Narcotráfico aumenta na "Costa da Cocaína" mexicana

Chris Hawley
Em Salina Cruz (México)

"Quem sabe o que é bom para si mantém distância de certos locais depois do por do sol nas praias da costa do sul do México", adverte o pescador Teodoro Contreras.

Da cidade turística de Acapulco até a fronteira com a Guatemala, esta região tornou-se a "Costa da Cocaína" do México, o principal destino de lanchas velozes, aviões e até submarinos carregados de drogas que estão deslocando-se para o Oceano Pacífico a fim de evitar as patrulhas cada vez mais intensas no Mar do Caribe.

"Lá há barcos, caminhões e pessoas que fazem coisas que não deveriam estar fazendo", diz Contreras, apontando para o contorno curvo do litoral. "Certas pessoas desembarcam na praia e seguem em veículos sabe-se lá para onde. À noite cada um preocupa-se somente com a sua vida".

O aumento da movimentação na rota do Pacífico demonstra como os traficantes continuam evadindo a ação polícia e adaptando-se, ainda que o governo mexicano tenha investido recursos na repressão aos maiores cartéis de drogas.

Mais de 10 mil pessoas morreram na violência vinculada ao narcotráfico desde que o presidente Felipe Calderon lançou a sua ofensiva no final de 2006. O tráfico espalhou-se para algumas cidades turísticas, provocando tiroteios em Acapulco e o surgimento de "narco-panfletos". Mensagens ameaçadoras apareceram em Huatulco.

A violência não tem como alvo os turistas, e nenhum deles foi morto ou ferido.

Quase 70% das remessas de cocaína para os Estados Unidos foram feitas através do leste do Pacífico em 2007, contra 50% em 2005, segundo o Centro Nacional de Inteligência Antidrogas dos Estados Unidos.

"A maior parte da cocaína está sendo transportada agora pelo lado do Pacífico, de forma que aquela região tornou-se um ponto de atração para todos os tipos de grupos criminosos", afirma Carlos Antonio Flores, do Centro de Pesquisa Econômica, Administrativa e Social, um instituto de pesquisas com sede na Cidade do México.

A mudança resultou em apreensões em barcos na faixa de 480 quilômetros de extensão entre Acapulco e o Istmo de Tehuantepec. Em julho do ano passado, a marinha mexicana apreendeu uma embarcação submersível com 5,8 toneladas de cocaína quando ela se aproximava da costa do Estado de Oaxaca. Em janeiro deste ano, foi apreendido um barco pesqueiro que tinha sete toneladas de cocaína a bordo.

Em 7 de junho, 16 traficantes de drogas e dois soldados morreram em um tiroteio em Acapulco. O exército mexicano acredita que os traficantes dirigiam operações de narcotráfico ao longo da costa para o Cartel Sinaloa, segundo o porta-voz do exército, Daniel Velasco Ramirez.

A polícia está capturando mais membros do rival Cartel Gulf, incluindo os pistoleiros de elite conhecidos como Zetas, afirma o comissário da polícia federal, Facundo Rosas.

Na semana passada, agentes federais prenderam mais três suspeitos de integrarem os Zetas e libertaram um empresário que foi sequestrado na cidade de Juchitán, segundo informou o escritório do procurador-geral do México.

"Embora eles inicialmente fossem encontrados principalmente ao longo da fronteira norte do México, agora os Zetas estão atuando no sul do país", alertou um estudo do Serviço de Pesquisas Congressuais dos Estados Unidos, divulgado no ano passado.

Postos militares de identificação e caminhões da marinha cheios de soldados fortemente armados são uma imagem comum ao longo da costa no Istmo de Tehuantepec.

Em determinada tarde, os veículos tinham que passar lentamente por uma máquina de raios-x montada na Autoestrada 190, próximo de Juchitan.

A alguns quilômetros dali, agentes da imigração mexicana revistavam ônibus que seguiam para o norte, procurando migrantes oriundos da América Central e portadores de drogas. Em outra barreira militar, os soldados questionavam os motoristas a respeito dos seus destinos e usavam espelhos com longos cabos para examinar a parte inferior dos veículos.

Flores diz que parte da mudança de rotas deve-se à modificações na produção. O cultivo de folhas de coca na Colômbia, o maior produtor do mundo, deslocou-se para uma região mais próxima do Pacífico nos últimos anos, segundo o Departamento de Drogas e Crimes das Nações Unidas.

De acordo com Scott Stewart, vice-presidente da Stratfor, uma empresa de consultoria especializada em inteligência global, com sede em Austin, no Estado do Texas, o maior patrulhamento nos países caribenhos, a cobertura mais ampla por radar e a maior cooperação com os Estados Unidos fizeram com que ficasse mais difícil transportar drogas pelo Mar do Caribe e o Golfo do México.

Os traficantes adaptaram-se, e passaram a trazer as drogas para a América Central, usando a seguir aviões de pequeno porte ou lanchas rápidas para rumar velozmente para território mexicano e lançar a sua carga na água para ser posteriormente recolhida, diz Stewart.

Para ajudar a combater os traficantes, o senado mexicano tomou a medida incomum de permitir que as forças armadas do México participassem de exercícios navais com os Estados Unidos em abril e maio. O México evita exercícios militares conjuntos com os Estados Unidos desde a Guerra Mexicano-Americana de 1846 a 1848.

"Essa foi a primeira vez que permitimos isso, e foi precisamente por causa dessa ameaça", diz Felipe González, presidente do Comitê de Segurança Pública do Senado. "A nossa marinha precisa obter mais conhecimentos para que possa detectar e deter esses criminosos".

Tradução: UOL

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