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Steve Outing > Parem as máquinas

15/10/2001 13h29

Como a Web pode homenagear indivíduos, quando milhares morrem

Na mais recente guerra norte-americana, milhares de pessoas morreram -em aeronaves seqüestradas, nas torres do World Trade Center e no Pentágono. Provavelmente, haverá um número muito maior de mortos durante os desdobramentos do atentado, na medida em que as tropas dos Estados Unidos e de outros países aumentarem a sua ofensiva contra os terroristas e os governos que lhes dão abrigo, e também devido aos novos e inevitáveis ataques terroristas que se seguirão.

Um papel importante da mídia -como sempre foi- será o de prestar homenagem e contar a história daqueles que morreram (e que vão morrer) neste conflito. O problema é que o número de mortos já é tão alto que é difícil de se concentrar nos seres humanos mortos, enquanto indivíduos singulares. Em vez disso, a mídia tem se concentrado em estatísticas -e contado histórias singelas sobre algumas das vítimas, tentando fazer uma representação de todos os que morreram.

Mas a Internet pode apresentar uma solução -uma maneira de homenagear cada um dos mortos, sem que se perca a dimensão individual em meio à magnitude numérica da perda.

Eu pude refletir sobre a enormidade da tarefa da mídia ao ouvir uma entrevista de áudio na semana passada (na Rádio Pública Nacional), com um editor do "The New York Times" que está a cargo de fazer o necrológio das seis mil pessoas que morreram no dia 11 de setembro. O jornal está reservando diariamente um espaço de uma página inteira para os mortos, publicando pequenos resumos da história de cada uma das vítimas. No entanto, o número de mortes com o qual o jornal tem que lidar, referente apenas à tragédia do World Trade Center, significa que esse necrológio será publicado por um período de dez a doze meses. E, mesmo fazendo o trabalho em um período tão longo, eles não serão capazes de prestar maiores informações sobre as vítimas, devido às limitações de espaço.

Como a Internet poderia ser utilizada para a realização de um trabalho mais rápido e de melhor qualidade no que se refere à homenagem àqueles que perderam suas vidas, prestando um serviço às famílias das vítimas? Aqui estão algumas soluções.

Destacar cada uma das vítimas
A Internet oferece vantagens significativas comparadas à mídia impressa tradicional, em se tratando de situações como esta. Assim como os jornais podem veicular muito mais informação sobre as vítimas individuais do que o noticiário de televisão, a Internet é capaz de fornecer uma abordagem bem mais profunda do que a dos jornais.

O principal exemplo disso é o site produzido pela Legacy.com, em conjunto com vários parceiros da mídia norte-americana (em sua maioria jornais). O site de 11 de setembro da Legacy está trabalhando no sentido de criar uma lista com as biografias e um "guest book" (um registro dos acessos feitos por internautas) para cada pessoa falecida nos trágicos eventos daquele dia. Foi criado um banco de dados com o nome de dada um dos mortos no World Trade Center e no Pentágono, assim como em cada um dos quatro aviões seqüestrados.

Segundo Hayes Ferguson, chefe de operações da Legacy.com, a sua companhia deu início a esse projeto logo após os ataques. Foram criados bancos de dados com listas das vítimas das várias tragédias, que foram compiladas com as autoridades públicas. A Legacy também está reunindo os necrológios e anúncios de falecimentos, conforme eles são publicados pela mídia. Essas informações limitadas servem como biografia inicial de cada uma das vítimas.

Esse trabalho conjunto de mídia permite pelo menos que todas as vítimas sejam registradas inicialmente de uma maneira mais completa do que um simples nome em uma longa lista e, talvez, uma pequena foto.

Amigos, família ... e desconhecidos
O que eu acho ainda mais interessante é o livro de visitas do site memorial da Legacy.com. Para cada uma das pessoas listadas como vítima dos ataques terroristas, existe um link para o livro. As pessoas que conheciam a vítima -assim como desconhecidos- podem escrever comentários, que são agregados à biografia online da vítima.

Dado o grande número de pessoas mortas nos ataques de 11 de setembro, não é razoável pensar que qualquer organização da mídia -incluindo aquelas que possuem muitos recursos, como o "The New York Times"- possa realizar um trabalho adequado contando a história de cada uma das vítimas. A não ser que essas organizações se disponham a investir muito dinheiro e aumentar o tamanho das suas equipes para produzir os necrológios biográficos, a única alternativa é deixar que as famílias e as pessoas que conheciam as vítimas narrem as suas histórias.

