Galápagos tenta manter o equilíbrio em meio a onda de turismo

Por Laura Bly

Ilha Espanhola, Equador - Minutos depois de descer na praia ofuscantemente branca que da Baía Gardner na ilha Espanhola no arquipélago de Galápados, Suzanne Newman agacha-se fascinada.

O objeto de seu fascínio é um leão marinho de um mês de idade, olhando para a turista de Winnipeg e um grupo de outros paparazzi com uma pose de astro hollywoodiano.

"Sinto como se eu fosse uma menina encontrando um astro de cinema", disse Newman enquanto o filhote se arrastava para dar um beijo bigodudo em seu pé.

Mas então uma batidinha no ombro de Newman quebra o encantamento. O biólogo marinho Jose Luis Benavides, guia do Parque Ncional de Galápagos encarregado de cuidar do grupo hospedado num navio, repete a "norma dos dois metros" constantemente violada do parque: os visitantes que chegam mais perto do que isso da vida selvagem prolífica e despreocupada que serviu de base para a teoria da evolução do cientista inglês Charles Darwin arriscam perturbar um dos ecossistemas mais peculiares e delicados da Terra.

Este ano marca dois séculos do nascimento de Darwin, 150 anos da publicação de sua obra essencial "A Origem das Espécies", 50 anos da criação do Parque Nacional de Galápagos e da Fundação Charles Darwin, e três décadas desde que a Unesco nomeou o arquipélago como o primeiro Patrimônio Mundial. Mas os aniversários são comemorados com um misto de orgulho e temor nas 19 ilhas vulcânicas localizadas a cerca de 960 quilômetros da costa do Equador.

Apesar de a crise econômica global ter diminuído as reservas turísticas estrangeiras e estimulado mais ofertas de último minuto para um lugar que sempre foi um destino caro, o turismo ainda dita as regras no "laboratório de Darwin". O número anual de visitantes chegou a um recorde de 173 mil no ano passado, tendo quadruplicado nos últimos 20 anos. Os equatorianos do continente chegaram, também, aumentando a população da ilha para quase 30 mil pessoas, quase o dobro do que há uma década.

E apesar de 97% do grupo de ilhas do tamanho da Nova Inglaterra continuarem sob proteção do parque nacional, com tours guiados limitados a 60 pontos permitidos, a popularidade crescente de Galápagos tem despertado cada vez mais preocupações em relação a seu futuro. A Unesco colocou as ilhas na lista de lugares "em perigo" em 2007, mesmo ano em que o presidente do Equador assinou um decreto tornando sua proteção uma prioridade nacional.

Com as vendas de petróleo em queda, o Equador está ainda mais ansioso para expandir o turismo, e "os Galápagos são a jóia da coroa", diz Gabriel Lopez, recém-nomeado diretor da Fundação Charles Darwin sem fins lucrativos, localizada na Ilha de Santa Cruz.

"Mas temos uma pequena janela de oportunidade para colocar Galápagos num caminho sustentável", acrescenta Lopez. "É preciso que haja um plano abrangente, e um limite máximo de turistas permitidos".

Evolução de um ponto turístico

Quando Darwin passou cinco semanas aqui em 1835 como parte de uma expedição de mapeamento ao redor do mundo, o naturalista de 26 anos de idade contou que ficou "maravilhado com a quantidade de força criativa, se é que se pode usar essa expressão, existente nessas ilhas pequenas, rochosas e sem vegetação".

Ele descobriu que a flora e a fauna que sobreviveram nesse remoto e desolado ambiente mudavam drasticamente com frequência para se adequar ao habitat. Os lagartos famintos aprenderam a encontrar e se alimentar de algas marinhas sob a superfície. Sem predadores naturais com que se preocupar, o cormorão perdeu sua capacidade de voar.

E as 13 variedades de pássaros fringilídeos de Galápagos, que tiveram um papel importante na teoria da seleção natural de Darwin, tiveram seus bicos adaptados de acordo com a comida que estava disponível para eles: curtos e sólidos para quebrar nozes e sementes em uma ilha; longos e pontudos para coletar frutas e flores de cactus em outra.

O pai de Jack Nelson, dono de uma operadora de mergulho, abriu o primeiro hotel em Galápagos na Ilha de Santa Cruz em 1962. Durante esses anos pioneiros do turismo, a maioria dos visitantes eram fanáticos por Darwin, dispostos a suportar o calor, o mar agitado para navegar entre as ilhas, e os serviços ruins para se maravilhar com o que já foi chamado de "Monalisa da biodiversidade".

Mas quase cinco décadas mais tarde, reclama Nelson, 61, os viajantes de Galápagos são um "bando de mimados que acham que estão se aventurando porque não há nenhuma loja de conveniência na esquina".

Muitos veem as ilhas como mais um item a ser riscado de sua lista de lugares a serem visitados, e são atraídos por uma variedade cada vez maior de passeios especializados que vão da prática de caiaque à pesca esportiva. (Para alívio dos ambientalistas, a proposta de criação de uma operadora de paraquedismo em Galápagos nunca saiu do chão.)

Problemas além do parquet

Hoje, a antiga sala de aula de Darwin tem a fachada enganosa de um "vilarejo Potemkim", diz Nelson no Hotel Galápagos de seu pai, hoje fechado, onde crânios esbranquiçados de baleias piloto e cachalotes ainda estão pendurados no teto de metal ondulado do saguão.

"Para um turista, as coisas parecem bem. Você vê muitos animais, e não muitas pessoas", diz ele. "Mas saia desses parâmetros controlados (do parque nacional), e você encontrará uma grande bagunça com a qual ninguém sabe o que fazer".

Muitos desses problemas, desde a educação e a saúde que estão aquém dos padrões equatorianos até a falta de água potável, tratamento de esgoto e fontes de energia renováveis, são narrados num fascinante centro de interpretação em Puerto Baquerizo Moreno, capital provincial da Ilha de San Cristobal.

A maioria dos turistas queimados pelo sol que passam em fila pela mostra do museu de San Cristobal não se lembrará de programas de reciclagem ou pressões populacionais quando embarcar em seu voo de volta para o continente.

Eles se lembrarão do coro gutural dos leões marinhos em Gardner Beach, e da respiração à la Darth Vader da tartaruga gigante, com seu casco do tamanho de uma máquina de lavar pratos, enquanto vagueia pelas terras nubladas da Ilha de Santa Cruz.

Eles pensarão nos pássaros fragata descendo com um zumbido para agarrar o alimento de um atobá de pés azuis com a velocidade e intensidade de um avião de guerra, e do balé aquático etéreo de uma tartaruga verde marinha, aparentemente inconsciente de seus admiradores humanos nadando alguns metros acima.

Gabriel Lopes da Fundação Charles Darwin espera que eles se lembrem de tudo.

O lugar da ilha que Darwin descreveu como "inóspito" atraiu mais peregrinos do que o pai da evolução jamais teria imaginado. E, "apesar de todas as pressões, continua razoavelmente bem preservado", diz Lopez.

"Mas", diz ele, "precisamos tratar as Ilhas Galápagos como elas são: um arquipélago frágil, com limites reais de crescimento".

Tradução: Eloise De Vylder

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