Recessão nos Estados Unidos redefine aposentadoria dos baby boomers

Christine Dugas

Eles cresceram durante uma época de mudança cultural, e agora estão sendo obrigados a redefinir a aposentadoria na meia idade.

Os 77 milhões de norte-americanos que fazem parte da geração do Baby Boom (período de intenso crescimento demográfico nos Estados Unidos, entre 1946 e 1964) enfrentam uma tempestade econômica. Este grupo etário foi o que teve as reservas para a aposentadoria mais atingidas pela crise. Após perderem os empregos durante uma fase que eles acreditavam ser o ápice dos seus anos como assalariados, muitos estão encontrando dificuldades para retornar à força de trabalho. Os custos dos planos de saúde estão aumentando, e a queda do valor de suas casas significa que eles poderão não ser capazes de contar com a parcela amortizada da dívida da casa própria para garantir uma aposentadoria tranquila.

"Essa geração terá as expectativas contidas por essa experiência", afirma John Coyne, presidente da Brinker Capital, uma firma de gerenciamento de investimentos. "Pode ser que eles não tenham a mesma visão extravagante de aposentadoria que tinham em julho do ano passado".

A convergência de fatos tem um impacto ainda maior sobre um subgrupo de baby boomers conhecido como a Geração Sanduíche. Esses indivíduos estão gastando dinheiro com a educação superior dos filhos e os cuidados com os pais idosos, bem como com a poupança para as suas próprias aposentadorias.

Mas eles estão começando a entender a nova realidade. Os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964, estão planejando trabalhar por mais tempo, poupar mais dinheiro e gastar menos, a fim alcançarem algo que lembre a aposentadoria que antigamente tinham em mente. Segundo a Associação Americana de Pessoas Aposentadas (AARP, na sigla em inglês):

  • 35% dos indivíduos que têm de 45 a 54 anos de idade pararam de investir dinheiro em contas de aposentadoria como a 401(k), IRA ou outras.
  • 25% disseram ter sacado prematuramente fundos das suas contas para aposentadoria.
  • 56% adiaram uma grande compra.
  • 24% adiaram os planos de aposentadoria.

    "Atualmente eu me vejo trabalhando até cair morta", diz Kyril Wickenberg, 59, de Savannah, no Estado da Geórgia.

    A dor do desemprego

    Mas isso pode não ser tão fácil.

    Quando 1.097 norte-americanos com mais de 44 anos de idade foram entrevistados em dezembro do ano passado, 9% deles disseram que perderam o emprego nos últimos 12 meses, e 31% dos trabalhadores daquela faixa etária afirmaram que é bem provável que os seus empregos sejam eliminados neste ano, segundo o relatório de 2009 da AARP.

    Os baby boomers também estão desempregados durante mais tempo do que os norte-americanos mais jovens. No ano passado, eles encontravam-se em média 22 semanas sem trabalhar. Já no caso dos indivíduos da faixa etária de 20 a 24 anos de idade esta média era de 15 semanas, segundo o Birô de Estatísticas de Trabalho dos Estados Unidos.

    Eles podem encontrar maior dificuldade para obter um novo emprego porque tinham salários mais altos. E isso significa também que eles podem relutar mais em aceitar um outro emprego, afirma Maria Heidkamp, gerente de projetos do centro John J. Heldrich para Desenvolvimento da Força de Trabalho, da Universidade Rutgers.

    Mas ela afirma que é também possível que eles estejam "enferrujados" na hora de candidatarem-se a empregos, ou as suas qualificações podem estar desatualizadas.

    Wickenberg está desempregado. Ele diz que perdeu vários empregos na área de tecnologia da informação porque os seus patrões acharam que o seu trabalho poderia ser realizado de forma mais barata fora dos Estados Unidos. Finalmente, os seus períodos de desemprego aumentaram porque as companhias parecem preferir jovens recém-saídos das faculdades.

    "Fiquei deprimido e ansioso", conta Wickenberg. "Simplesmente vi o meu dinheiro acabar gradualmente".

    Em 2005, ele aceitou um emprego em uma firma de aluguel de automóveis ganhando o salário mínimo, o que lhe permitiu pagar as contas sem ter que retirar dinheiro da poupança de aposentadoria. Três anos depois ele perdeu aquele emprego.

    Ele voltou à faculdade para obter um diploma em tecnologia da informação. Wickenberg espera que o curso de quatro anos, aliado à experiência de 35 anos na área, lhe confira uma vantagem em relação aos recém-graduados mais jovens.

    Até mesmo aqueles trabalhadores que acreditavam ter feito um plano perfeito e poupado o suficiente para a aposentadoria estão mudando de perspectiva.

    "Eu achei que estaria trabalhando no meu emprego corporativo até os 67 anos", diz Albert Feliu, 48, que mora em Lilburn, na Geórgia, com a mulher e dois filhos. Ele possui um plano de aposentadoria, e optou por pagar a contribuição máxima no seu plano 401(k).

    "Antes desse caos financeiro, eu estava em uma rota muito boa", afirma Feliu. "Eu poupei dinheiro e vivia com o que ganhava. Eu era o garoto propaganda para aquilo que um norte-americano de meia-idade deveria estar fazendo".

    Em dezembro do ano passado, ele foi despedido do emprego de gerente de projetos da AT&T. A sua mulher continua trabalhando em regime de tempo integral, mas ela reduziu a sua contribuição para o plano de aposentadoria 401(k). A filha deles está terminando o segundo grau, e o preço da faculdade é uma grande preocupação.