De acordo com Ferguson, vários dos livros de visitas das vítimas estão repletos de histórias tocantes e de tributos. Os familiares contam histórias sobre as vidas das vítimas e enviam fotografias. Os amigos mandam condolências e textos de saudade. (Todo o material submetido aos livros são examinados pelos editores da Legacy, antes de serem colocados no site. Há casos em que indivíduos tentaram incluir comentários inapropriados no site).

É esse conteúdo gerado pelo usuário que muitas vezes conta as melhores histórias sobre a vida das vítimas. Um ensaio tocante escrito por um irmão, irmã, filho, viúva ou viúvo, muitas vezes informa muito mais do que qualquer trabalho feito por um repórter profissional, com base em alguns telefonemas. Por exemplo, em um comentário sobre Richard Bosco, vítima do atentado ao World Trade Center, um amigo de infância escreveu, "Tendo crescido no mesmo quarteirão, as nossas famílias eram amigas e me lembro de ter passado momentos muito divertidos na sua companhia. Eu sou três anos mais novo do que Rich, e para mim ele era um protetor. Na infância, costumávamos brincar juntos nas noites de verão".

Um fenômeno interessante no site Legacy.com tem sido o número de homenagens enviados por pessoas que não conheciam as vítimas. Freqüentemente trata-se de mensagens de condolências e conforto para as famílias, não acrescentando portanto muito às informações sobre a vida das vítimas. A Legacy inclui os comentários desses desconhecidos como parte do livro de visitas de cada vítima. Mas uma alternativa seria separar tais contribuições, deixando as memórias escritas pela família e amigos em uma área distinta.

Segundo Ferguson, a experiência vivida pela companhia tem demonstrado que as famílias têm apreciado o recebimento de palavras de consolo de desconhecidos. Se algo que desagrade à família passar pelos editores da Legacy, tais conteúdos podem ser removidos do site.

Complementando a cobertura da imprensa
Os jornais impressos deveriam considerar a possibilidade de utilizar a Internet para fazer uma cobertura mais completa das histórias de várias das vítimas. Um necrológio de um parágrafo pode não fazer justiça a uma vida perdida, portanto, há que se considerar a inclusão de uma nota dizendo aos leitores onde podem encontrar informações adicionais e comentários feitos pelos familiares na Internet.

Essa técnica se constitui em uma excelente maneira de evitar as páginas inteiras de fotos utilizadas pela mídia impressa (as chamadas "mug shots" -fotos 3X4) de múltiplas vítimas de uma tragédia.

Uma curta URL ou outro breve código deve ser incluído, de forma que os usuários da Internet possam fazer uma leitura online sobre a vida das pessoas. Trata-se de uma forma de acessar o indivíduo, evitando uma página que se concentre somente no número de mortos.

Utilizando a Internet para colher informações
Pode ser que o usuário não queira contar somente com as contribuições dos amigos e da família, portanto deve-se considerar a utilização da Internet para auxiliar na coleta de informações sobre as vítimas que poderiam ser úteis para as equipes jornalísticas em suas reportagens. Especialmente em situações como esta, em que há tantas vítimas, contar com o auxílio do público pode ser muito útil.

O "USA Today" possui um formulário para a coleta de informações sobre os mortos de 11 de setembro. Embora alguma dessa informação seja utilizada diretamente no site (após a confirmação de sua veracidade), ela se constitui em material de arquivo para os jornalistas dos jornais nacionais que estão cobrindo os ataques terroristas.

Múltiplos pontos de entrada
O melhor com relação à mídia online é a sua flexibilidade em situações como essa. Segundo Paul Grabowicz, diretor do programa de mídia noticiosa da Escola de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade da Califórnia, a Internet é um meio extraordinariamente útil para veicular informações sobre as vítimas do terrorismo de uma variedade de pontos de entrada - algo impossível de se fazer através da mídia tradicional.

