Refugiados sentem-se seguros e gratos por estarem nos EUA

Charisse Jones
Em Nova York

Mohamed Hashem, um universitário que estudou dança quando era criança e trabalhou como modelo, era freqüentemente ameaçado nas ruas de Bagdá. Ele fugiu para a Jordânia, passou um tempo no Líbano e se escondeu por dois anos na Síria antes de finalmente chegar a Nova York em julho na condição de refugiado.

Tendo fugido da perseguição, ele também é um peregrino. Na quinta-feira, celebrou seu primeiro feriado de Ação de Graças.

"O que me faz continuar é sempre me lembrar onde eu estava e onde estou agora", diz Hashem, 25, que divide um quarto com outro refugiado iraquiano no Brooklin. "Eu não tenho emprego. Estou sozinho, mas estou em Nova York, onde sempre quis estar. Estou seguro."

Hashem e dúzias de outros refugiados se reuniram na noite de quinta-feira para uma celebração antecipada do feriado que comemora o primeiro banquete entre os indígenas americanos e um outro tipo de refugiados há séculos atrás. Assim como Hashem, muitos estavam celebrando o dia de Ação de Graças pela primeira vez.

O jantar foi um dos três organizados esta semana pelo Comitê Internacional de Resgate, uma das nove agências que ajudam refugiados nos Estados Unidos. Também aconteceram celebrações em Phoenix na quinta-feira e em Salt Lake City na terça.

"Muitas das pessoas que estamos atendendo foram perseguidas por razões bem semelhantes às que trouxeram os peregrinos para cá", diz Bob Carey, vice-presidente de reassentamento e política de migração para o IRC. "Na minha opinião, esse é de fato o sentido do feriado".

Entre os que compareceram ao jantar em Nova York estava Ban Ki Moon, secretário-geral da ONU. "Essa é com certeza uma época para celebrar a Ação de Graças, para celebrar as bênçãos (...) mas, mais importante que isso, acho que precisamos compartilhar essas bênçãos com os outros. É por isso que estamos aqui neste evento".

O jantar teve peru recheado, mas também bananas fritas e homus, em homenagem a algumas das tradições dos convidados que têm raízes no Nepal, Afeganistão e outras dez nações.

Músicos senegaleses cantaram e tocaram tambor enquanto homens e mulheres vestidas com saris e roupas tradicionais afegãs e centro-africanas socializavam. A noite ofereceu momentos de leveza e alegria em meio ao que continua sendo uma jornada difícil para esses recém-chegados, muitos dos quais levam cicatrizes físicas ou emocionais da violência e intimidação em seus países de origem, assim como de anos passados em campos de refugiados.

Ainda mais desafiadora, dizem os ativistas, é a chegada deles numa época de crise econômica aqui, tornando mais difícil encontrar trabalho e moradia.

"Parte da tradição americana é acolher os recém-chegados que estão procurando uma chance de restabelecer suas vidas e isso (...) tornou-se mais difícil, particularmente no último ano", disse Carey.

Ainda assim, os que participaram das celebrações de Ação de Graças dessa semana estão entre os afortunados. O número de refugiados aceitos pelos EUA caiu drasticamente depois do 11 de setembro, quando os procedimentos de segurança e imigração ficaram mais rígidos. O número, entretanto, vem aumentando lentamente desde 2003.

"Nós somos um país acolhedor e queremos continuar a ser um país acolhedor para legitimar refugiados de todo o mundo", diz Chris Rhatigan, porta-voz dos Serviços de Cidadania e Imigração dos EUA.

A primeira vez que Dah Thu Dee, 23, teve um vislumbre de como era a vida fora de um campo de refugiados tailandês foi quando voou para Nova York em setembro de 2007.

"Até hoje eu não consigo descrever o que senti quando aterrissei no Aeroporto Kennedy", diz Dee, cuja família fugiu de Burma, também conhecida como Myanmar, para a Tailândia antes de ele nascer e depois que eles e outras minorias étnicas se tornaram alvo do governo militar. "Foi como um sonho porque eu passei minha vida toda num campo de refugiados e não tinha permissão de sair".

Ele se sentiu confuso e ansioso em seu novo ambiente.

"Vindo da floresta para a maior cidade do mundo, você pode imaginar", disse Dee. "Eu não sabia como usar o metrô. Tudo era novo".

Agora ele é assistente social no Comitê de Resgate, guiando os refugiados mais recentes durante os primeiros passos nos Estados Unidos, seja atuando como tradutor para os pais durante uma reunião escolar ou recebendo as famílias no aeroporto quando elas chegam. "Do que quer que precisem, se tiverem qualquer problema, podem me chamar", diz.

Rose Kingston, 27, está ajudando jovens refugiados de outra forma.
Quando ela veio para os Estados Unidos com 15 anos, ela e a família tinham fugido de sua casa na Libéria e haviam passado seis anos num campo de refugiados em Gana. Mal preparada academicamente e falando inglês com um sotaque pesado que a deixava isolada, ela encontrou salvação na dança. "A dança foi minha terapia silenciosa", diz.

Há dois anos, ela fundou uma escola de dança em Staten Island que é um ambiente seguro para crianças refugiadas.

Isso a deixa agradecida. "Ser capaz de pegar o que eu passei e ajudar outras crianças", diz ela, "sinto que tenho sorte em poder fazer isso". Eloise De Vylder

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