    Feliu está preocupado com a sua carreira. Ele está dando aulas online para a Escola Keller de Pós-graduação em Administração da Universidade DeVry.

    "Estou trabalhando apenas para ser capaz de pagar as minhas despesas de saúde recorrendo aos dólares que ganho, sem ter que mexer na minha poupança de aposentadoria", diz ele. "Neste momento, o meu espírito é o de uma pessoa que se prepara para situações ainda piores".


    Mudança na administração do dinheiro

    Os baby boomers de classe média contam com poucas opções para ampliarem as suas metas de aposentadoria. Caso mantenham o atual padrão de vida sem reduzir os custos, três em cada cinco deles esgotarão todos os ativos financeiros em plena aposentadoria, segundo um novo relatório da coalizão Americanos por uma Aposentadoria Segura, que possui mais de 40 organizações.

    "Espero que o objetivo básico seja fazer com que as pessoas retornem à realidade", diz Harold Evensky, planejador financeiro em Coral Gables, Flórida. "As pessoas não estão vivendo com nenhuma fonte de renda extraordinária, e elas não podem mais usar as suas casas como caixas eletrônicos. E não podem também comprar uma nova geladeira simplesmente porque desejam, e não porque precisam".

    Barbara Gaillard, 52, que mora em Seattle, e o marido, Alex, 51, cancelaram o título do clube de saúde, reduziram as suas contribuições filantrópicas e passaram a pegar livros emprestados na biblioteca, em vez de comprá-los.

    "Hoje em dia nós dificilmente saímos para comer fora", diz ela. "Temos nos empenhado em minimizar os gastos".

    Um número cada vez maior de baby boomers está procurando ajuda junto a conselheiros de crédito. Somente neste grupo etário, 399.217 indivíduos recorreram à Fundação Nacional de Aconselhamento de Crédito no ano passado para obter assistência. Em 2007, esse número foi de 321.710.

    "Em vez de pessoas com pouco mais de 30 anos, o que costumava ser a média, estamos sendo procurados por uma quantidade maior pessoas com pouco menos ou pouco mais do que 50 anos de idade", diz Dave Jones, presidente da Associação de Agências Independentes de Aconselhamento de Crédito ao Consumidor. "Esse aumento não tem precedentes".

    Estas pessoas estão se concentrando na mudança de estilo de vida e de expectativas de aposentadoria.

    "Os indivíduos estão fazendo uma pausa e perguntando honestamente a si mesmos, 'Quanto é suficiente?', diz Sheryl Garrett, planejadora financeira em Kansas City, Missouri. Trata-se mais de um movimento rumo a uma vida mais simples do que de uma redução temporária de gastos. "As pessoas estão assumindo controle sobre aquilo que são capazes de controlar".

    Randal Walker, 50, foi demitido do seu emprego de gerente nacional de vendas e operação de uma companhia de conserto de computadores em abril de 2008. A mulher dele, Christina, perdeu o emprego 45 dias depois. À época, eles moravam em Long Beach, onde tinham uma casa. Após ficarem desempregados por quase um ano, eles se mudaram para Glen Ellyn, no Estado de Illinois, onde os dois conseguiram novos empregos. Devido ao desaquecimento do mercado imobiliário, eles preferiram alugar a casa da Califórnia a tentar vendê-la.

    Walker acha que tem sorte por ter um emprego como gerente regional de uma empresa de produtos médicos. Mas a experiência provocou uma modificação nele.

    "Eu gasto dinheiro de maneira diferente", afirma. Atualmente ele procura comprar em estabelecimentos familiares, porque prefere ajudar essas pequenas empresas do que as grandes corporações. Ele come fora com menos frequência e aluga filmes, em vez de ir ao cinema.

    Walker diz que tinha um projeto claro de aposentadoria antes de perder o emprego. "Mas agora não sei mais o que fazer".


    Presos no aqui e no agora

    Embora a crise econômica tenha obrigado os baby boomers a repensar a aposentadoria, pode haver um resultado positivo.

    Muitos baby boomers estão tão ocupados com as suas vidas cotidianas, das contas mensais aos planos de férias, das consultas médicas aos planos para a faculdade dos filhos, que eles dificilmente pensam em seus futuros. E eles acreditam com frequência que a vida acaba quando chega a aposentadoria.

    Mas a crise financeira obrigou-os a olhar para frente. Na verdade, eles viverão muito mais e serão bem mais saudáveis do que a geração dos seus pais. E a aposentadoria poderá vir recheada de muito mais do que o jogo de golfe ou de baralho.

    "Os aposentados casam-se, mudam-se e alguns têm até filhos", diz James Richardson, um planejador financeiro de Raleigh, na Carolina do Norte. "Em muitos casos, as pessoas sentem-se mais produtivas se continuam trabalhando durante a aposentadoria. Isso já era verdade antes mesmo da crise financeira".

    Christiane Neilson, 58, professora em Indialantic, na Flórida, pretendia aposentar-se aos 62 anos. Agora, ela espera trabalhar até os 65 ou 66 anos porque o seu salário está congelado há dois anos, e a sua poupança para aposentadoria sofreu uma redução drástica.

    "Temos que encarar a aposentadoria de forma diferente", diz ela. "Sempre nos dizem que se formos trabalhar durante a aposentadoria, devemos fazer aquelas coisas que gostamos. Portanto, não reclamarei. Adoro dar aulas".

    Baby boomers como Neilson podem modificar a ideia tradicional de aposentadoria. "Eles podem poderão se reinventar de forma que possam fazer algo de produtivo e ainda receber um salário", diz Garrett.

    Tradução: UOL
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