Condoleezza Rice está feliz por estar quase fora da cena política

Jarret Bell Em Dana Point, Califórnia

Condoleezza Rice não sente saudades do seu antigo emprego.

A ex-secretária de Estado dos EUA não começa mais os seus dias com relatórios de segurança sobre ameaças terroristas. Acabou a ansiedade que tinha ao abrir o jornal pela manhã.

"É bom não ter mais aquele frio no estômago quando vou até a porta da frente", disse Rice durante uma entrevista para o "USA Today". "Eu adorava representar esse país, mas oito anos é muito tempo."

Ron Sachs/AP 
Condoleezza Rice conversa com alunos em escola em Washington, no último domingo (3)

Rice, 54, voltou para Stanford como associada sênior do Hoover Institute, um centro de pesquisas sobre políticas públicas que promove estudos sobre política e economia. Mas ela não saiu de cena completamente.

Na semana passada, ela defendeu as políticas da administração George W. Bush ao dizer aos estudantes de Stanford que "nós não torturamos ninguém" e que a tortura com a "tábua de água" [em que o prisioneiro era preso a uma tábua e água era jogada sobre o seu rosto] era legal, segura e necessária. E não se esquivou de fazer comparações com o novo governo.

Ela diz concordar com a estratégia do presidente Obama de aumentar o número de tropas no Afeganistão. Quando questionada durante a sessão com os dirigentes da NFL (Liga Nacional de Futebol Americano) no final de março sobre qual região representaria a maior ameaça à segurança norte-americana, Rice disse que "ela vem em três sabores". Ela coloca o México na categoria de uma possível ameaça ao país, além do Iraque/Oriente Médio e do Paquistão/Afeganistão.

"Este está se tornando um lugar muito perigoso", disse.

Ela acredita que é necessário ficar de olho na Rússia depois de ela "ter seguido o caminho errado" com a invasão da Geórgia, a tentativa de interferir nas eleições ucranianas e a repressão de opositores políticos e a imprensa.

"Não é a União Soviética", disse Rice. "Mas não é a sociedade aberta que esperávamos que seria."

Na guerra contra o terrorismo, Rice é uma defensora fiel das políticas do presidente Bush.

"Eu espero que as pessoas acreditem que eu amo o meu país e que eu fiz o melhor que eu pude em circunstâncias difíceis", diz. "Nós não fomos sempre bem sucedidos, mas nós fizemos do país um lugar melhor e mais seguro. Eu agradeço que não tenha havido outro ataque ao território americano nos anos em que estivemos lá. E vou dizer, depois do que nos aconteceu no 11 de setembro, todos os dias foram 12 de setembro. Eu temia todos os dias que outro ataque poderia acontecer.

"Eu reconheço que você nunca poderá trazer de volta as pessoas que perderam suas vidas - seja no 11 de setembro ou nas guerras que se seguiram. Mas eu vejo a história como um grande arco. Ao longo do tempo, as decisões difíceis se mostram as mais fundamentais, as mais corretas para chegar a melhores circunstâncias mais adiante."

Rice diz que ela vai de esclarecer seus anos em Washington em um livro de memórias que deverá sair em 2011 como parte de um acordo para lançar três livros pela Crown Publishers. "Agora", diz, "é difícil lembrar o que aconteceu em 2005, em 2006. Eu me confundo. Então eu tenho que resolver isso."

"Mas eu não pretendo apenas defender o que fiz. Aqueles foram tempos com muitas consequências, confusos, muito difíceis. Tempos polêmicos.
Nós fizemos várias coisas bem. Eu tenho certeza de que há várias coisas que poderíamos ter feito melhor. Eu tentarei ser o mais precisa possível, o tanto quanto uma participante pode ser."

Segundo ela, o processo de tomada de decisão na Casa Branca foi mal interpretado

"Você não tem como saber quão difíceis são as decisões, às vezes elas são baseadas em poucas informações confiáveis", diz. "Você não tem a opção de não fazer alguma coisa. E você pensa que você não tem como saber disso a menos que você tenha estado naquela posição."

E agora? Durante anos, Rice teve interesse pela administração esportiva, especialmente pela NFL. Ela nunca perdeu uma abertura do Super Bowl e certa vez disse que o posto de dirigente da NFL era o "emprego dos seus sonhos".

Não é de surpreender que Roger Goodell tenha feito uma piada quando chamou Rice ao palco há algumas semanas: "Essa é a primeira vez que apresento alguém que quer o meu emprego... às pessoas que me contrataram."

Depois de ser ovacionada de pé três vezes, Rice declarou: "É verdade, quando eu falava com os russos, os iranianos e os venezuelanos, o seu emprego parecia uma boa ideia."

Por enquanto ela está apenas namorando os esportes. Quando seu nome circulou em fevereiro como candidata ao posto agora já preenchido de presidente da Conferência do Pacífico, Rice não demonstrou interesse.

Rice é uma educadora nata, assim como seus pais, John e Angelena, já falecidos. Seu pai, um pastor, foi conselheiro escolar e administrador de uma universidade; Angelena era professora primária. Rice começou como professora associada em Stanford e foi reitora da universidade nos anos 1990.

Os dois outros livros de Rice, incluindo um livro para adolescentes, serão memórias sobre os seus pais.

"Eles eram pessoas simples em vários sentidos", conta, "mas eles eram extremamente apaixonados por educação e passaram isso para mim."

Rice diz que educação é sua maior preocupação, especialmente daqueles em condições socioeconômicas menos favoráveis.

"Se eles não conseguem ler na terceira série, eles nunca serão capazes de ler. Eu pretendo me envolver ativamente com isso", afirma ela.

Rice está se envolvendo cada vez mais em seu papel nos programas de educação continuada e de cursos de verão do centro para as novas gerações na região carente de East Palo Alto que ela fundou durante sua fase anterior em Stanford.

A empresária bilionária Sheila Johnson disse que Rice também falou em abrir duas escolas para meninas. Johnson, que se tornou próxima de Rice por causa do envolvimento mútuo em uma organização que trata de questões femininas, apoia a ideia.

"Sentimos que precisamos atingir as jovens e quebrar aquela barreira", diz.

Rice quer mais história.

"Meu avô fundou igrejas e escolas em Alabama, Mississippi e Louisiana", conta Rice. "E meus pais eram educadores evangélicos. Então estou tentando dar continuidade a esse legado."

Tradução: Eloise De Vylder

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