Por exemplo, utilizando os bancos de dados disponíveis na Internet sobre as milhares de vítimas da guerra e do terror, um usuário poderia fazer uma busca por todas as vítimas que trabalhavam para uma companhia específica sediada no World Trade Center. Ou talvez o usuário quisesse ler sobre os bombeiros e policiais que morreram na tragédia, com detalhes sobre um destacamento específico.

Comunidades formadas em torno das mortes
No que se refere à morte de tanta gente no dia 11 de setembro, o que está acontecendo na Internet é que estão se formando comunidades. "O que pude presenciar foi um sentido comunitário que a Internet é capaz de gerar e que é acentuado em períodos de perda como esse", afirma Owen Youngman, vice-presidente de desenvolvimento do jornal "Chicago Tribune" e membro do conselho diretor da Legacy.com.

Segundo ele, não se trata de um fenômeno novo. Quando gente como o colunista Mike Royko, e o porta-voz do Chicago Cubs, Harry Carey, morreram, o mesmo aconteceu, à medida que as pessoas corriam para o site do "Chicago Tribune" a fim de enviar mensagens de condolências - criando assim uma comunidade virtual instantânea. Young lembra que, quando o arcebispo de Chicago morreu, as pessoas passaram a colocar fotos do clérigo nos sites de batismo de seus filhos.

Ele afirma que as pessoas querem compartilhar as suas memórias. Fornecer um canal para isso "é a coisa mais útil que podemos fazer". Youngman acredita que os jornais, em particular, estão em uma posição ideal para fornecer esse tipo de serviço.

Reunindo os indivíduos afetados
Ao pensar em como lidar com as milhares de mortes e com o conceito de comunidade online, é útil comparar os sites de necrológio online com aqueles sites que criaram comunidades de ex-colegas de colégio, tais como o Classmates.com. Esses sites existem para ajudar as pessoas a encontrar velhos amigos de cursos secundários ou faculdades.

Eles criam comunidades online de pessoas que se espalharam pelo país e pelo mundo.

Os sites de necrológio feitos após as tragédias terroristas podem servir a um propósito similar -permitindo a busca facilitada em banco de dados por um indivíduo que um parente distante ou um velho amigo suspeite que possa ter sido uma vítima. E comunidades de pessoas espalhadas pela nação, que conhecem alguém que realmente foi uma vítima, podem ser criadas pela tragédia -reunindo assim indivíduos que não mantinham contato entre si por anos.

Apresentação alternativa na Internet
Um outro tipo de site que possui algumas aplicações potenciais para as tragédias envolvendo mortes múltiplas é aquele que dá uma nota para o material apresentado. Sites como o AmlHot.com baseiam-se em um conceito simples: eles apresentam várias fotos de usuários, e os visitantes clicam em uma escala de 1 a 10. Cada clique de votação possibilita a visão da nota de determinada foto, e uma próxima foto para ser avaliada. Esses sites geralmente são financiados por propaganda.

Embora os sites do tipo "AmlHot" sejam banais, o conceito poderia ser aplicado na apresentação dos pacotes de biografias de várias vítimas. Aplicando a idéia a centenas de necrológios das vítimas dos ataques terroristas, pode-se possibilitar que os usuários cliquem sobre vários deles a fim de contar com uma apresentação de slides dos indivíduos mortos. Eles podem ser apresentados em ordem aleatória, de forma que, se o visitante de um site retornar a ele em um outro dia, as mesmas informações biográficas não aparecerão no início da sessão.

Embora essa possa não ser a mais brilhante idéia para lidar com as mortes múltiplas, os sites baseados em notas tem mostrado ter um potencial para conquistar os usuários. Os visitantes de um site podem descobrir que desejam informações sobre as vidas de uma vítima após a outra.

O ponto de vista da caridade
As técnicas sugeridas aqui para lidar com as várias mortes trágicas de 11 de setembro deveriam provavelmente ser abordadas sem intenções lucrativas. Tentar ganhar dinheiro com tal tragédia poderia gerar uma reação indignada dos usuários. Porém, um aspecto monetário que é aceitável refere-se à utilização dos sites de necrológio dos atentados para pedir doações destinadas a instituições de caridade. Os membros da família de uma vítima poderiam selecionar uma dessas instituições, e depois permitir que a página de necrológio da vítima trouxesse uma solicitação de doações vinculadas à imagem do falecido.

Tradução: Danilo Fonseca




 

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