A geração da recessão: crise obriga jovens a reordenar os valores

Sharon Jayson

Aos 26 anos, Ângela Trilli não acha que é uma dos chamados "materialistas do milênio" - jovens absorvidos em si mesmos e no consumo.

Ela diz que está mais para poupadora do que para gastadora. Diferentemente de colegas que não tinham muito a perder nesta crise, ela perdeu US$ 15.000 - cerca de metade da poupança que juntou desde a infância.

"É um mundo muito inseguro", diz Trilli, de Kendall Park, Nova Jersey, que trabalha em marketing para uma organização sem fins lucrativos. "Abalou um pouco o sistema. Você acha que as coisas estão indo de certa maneira, mas não pode esperar que as coisas serão sempre iguais."

  • AP/Ahn Young-joon

    Jovem funcionária da Bolsa de Valores de Seul durante pregão, na Coreia do Sul

A geração do milênio, ou geração Y, envolve pessoas em idade escolar até 29 anos. O que têm em comum é o conhecimento que a recessão, de alguma forma, destruiu o mundo que achavam que conheciam. Historiadores, economistas e psicólogos dizem que, dependendo de quanto tempo durar a recessão, esta poderá formatar valores e atitudes da mesma forma que a Depressão formatou o comportamento dos que cresceram nos anos 30.

"Chamo de final da Disney World", diz Michael bradley, psicólogo de adolescentes em um subúrbio da Filadélfia. Agora, os jovens estão reordenando seus valores.

"É a versão deles do sonho americano", diz ele. "Falam mais sobre autonomia e liberdade; em não serem escravizados por objetivos materiais como acreditam que seus pais foram. Falam sobre a felicidade não ser tão baseada em sucesso econômico ou conquistas."

Apesar de muitas pesquisas terem tentado avaliar o efeito da economia sobre os americanos, poucas se concentraram na geração Y. Mas uma pesquisa em fevereiro da agência de propaganda e marketing de Nova York JWT concentrou-se no efeito da recessão neste grupo.

A pesquisa entrevistou 1.065 americanos com 18 anos ou mais, inclusive 243 de 18 a 29. Ela sugere que 60% sentem que sua geração está sendo injustamente prejudicada pela recessão. Outros, contudo, vêem oportunidades. Por exemplo, 44% dizem que, agora que os preços mergulharam, talvez possam comprar uma casa; 25% dizem que se tiverem dificuldades em encontrar um emprego vão abrir seu próprio negócio.

Jovens e frugais
As virtudes da vida simples que estão na moda são valorizadas pelos filhos do milênio, descritos como mais conscientes social e ambientalmente e mais exigentes como consumidores do que gerações anteriores, segundo John Zogby.

"Não vou tanto às compras, apesar de gostar", diz Gabriella Ring, 16, de Oak Park, Michigan. "Vou quando há liquidação e quando realmente preciso de alguma coisa. Costumava querer ir o tempo todo."

Especialistas não sabem se esse comportamento vai continuar quando a economia melhorar, mas concordam que estes são anos formadores.

"Esta é uma idade em que muitos comportamentos são estabelecidos. O longo prazo ainda está em questão, mas poderá ter grande impacto e mudar as opiniões que terão em suas vidas", diz o economista Richard Curtin, diretor de pesquisas de consumidor da Universidade de Michigan em Ann Arbor. "Eles vão ser mais orientados para segurança financeira e relacionamentos, para a poupança e menos para o consumo."

James Burroughs, professor de comércio que estuda a cultura do consumo na Universidade de Virginia em Charlottesville, diz que viu uma mudança no comportamento dos estudantes em suas aulas desde o início da crise.

"Houve uma mudança psicológica, além da redução do consumo", diz ele. "Não é necessariamente que não vão gastar, mas estão tendo mais cuidado."

Anthony Durr, 21, de Columbus, Ohio, diz que a recessão influenciou como ele vê o dinheiro, especialmente porque suas avós, ambas criadas durante a Depressão, estão pregando cautela.

"A geração delas se preocupava em economizar. Entendia o valor de cada dólar. Eu gostaria de acreditar que minha geração chegará a este ponto. Mesmo que você tenha muito sucesso, há sempre uma chance de perder o emprego, e aí faz o que?", diz Durr, que estuda na Universidade Case Western Reserve em Cleveland.

Reduzindo expectativas
Muitos jovens já estão tendo uma visão de seu futuro, e não é necessariamente o que tinham em mente antes da economia afundar.

"Acho apenas que vamos ter de nos acostumar a viver com um pouco menos luxo do que fomos criados. Vamos ter que entender que precisamos aceitar menos do que nossos pais tinham quando entraram no mercado de trabalho", diz Dan Appel, 21, aluno de psicologia em Blue Bell, Pensilvânia.

"Na minha forma de ver, não sei se nossa geração precisa de tanto", diz Trilli. Ela observa que, quando era criança, morava com seus pais em uma casa de quatro quartos. Agora ela divide uma casa modesta de três quartos com seu noivo, Nick Kapalski, 28. "Acho que vivemos dentro dos nossos meios."

