Em 2008, cultura e geografia ainda dividem politicamente os Estados Unidos

Chuck Raash, em Washington (EUA)

Os políticos norte-americanos sempre estiveram mergulhados no regionalismo e na desconfiança cultural e racial. Os norte-americanos travaram uma terrível guerra civil em todas estas três frentes. Um século mais tarde, os nortistas viam os sulistas como opressores durante as lutas pelos direitos civis, e os sulistas viam os nortistas como intrometidos. Até mesmo o rótulo "Inside the Beltway" ("Dentro da Beltway"; a Beltway é a auto-estrada circular que contorna Washington, D.C.) dá continuidade a uma visão profundamente enraizada, do tipo "nós versus eles", da capital na nacional.

Apesar da participação de um homem negro e de uma mulher branca, respectivamente, nas chapas presidenciais democrata e republicana, a eleição de 2008 tem sido disputada com freqüência segundo tais linhas divisórias.

Tanto Barack Obama quanto Sarah Palin já passaram para a História, e um deles será capaz de modificá-la de uma forma que não parecia ser possível pouco tempo atrás. Mas algumas das características "nós versus eles" desta eleição têm se baseado no racismo, no sexismo e no regionalismo. Mesmo neste precipício de mudança histórica, não estamos imunes aos instintos mais básicos do nosso passado.

Apenas alguns dias antes da eleição, as pesquisas indicam que cerca de um em cada dez norte-americanos acredita que Obama é muçulmano. Isto não só é falso, como também está sendo perpetuado por uma campanha de cunho racista na Internet, que questiona a lealdade e o patriotismo de Obama. Trata-se também de uma difamação da fé muçulmana por tirar proveito da crença ignorante de que muçulmano e terrorista são sinônimos. É algo que confere um caráter pejorativo a toda uma religião.

Há assassinos que invocam uma perversão do islamismo para racionalizar matanças indiscriminadas. Os norte-americanos de qualquer fé e os que não têm nenhuma religião precisam entender claramente a ameaça representada por essas pessoas. Mas quando o termo "Muslim" (muçulmano) torna-se o novo substituto de "Niger" (pejorativo racista usado nos Estados Unidos para referência a indivíduo negro), deparamo-nos com problemas que nem a erradicação de todo o terrorismo é capaz de resolver.

Parte do motivo pelo qual o ex-secretário de Estado Colin Powell, que é republicano, apoiou o democrata Obama foi o fato de ter se cansado da maneira como Obama tem sido retratado.

"Ele sempre foi cristão", disse Powell aos repórteres. "Mas a resposta realmente correta é, e se ele fosse (muçulmano)? Existe alguma coisa errada com o fato de alguém ser muçulmano neste país? A resposta é não. Os Estados Unidos não são isto".

Palin confronta-se com questões legítimas quanto a possuir experiência suficiente para ser presidente, caso o momento para isto apresente-se. Mas alguns dos ataques mais agressivos contra ela emanam de uma alegação subjacente de que uma mulher conservadora não é uma herdeira legítima do progresso em direitos das mulheres, e, conseqüentemente, tampouco é uma líder nacional.

Não é de se surpreender que Palin fale um dialeto regional com o qual os autores do script do programa "Saturday Night Live" não estão familiarizados. O "Saturday Night Live" tem feito gozações com Palin em um estilo meio condizente com o filme "Fargo". Mas a voz e o estilo de vida dela - caçadora e tudo mais - não são elementos estranhos em grandes porções do território dos Estados Unidos.

Alguns dos ataques da indústria do entretenimento a Palin dão a impressão de serem motivados por um complexo de superioridade cultural, derivado de uma idéia de que qualquer indivíduo que pilote um veículo de neve ou que nunca tenha andado de metrô tem que ser excluído. Palin aceitou isto com bom humor, submetendo-se aos árbitros culturais do "Saturday Night Live".

Mas tanto Palin quanto Obama devem responder por seus deslizes. Na Carolina do Norte, Palin falou a respeito de sentir-se confortável nos "Estados Unidos reais" e sobre as áreas "pró-América desta grande nação", dando a entender que as localidades nas quais não há grandes multidões dispostas a ouvi-la discursar são, de alguma forma, menos estadunidenses. Palin foi criticada com razão, e ela fez bem em se desculpar.

Obama está pregando a unidade na sua argumentação final, mas anteriormente ele evocou uma caricatura de norte-americanos rurais "amargos" e de pequenas cidades que "agarram-se" a armas e à religião como se fossem amostras de laboratório para os seus doadores de campanha de São Francisco.

Apesar de todo o desejo dos norte-americanos de unirem-se para resolver os grandes problemas com os quais o país se defronta, temos divisões institucionalizadas no nosso léxico e em nossas instituições. A idéia de Estados vermelhos e azuis é uma simplificação conveniente de tendências de longo prazo do colégio eleitoral. Ela produz belos mapas para a Internet. Mas também reduz o mosaico norte-americano a uma figura monocromática. Mas nós sabemos que existem conservadores nas regiões mais liberais do país e vice-versa. O que há em todas as partes são norte-americanos.

Graças à divisão política segundo legislaturas estaduais, a Câmara dos Deputados é cada vez mais habitada por políticos hiper-partidários, produtos do que há de mais novo em marketing de nicho (micro-seleção de alvos) e rotulação (identificação de nomes). Quando se dá aos políticos eleitos garantias de reeleição da ordem de 90%, eles jamais precisam apelar para um mosaico cultural e racial mais amplo para manterem-se no cargo.

A Califórnia conta com três disputas ligeiramente competitivas entre as 53 vagas na Câmara que serão disputadas em 4 de novembro. Neste ano somente uma em cada sete disputas pela Câmara em todo o país será competitiva.

Os fundadores do país desejavam que a Câmara dos Deputados fosse um caldeirão de fusão, o corpo legislativo que misturasse o campo e a cidade, e tudo o que existisse entre esses dois opostos. Mas isto foi antes do mapeamento auxiliado pelo computador e das técnicas profissionais utilizadas pelos políticos para delinear distritos partidários "seguros".

A câmara do povo ainda é uma meta nobre, mas cada vez mais ela dá a impressão de ser o equivalente político de 435 comunidades estanques. UOL

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