Em Los Angeles, o centro está em alta

Jayne Clark
Em Los Angeles

Recentemente, a designer de moda Stella Dottir deu uma caminhada pelo seu bairro no centro e se maravilhou com coisas comuns.

"Havia flores e pessoas sentadas em cafés de rua. E estava tudo limpo", ela disse, balançando a cabeça em espanto. "Quando me mudei, era possível comprar crack, heroína, maconha e pílulas. Mas certamente não dava para comprar leite. Isto era um supermercado do inferno."

Uma mudança ocorreu ao longo dos anos desde que Dottir abriu a loja que leva seu nome, um dos primeiros empreendimentos comerciais (legais, ao menos) neste trecho antes desolador de Skid Row. Na porta ao lado há um alegre restaurante vietnamita e uma locadora de vídeo. E do outro lado da rua, um estúdio de ioga e uma creche para cães.

"É agitado à noite. Há restaurantes, clubes, música", ela disse. "É como se fosse uma cidade diferente."

De fato, o centro de Los Angeles foi por décadas abandonado ao término do expediente de trabalho, quando milhares de trabalhadores de escritório pegavam seus carros e partiam para casa por meio de um emaranhado de vias expressas. Poucas pessoas o visitavam; ainda menos moravam aqui, a menos que se leve em conta a grande população de moradores de rua. As ruas eram escuras, sujas e perigosas.

Agora, o centro de Los Angeles está repentinamente badalado, graças a um recente afluxo de moradores, que, por sua vez, provocaram o surgimento de novas lojas, restaurantes e casas noturnas, dando aos visitantes motivos para se aventurarem aqui. Cercado por três vias expressas e pelo Rio Los Angeles ao leste, o centro cívico de Los Angeles é realmente uma colcha de retalhos de pelo menos 15 bairros distintos que ocupam uma área relativamente compacta, das esguias torres de escritórios do Distrito Financeiro e opulência exagerada dos teatros da era do vaudeville que margeiam a histórica Broadway, aos prédios baixos de Little Tokyo e fachadas lotadas do Distrito da Moda.

Mas apesar das grandes atrações - a coleção do Museu de Arte Contemporânea, as apresentações no Music Center, as barracas de artesanato mexicano na histórica Olvera Street e, desde 2003, a visão espetacular do Walt Disney Concert Hall projetado por Frank Gehry, que possui suas próprias visitas com guias- o centro carecia da massa crítica para atrair seriamente os turistas.

O maior e mais recente empreendimento alimentando o boom é o L.A. Live, uma extravagância de entretenimento e esportes no valor de US$ 2,5 bilhões na margem sul do centro, ao lado da arena de esportes Staples Center, com décadas de idade. Ela é composta pelo Nokia Theatre, com 7 mil lugares e inaugurado há um ano, o recém aberto e exuberantemente interativo Museu do Grammy, o Club Nokia, com 2.300 lugares, e o Espn Zone com instalações de transmissão, um clube noturno para 1.000 pessoas e muitos restaurantes. No início de 2010, o J.W. Marriott com 54 andares e um Ritz-Carlton vão ser inaugurados ali. Os mil quartos adicionados atenderão um setor de convenções em decadência, que antes dependia de eventos anuais como a feira do automóvel e uma convenção do setor pornográfico.

O empreendimento cerca uma praça ao ar livre de 3.680 metros quadrados que os promotores estão apelidando de Times Square do Oeste. Ela está provocando elogios efusivos de lideres cívicos e empresariais, que a vêem como um atrativo para pessoas que considerariam marcar um encontro no centro após o anoitecer como marcar um horário para ser roubado.

"Há um ano, não havia quase nada para se fazer no centro", disse Mark Liberman, presidente da LA Inc., a agência de promoção do turismo da cidade. "Agora estamos vendo filas" de pessoas.

Na nova área de Gallery Row, ao leste do L.A. Live, caminhadas de arte nas noites de quinta-feira estão atraindo milhares para uma área antes desolada. E alguns poucos pioneiros, como Gary Cypres, dono do novo Museu dos Esportes de Los Angeles, estão empurrando as fronteiras além dos limites do centro, apostando em um transbordar para outras áreas. Seu museu cavernoso abriga uma coleção de arregalar os olhos de mais de 10 mil itens esportivos.

O Patrimônio Histórico de Los Angeles, que há muito oferece vários passeios para conhecer a arquitetura do centro, informou um aumento da demanda de 30% ao longo do último ano, graças ao boca-a-boca positivo a respeito da área.

"Nós recebemos centenas de ligações de pessoas dizendo: 'Vocês têm teatros ali?'" disse a porta-voz do Patrimônio Histórico, Cindy Olnick. "Elas não tinham idéia. E quando você as retira de seus carros, elas vêem esses prédios incríveis que não mais são construídos."

A atual renascença teve início em 1999, com quatro leis que encorajavam a conversão de prédios de escritórios há muito vazios em lofts residenciais. Atualmente, cerca de 39 mil pessoas se mudaram para lá.

"A conversão de velhos prédios comerciais em imóveis residenciais é o que realmente fez a diferença", disse Carol Schatz, presidente do Distrito de Melhorias nos Negócios do Centro. "Isso injetou vida nas ruas. As pessoas exigiam locais para comer e fazer compras. Foi isso o que provocou o boom no centro."

A crise econômica não poupou esta área. As conversões de lofts e novos condomínios que antes eram destinados à venda agora são destinados a aluguel. A julgar pela abundância de placas de "Aluga-se", há bastante disponibilidade. Um empreendimento ambicioso, o Grand Avenue Project (apelidado de a Champs-Elysées de Los Angeles), que adicionaria um parque, um hotel de luxo, imóveis residenciais e comércio, está temporariamente suspenso. O grande número de estacionamentos cercados, cheios de mato, indica outros planos.

E o centro também não perdeu seu lado feio. Um relatório de 2007 estimou a presença de 5 mil moradores de rua apenas em Skid Row. Um sinal de alerta "Proibido Drogas, Proibido Traficantes" está fixado em um hotel residencial decadente próximo de um pet shop que vende um canguru para cachorros de US$ 300. Uma academia de Pilates fica ao lado de um mercado de pulgas que vende sapatos a US$ 5. Uma loja latina de ervas medicinais, que oferece um exame da língua por US$ 20, fica próxima de um spa elegante oferecendo uma esfoliação corporal por US$ 220.

Mas essa rica diversidade é o que muitos moradores - e visitantes - consideram tão atraente.

Craig Martin, 47 anos, que se mudou para um loft no antigo prédio da companhia de gás há oito meses, disse que quando soube que pessoas estavam se mudando para cá, ele se perguntou: "Onde elas compram comida?" (Um mercado de luxo Ralphs abriu em 2007.) Inicialmente, o importador de peixes e frutos do mar queria apenas morar perto de seu trabalho, para evitar os lendários congestionamentos de Los Angeles. Agora, ele não moraria em nenhum outro lugar.

"Culturalmente, é uma grande mistura de pessoas. Há pessoas velhas que moram aqui desde os anos 30 e estudantes, jovens profissionais e uma infinidade de cães", ele disse. "E, sim, existem áreas perigosas. Eu não sei onde elas estão - eu apenas sei quando é hora de dar meia-volta. Mas as coisas estão mudando o tempo todo. Basta apenas uma loja decente ou algo novo para mudar tudo." George El Khouri Andolfato

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