Luzes! Câmera! Viaje!

Jayne Clark
Em Chevy Chase, Maryland

Então, você quer ser um jornalista de viagem.

Ora, quem não gostaria? Especialmente quando ao final de uma jornada de trabalho de 12 horas, você recebe um grande agradecimento de seu chefe na forma de um aviso de demissão. E então, a caminho de casa, você está na traseira de um engavetamento envolvendo quatro carros, que matou seus peixes de briga siameses japoneses. E logo depois, você rompe com seu noivo e se vê dormindo nos sofás de amigos.

Dado o resumo sombrio de seu passado recente, por que Sarah Dixon, 27 anos, uma ex-técnica audiovisual, não ia querer transformar seu amor por viagens em um dinheiro extra?

O argumento irresistível é o que atraiu Dixon e muitos de seus 29 colegas de classe para uma sala de conferência no quinto andar na sede do Travel Channel, no subúrbio de Washington. Eles desembolsaram entre US$ 2 mil e US$ 2.500, mais despesas de viagem e estadia, para frequentar a Travel Channel Academy, rotulada como um acampamento de treinamento de quatro dias em filmagem digital para aspirantes a jornalistas de viagem.

Em uma era em que a mídia tradicional (e os profissionais que trabalham nela) está encolhendo, uma cacofonia está reverberando do ciberespaço, onde teoricamente "qualquer um" pode ser um jornalista de viagem. Ao mesmo tempo, uma revolução está ocorrendo no mundo do vídeo, graças a equipamento fácil de usar, de custo relativamente baixo, que permite a indivíduos produzir e editar seus próprios vídeos. Apenas no YouTube, 13 horas de vídeo são carregadas a "cada minuto".

O problema é que a maioria é "inútil e inassistível", disse o presidente do Travel Channel, Patrick Younge, aos alunos no primeiro dia. E assim, com o apetite insaciável da nova mídia por conteúdo, a emissora lançou seu curso de vídeo, em parte, para ajudar a moldar um exército de colaboradores. Ela os chama de "predadores" - uma forma abreviada para produtor/editor.

O que não implica que qualquer um aqui provavelmente se transformará no próximo Anthony Bourdain, Andrew Zimmern ou Samantha Brown, o trio de astros da programação do Travel Channel. Em uma prova do crescente déficit de atenção no universo YouTube/Twitter, a emissora está interessada em vídeos de viagem de um a três minutos de duração para distribuição em seu site e plataformas móveis. Este curso intensivo oferece instruções técnicas e de narrativa, além de fornecer aos formandos acesso especial a futuras ofertas de trabalho e constante ajuda dos funcionários.

"Nós estamos tentando criar um lar para vídeos de viagem de qualidade com um ponto de vista", disse Younge.

Mas se mais vídeos de universitários em férias se embebedando em Cancún ou turistas comendo carne defumada em pão de centeio em uma lanchonete de Nova York, ou mesmo um resumo de dois minutos da "minha viagem à Costa Rica por terra e mar" (um atual sucesso no site feito por um aluno formado na academia do Travel Channel), traz mais clareza ou apenas mais ruído, é assunto para debate.

"Nós não estamos fazendo jornalismo investigativo. Nós estamos fazendo um jornalismo 'me mostre o melhor restaurante na sua cidade'", disse o fundador do curso, Michael Rosenblum.

O curso foi concebido por Rosenblum, um produtor de televisão veterano, e sua esposa, Losa Lambden, uma ex-jornalista da "BBC", em parceria com o Travel Channel. Rosenblum é um nova-iorquino piadista que usa óculos escuros Gucci e anda pela sala fuzilando seus alunos com uma fala rápida pontuada pela palavra f., alternadamente colhendo elogios e humilhação bem-humorada. Às vezes ele os chama de "Babe".

"Você não pode esperar colocar online uma porcaria do YouTube e esperar que tenha repercussão", disse Rosenblum em sua introdução. "Você está entrando em uma indústria implacável."

