Jogos Olímpicos deixam ar puro em Pequim, mas não têm impacto nas políticas de direitos humanos

Calum Macleod Em Pequim

Quase oito meses após as Olimpíadas de Pequim, o Ninho de Pássaro não é mais um espaço de façanhas atléticas e competições, mas continua inspirando milhões de chineses como símbolo de força.

O Estádio Nacional, a construção icônica em que a flama foi extinta após a cerimônia de fechamento e a superação de vários recordes em agosto último, "inspira esperança nas pessoas", disse Sun Fangzhen, 59, que foi de Hangzhou, no leste da China, até a capital.

"Mostra a força econômica de nosso país. Independentemente do custo, valeu a pena", disse ele.

Itsuo Inouye/AP - 5.ago.2008 
Soldados chineses em formação no Estádio Nacional, o Ninho de Pássaro, em Pequim

Nem todos concordam que os bilhões gastos para receber os Jogos Olímpicos valeram a pena.

"Eu esperava que os Jogos Olímpicos fossem melhorar minha vida, mas só trouxeram desastre", disse Zhan Wei, cuja casa foi demolida em 2006 para dar lugar a um projeto de reurbanização olímpico ao sul da praça Tiananmen.

Ela entrou com um pedido de licença para protestar, mas em vez disso foi enviada à detenção por um mês. "A polícia me disse que era por eu ter contado aos jornalistas a verdade sobre a demolição da minha propriedade", disse ela.

Mas certas coisas mudam...

As Olimpíadas deixaram o ar mais puro, um sistema de transporte melhor e os habitantes mais educados -para os padrões ocidentais. Contudo, o impacto nas políticas de direitos humanos e liberdade de expressão da China foi pequeno, de acordo com especialistas.

A China "não cumpriu suas promessas olímpicas de melhoria nos direitos humanos", disse Sisi Liu, pesquisador da Anistia Internacional em Hong Kong.

"A China usou as Olimpíadas como pretexto para continuar suas violações de direitos humanos", disse Liu, citando a prisão de vários dissidentes antes, durante e depois dos Jogos.

Poucas semanas antes das Olimpíadas, as autoridades designaram três parques públicos de Pequim como "locais para protestos", a serem usados durante as Olimpíadas pelos cidadãos chineses que pedissem licença antecipada. Mas nenhum dos 77 pedidos foi aprovado, de acordo com a agência de notícias estadual Xinhua. Várias pessoas que entraram com pedido de licença para protestar foram presas, disseram grupos de direitos como Anistia Internacional.

Ren Hai, diretor do Centro de Estudos Olímpicos do Ministério de Esportes chinês, disse que a questão dos protestos foi uma oportunidade perdida. "Se você monta um parque para protestos, deve permitir ao menos um protesto. Você não deve ter medo deles, pois em toda sociedade existem contradições."

Um legado das Olimpíadas foi a prorrogação das regras que relaxaram algumas das restrições de repórteres estrangeiros na China. "O Conselho Governamental não era obrigado a mantê-las", disse Jeff Ruffolo, californiano que foi consultor dos organizadores olímpicos.

As Olimpíadas "mudaram este país para sempre", disse Ruffolo, que cobriu três Olimpíadas para a rádio Westwood One CBS. Ele acrescenta que houve uma mudança sísmica na forma de lidar com a mídia estrangeira. "O mundo não era o que as autoridades chinesas pensavam, ou seja, de estrangeiros com chifres e rabo. O mundo tornou-se seu amigo."

Jonathan Watts, presidente do Clube de Correspondentes Estrangeiros, disse que o relaxamento das restrições aos repórteres estrangeiros não deve ser interpretado como sinal que a China é aberta à mídia. Ele cita o exemplo do acesso negado aos jornalistas estrangeiros às áreas tibetanas fora do Tibete, enquanto o "Tibete está sempre fora de alcance".

Alguns sites que foram brevemente desbloqueados durante as Olimpíadas, como o da Anistia Internacional, foram bloqueados novamente, disse Watts.

A situação para os repórteres chineses não mudou. "Eles são obrigados a se autocensurarem, para evitar repercussões do departamento de propaganda do Partido Comunista, e recebem instruções sobre quais histórias são proibidas de se cobrir", disse ele.

Grandes beneficiários
Estima-se que o governo gastou US$ 40 bilhões em infra-estrutura depois que a cidade venceu a disputa para sediar os Jogos Olímpicos em 2001. O progresso incluiu mais espaço verde, maior tratamento de esgoto e uma rede de transporte público em expansão, de acordo com uma avaliação ambiental redigida pelo Programa de Meio Ambiente da ONU.

O professor de Pequim Jin Yuanpu disse que os maiores beneficiados das Olimpíadas foram "o humanismo e o ambiente" chinês. Jin faz parte de uma equipe da Universidade de Renmin que está compilando um relatório do impacto das Olimpíadas para o Comitê Olímpico Internacional. "Há menos pessoas cuspindo ou furando fila. A qualidade do ar é melhor e há muito mais espaço verde. É só andar um quilômetro e a pessoa já encontra um parque para descansar", disse ele.

Os turistas continuam a visitar os estádios nos quais a China conquistou 51 medalhas de ouro no último verão, mais do que qualquer outro país.

De setembro ao final de janeiro, o Ninho de Pássaro teve 3 milhões de visitantes, disse Yang Weiying, vice-gerente geral do consórcio que administra o estádio. Com a entrada a US$ 7,30 por visitante, o turismo pode cobrir a manutenção e o retorno do investimento por três anos, mas apenas o desenvolvimento comercial e eventos grandes podem sustentar o lucro de longo prazo, disse ela.

Há projetos de restaurantes, clubes e lojas. No mês que vem, o astro do kung fu Jackie Chan fará uma apresentação musical no estádio.

"Quando se encerraram as Olimpíadas, entendemos que o Ninho de Pássaro tinha se tornado um símbolo do espírito do povo chinês e do espírito Olímpico e nossa janela para o mundo", disse Yang. "Precisamos proteger os sentimentos das pessoas e o orgulho do estádio."

Tradução: Deborah Weinberg

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