhou por um desses caminhos e então bum! Ele trombou em algo, sentiu o que era, então continuou -bum, trombou com outra coisa".

Tian Yue, diretora de um novo centro que fornece serviços para portadores de deficiência na região central de Pequim, disse que a infra-estrutura e a postura nas grandes cidades melhoraram nos últimos ano, mas 75% dos deficientes chineses vivem no interior, onde o apoio continua limitado.

"Até os anos 80, os deficientes costumavam ser chamados de 'canfei' -defeituosos e inúteis", disse Tian. "Minha colega de classe há 30 anos teve pólio e seus pais nunca mais a deixaram sair de casa, por temer que ela faria a família perder prestígio."

Tian percorre seu bairro para encorajar aqueles com deficiências e os pais de crianças portadoras de deficiência a irem ao seu centro, chamado de Doce Lar, um dos 1.400 centros de apoio financiados pelo governo na área de Pequim.

"Preconceito e discriminação ainda existem", disse Tian. "Mas se as pessoas portadoras de deficiência participarem de mais atividades sociais e se tornarem mais visíveis, então elas mesmas mudarão a postura da sociedade."

Tian treinou centenas de voluntários olímpicos para auxiliar os atletas e espectadores e diz que há muito mais acesso livre de barreiras.

"Você verá mais e mais usuários de cadeiras de rodas nas ruas de Pequim", ela disse.

O país tem cadeirantes famosos. Deng Pufang, filho do ex-líder Deng Xiaoping, que ficou paralisado durante a Revolução Cultural e é chefe da federação dos deficientes da China. O atleta Jin Jing defendeu a Tocha Olímpica dos manifestantes em Paris no primeiro semestre e foi apelidado de "anjo em cadeira de rodas" pela mídia chinesa.

Ma, o radialista, disse: "As pessoas costumavam me xingar quando eu era menino, mas isso acontece com menos freqüência agora".

Sua ouvinte "escutou nosso programa e mudou seu modo de pensar", disse Ma. "Ela temia que a família do namorado dela a rejeitaria se soubesse que se pai era cego. Nós conversamos e ficamos amigos. E agora eles estão casados." George El Khouri Andolfato

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