Mulheres iranianas assumem papel-chave em protestos

Emily Bazar

Negar Mortazavi, que mora em Washington, D.C., mantém contato com amigos iranianos que têm protestado em Teerã. No sábado, um estudante descreveu para ela, por telefone, os embates violentos entre os manifestantes, a polícia e a militares à paisana.

"Uma cena especialmente chamou a sua atenção, e ele não pôde acreditar nos seus olhos", conta Mortazavi, 27, que veio do Irã em 2002 e que está ajudando a coordenar protestos nos Estados Unidos. " Quando a polícia chegou, ele decidiu que era hora de começar a correr. Mas ele olhou para trás e viu que algumas mulheres permaneceram lá. Elas não estavam com medo".

As mulheres iranianas têm estado na linha de frente dos protestos contra o governo, contestando os resultados oficiais da eleição de 12 de junho, na qual o presidente Mahmoud Ahmadinejad foi declarado o vencedor.

A face de uma mulher transformou-se no símbolo da oposição. A estudante de música Neda Agha Soltan, 27, foi filmada quando morria devido a um ferimento a bala. A cena chocante foi transmitida para todo o mundo, e até mesmo o presidente Obama referiu-se a ela nesta semana.

Os protestos políticos não são novidade para as mulheres iranianas. Mas, segundo alguns iranianos e especialistas no Irã, a extensão do ativismo nesta eleição não teve precedentes nos anos que se seguiram à revolução de 1979 que derrubou o xá apoiado pelos Estados Unidos e criou um regime islâmico.

Eles citam vários motivos para isso, incluindo o crescimento da população de mulheres jovens que desejam liberdades sociais, a participação de mulheres proeminentes na campanha e as promessas, feitas por candidatos da oposição, de avanços na área de direitos das mulheres.

Na última quarta-feira, a mulher do principal candidato da oposição, Mir Hossein Mousavi, continuou se manifestando. Zahra Rahnavard declarou em um dos websites do marido que os manifestantes e ativistas presos deveriam ser libertados, segundo a agência Associated Press.

Ela acrescentou que o governo não deveria agir "como se tivesse sido imposto um toque de recolher".

Rahnavard é uma acadêmica, escritora e artista que fez campanha ao lado do marido. "Ela disse que as mulheres são iguais aos homens, e que elas precisam de oportunidades para participarem", diz afirma Dokhi Fassihian, integrante da diretoria do Conselho Nacional Iraniano-Americano.

Segundo ela, a campanha de Rahnavard inspirou as mulheres a participarem ativamente e votarem.

"Talvez elas estejam mais ativas dos que os homens", diz Fassihian. "São elas que mais têm a ganhar com mudanças e com um novo governo no Irã".

Isobel Coleman, pesquisadora do Conselho de Relações Internacionais, afirma que "não está nem um pouco surpresa" com o grau de participação das mulheres iranianas. Coleman é autora do livro "Paradise Beneath Her Feet: Women and Reform in the Middle East" ("Paraíso Sob os Seus Pés: Mulheres e Reforma no Oriente Médio"), que está para ser lançado nos Estados Unidos.

As mulheres iranianas podem dirigir automóveis, votar, possuir negócios, estudar e dar aulas em faculdades e assumir cargos políticos, entre outras coisas.

Porém, elas contam com menos direitos do que os homens na lei familiar e penal, diz Coleman. As mulheres iranianas têm também que observar o código islâmico de vestimenta, mas a forma como elas seguem essas regras varia da cobertura da cabeça aos pés conhecida como "chador" a um simples lenço que cobre apenas parte dos cabelos.

"O que estamos vendo a efervescer na superfície neste momento é o peso insuportável das contradições enfrentadas pelas mulheres na sociedade iraniana", diz Coleman.

Em 2006, ativistas iranianas deram início à "Campanha de Um Milhão de Assinaturas", uma tentativa em andamento de modificar as leis discriminatórias contra as mulheres.

Ahmad Iravani, um aiatolá iraniano que leciona lei islâmica na Universidade Católica dos Estados Unidos, em Washington, diz: "As mulheres iranianas sempre estiveram na frente de todos os tipos de protestos, especialmente quando sentem, de forma correta ou não, que está havendo alguma injustiça".

Segundo Iravani, o desejo de igualdade entre os sexos aumentou à medida que antenas de televisão via satélite, a Internet e outras tecnologias possibilitaram que os iranianos acessassem o mundo exterior, especialmente em meio à grande população jovem em um país em que a idade média é de 27 anos.

Fatemeh Haghighatjoo atuou no parlamento iraniano de 2000 a 2004. Ela e as suas colegas aprovaram uma legislação que lhes permitiria participar de uma convenção internacional que pede o fim da discriminação contra as mulheres. Mas a lei foi vetada pelo poderoso Conselho de Guardiães do país, uma instituição de clérigos que não são escolhidos por eleição.

Haghighatjoo, que renunciou à sua cadeira no parlamento para protestar contra uma onda de repressão governamental que tinha como alvo os ativistas, veio para os Estados Unidos em 2005 e é pesquisadora visitante da Universidade de Massachusetts em Boston.

Ela concorda que as mulheres iranianas têm sido particularmente ativas nesta campanha, e acredita que elas foram estimuladas pelas promessas de mais igualdade entre os sexos feita por alguns candidatos. "Neste momento elas estão lutando para criar um futuro melhor para as suas filhas", diz Haghighatjoo. "Estou esperançosa".

  • Arte UOL
Tradução: UOL

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