Mais precisamente, eles "gostariam" de "entrar nesta indústria implacável. Cerca de 80% das mãos foram levantadas quando perguntados sobre se tinham a intenção de vender seus vídeos. Lori Rothschild Ansaldi do Travel Channel diz para a classe que está à procura de vídeos de destino curtos e de utilidade. Ela passa cerca de 25 horas por semana peneirando os vídeos submetidos. Dos 953 alunos que se formaram desde o início do curso há dois anos, cerca de 350 de seus vídeos foram comprados pelo Travel Channel, a grande maioria para seu site. Estranhamente, ninguém pergunta quanto a emissora paga pelos vídeos. (Entre US$ 50 e US$ 2 mil, dependendo do uso e qualidade.)

"Pessoas trabalharão de graça", disse Rosenblum posteriormente. "É um negócio confuso."

Os alunos vêm de uma ampla faixa demográfica. Eles variam em experiência de Vincent Santo, um fotógrafo da "CNN", a Violeta Balan, uma advogada de Washington que ergueu sua câmera de vídeo alugada no primeiro dia e perguntou: "Onde é o botão que começa e para a gravação?" Há um ex-assessor do Senado, um engenheiro federal de segurança de minas, uma voluntária do Peace Corps a caminho da Bulgária, uma médica residente, algumas pessoas de tecnologia da informação, um casal de pilotos de companhia aérea e um chef privado.

Não são poucos os desempregados no momento.

"Ser demitido é um excelente motivo para viajar", disse Lambden. "Nós temos pessoas aqui que estão em uma encruzilhada em suas vidas, pessoas querendo mudar."

De fato, algumas tratam isto como uma base para o Plano B. Balan acabou de receber uma mensagem de texto sobre demissões em sua firma, e apesar de acreditar que seu emprego está garantido, não faz mal aprender algo novo. Ainda assim, ela sabe que as chances são pequenas de que conseguirá vender seu trabalho. "O conceito é incrível e eles têm algumas histórias de sucesso, mas eu acho que são a exceção, não a regra", ela disse.

Outros, como Tom Matta, recém-demitido de seu emprego em energia alternativa em Pittsburgh, planeja dirigir pelo país competindo em triatlos -e filmando. O piloto da Delta Airlines, John Roberts, cuja senioridade lhe dá boas rotas internacionais, simplesmente deseja fazer vídeos decentes em locais exóticos.

E há Dixon, que disse: "Eu estou apenas à procura de uma oportunidade. Eu acho que é o que isto é".

Rosenblum apontou que apenas 25% dos estudantes de fato exploram os contatos com o Travel Channel feitos por meio do curso, mas insistiu que "o apetite pelo conteúdo de vídeo é ilimitado. É um mercado explosivo. Qualquer um pode participar e há uma certa honestidade e pureza nisso."

Também há uma boa dose de tédio, a julgar pelo primeiro dia dos estudantes de esforços na realização de vídeos.

Rosenblum é divertidamente direto em suas críticas aos trabalhos. "O que você filmou parece feito por um autista!" ele disse, ao assistir um vídeo gravado de uma oficina de bicicletas.

Para o estudante que gravou em uma padaria: "Oh, você nos deu um pão sendo feito em tempo real. Se lançarem um canal do pão, você será ótimo".

Ao final do 4º dia, quando é hora de assistir ao segundo e último vídeo dos alunos, os esforços melhoram. Ou talvez Rosenblum é que tenha amolecido.

"Nada mau", ele diz com aprovação após assistir a um vídeo de um minuto de Santo sobre um haras suburbano.

Roberts, que fez um vídeo esperto sobre sua própria participação no curso, espia para a câmera ao final e se dirige a Rosenblum: "Bem, Mikey, Babe, é isso. O que você acha?"

"Fantástico!" respondeu Rosenblum.

O vídeo de Dixon sobre vendedores de hortifrutis em um mercado de Washington recebe um "bom trabalho" do instrutor e um suspiro de alívio dela.

Em uma classe típica de 40 alunos, talvez 10 produzirão um vídeo realmente bom, disse Rosenblum.

Algo realmente memorável nesta aqui?

Ele pensa por um momento e diz: "Não, realmente não".

Tradução: George El Khouri Andolfato

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