Francesca Saracino, 19, de Grosse Pointe Woods, Michigan, diz que a economia parece estar estabelecendo o curso da vida dela. Não apenas seu pai foi demitido em maio depois de ter o salário cortado em novembro, mas ela teve que adiar planos de se transferir para a Universidade Estadual de Michigan. Está morando na casa dos pais e estudando na Universidade Estadual de Wayne em Detroit. E não tem certeza de qual será sua especialidade porque está preocupada em quais carreiras terão empregos.

"A recessão tem muito impacto no meu futuro", diz ela.

Laurisa Rodrigues, 18, também acredita que a recessão terá efeitos de longo prazo em seu futuro financeiro. Ela acaba de terminar a escola em Pueblo, Colorado, e vai ser caloura da Universidade de Puget Sound em Tacoma, Washington, no outono.

"Muitos de nós vimos nossos pais vivendo de salário em salário e não queremos isso para nós", diz ela. "Nossa geração está aprendendo, mas não acho que estamos aprendendo tão rápido quanto deveríamos. Quando conseguirmos nossos empregos e nos estabelecermos, sei que vou ser mais econômica com meu dinheiro, para não ter que viver de salário em salário."

Apesar dos especialistas considerarem a geração Y em geral otimista, a economia em crise tornou muitos mais cínicos, com menos confiança na forma tradicional de poupança.

"Acho que a minha geração se sente bem menos segura financeiramente. Sinto que preciso ser mais criativo e prestar mais atenção em como administro meu dinheiro", diz Mike Woodward, 23, de Fredericksburg, Virginia.

"Quando era adolescente, achava que se você tivesse um emprego e um plano de aposentadoria e economizasse um pouco, estaria bem. Assim pensavam muitas pessoas da minha idade, ao observar os pais delas. Mas agora... tenho que ter uma forma diferente de fazer as coisas."

Mudança de direção
Woodward, que se graduou em bioengenharia em 2008 na Universidade de Stanford em Palo Alto, Califórnia, está morando com os pais e preparando para iniciar uma organização sem fins lucrativos no verão para treinar os sem teto, desempregados e delinquentes para que ajudem a reconstruir Nova Orleans. Ele planejava cursar medicina, mas a recessão aumentou seu interesse na economia.

"Acho que as pessoas vão ter que mudar de planos -não necessariamente de própria vontade. Não posso ter o que eu queria, então vou me acomodar", diz ele. "Entretanto, acho que isso gera criatividade. Vamos ter pessoas que vão aproveitar a ocasião para buscar soluções criativas."

Apesar de emergirem mais empresários em uma economia ruim, o psicólogo Bradley diz que pode haver repercussões emocionais, particularmente entre os mais jovens desta geração, se a crise durar mais do que dois anos e o impacto for mais severo.

"Uma criança que de fato perde sua casa vai ficar traumatizada muito mais do que um vizinho que assiste a cena. É uma resposta de medo que pode levar à uma reação como da era da Depressão -talvez sejam mais orientados à sobrevivência."

As incertezas econômicas podem gerar maior materialismo, de acordo com uma pesquisa do psicólogo Tim Kasser de Galesburg, Illinois, publicada no ano passado na revista "Motivation and Emotion".

"A maior parte das pessoas quando passa por uma recessão econômica pode se tornar mais frugal", diz ele, mas elas "respondem a momentos de insegurança psicológica tornando-se mais materialistas".

Uma parte menor da pesquisa "sugere que, durante tempos de insegurança e trauma, há uma oportunidade de mudar valores. Se usarem o trauma como forma de reavaliarem suas vidas, para pensar no que realmente é importante, há evidências que as pessoas vão dar menos importância ao dinheiro e às posses do que antes."

Historiadores observam que a economia se tornou mais dependente do consumo depois da Depressão e da Segunda Guerra e alimentou a crença que cada geração teria uma financeiramente melhor do que a anterior -algo que a maior parte dos especialistas não acha provável para os filhos do milênio. Lizabeth Cohen, professora de história da Universidade de Harvard está entre os que esperam para ver se vai haver mudança de valores.

Jim Cullen, autor do livro "The American Dream: A Short History of an Idea That Shaped a Nation", (Um sonho americano: uma curta história de uma ideia que formatou uma nação) de 2003, diz que espera mudanças de atitude de longo prazo, provocadas pelo que ele chama de "mudanças estruturais na economia global".

"Os empregos serão menos seguros. Nossa forma de vida vai se tornar mais cara. Vamos pagar mais por coisas que sempre tivemos", diz ele.

"Vamos ver uma recuperação, mas de alguma forma, acho que o trabalho duro de mudar os valores mal começou. Não acho que as pessoas têm a menor ideia sobre o que realmente terão que fazer."

Trilli, contudo, como muitos outros, não desistiu do seu sonho: "Quero ter meu próprio restaurante um dia e acho que ainda posso."

Tradução: Deborah Weinberg

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