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Steve Outing > Parem as máquinas

29/05/2002 12h00

Bibliotecas ameaçam arquivos pagos de notícias online

Ao longo dos anos nesta coluna critiquei algumas vezes os jornais por cobrarem caro por reportagens ou artigos obtidos em seus arquivos na web. As tendências que surgem hoje reforçam a idéia de que os artigos arquivados deveriam custar menos - ou mesmo ser oferecidos de graça ao consumidor da web, com o apoio de publicidade dirigida ou outros meios.

O instigador dessa idéia são as bibliotecas públicas, que cada vez mais oferecem livre acesso de qualquer computador doméstico aos serviços de base de dados de várias publicações a qualquer pessoa que possua um cartão de biblioteca.

Se um número maior de pessoas soubesse da oferta de bancos de dados através das bibliotecas, não haveria grande necessidade ou vontade de usar os arquivos pagos dos jornais na web. (A maioria dos arquivos de jornais, especialmente nos Estados Unidos, cobra taxas de US$ 1 a US$ 3 por artigo.)

Dinheiro dos impostos em ação

Vamos começar pelo exemplo da minha biblioteca local em Boulder, Colorado (uma cidade de menos de 100 mil habitantes). Com um cartão da biblioteca de Boulder você pode acessar oito excelentes bancos de dados, sem custo. (Dois outros são restritos ao uso nos terminais de computador localizados numa seção da biblioteca.) O mais notável entre os bancos de dados que oferecem acesso doméstico é o Newsbank, que permite pesquisar arquivos de dezenas de jornais regionais dos Estados Unidos (e de alguns jornais internacionais). Nessa versão gratuita do Newsbank você pode obter artigos do "Denver Post" e do "Rocky Mountain News".

O banco de dados Newsbank da biblioteca de Boulder tem até uma área especial de pesquisa para se encontrar matérias arquivadas (anteriores a sete dias) do jornal local, o "Boulder Daily Camera" sem custo, do seu computador em casa. (Os artigos da última semana podem ser encontrados gratuitamente no site do "Camera".)

Em comparação, vamos dar uma olhada em TheDailyCamera.com e buscar alguns artigos arquivados. O "Camera" faz parte do banco de dados de publicações NewsLibrary (de propriedade do Newsbank), por isso você pode procurar matérias antigas do "Camera" e de 41 outros jornais regionais dos Estados Unidos. A pesquisa é grátis, mas para ler qualquer artigo é preciso pagar US$ 1,95.

Houston, temos um problema

Agora, por que qualquer cidadão de Boulder gastaria US$ 1,95 por um artigo em TheDailyCamera.com quando pode encontrar a mesma coisa com a mesma facilidade através do site da Biblioteca Pública de Boulder? Por que alguém que precise obter várias matérias do banco de dados do jornal pagaria tanto dinheiro quando a alternativa é gratuita? Só porque essa pessoa ainda não sabe que existe uma opção grátis.

Gary Price, autor, consultor e especialista em biblioteconomia, explica: "Parece que quase ninguém percebeu que muitas bibliotecas públicas oferecem acesso gratuito ao texto completo de milhares de jornais, revistas, etc. ... A novidade é que elas oferecem esse serviço de graça e sem a necessidade de ir ao prédio da biblioteca. Em muitos casos as pessoas estão pagando por conteúdo (nos sites dos jornais) que já podem conseguir de graça. Afinal, são os dólares de seus impostos que pagam por isso."

Price cita várias outras bibliotecas dos Estados Unidos que têm bancos de dados igualmente ricos e de livre acesso (de casa).

  • Os possuidores de cartões da Biblioteca da Pensilvânia podem usar o programa Power Library para pesquisar artigos de jornais e outros sem sair de casa.
  • A Biblioteca Pública de Los Angeles tem uma longa lista de excelentes bancos de dados disponíveis gratuitamente em casa, incluindo um banco de dados Newsbank dos artigos arquivados do "Los Angeles Times". (O preço para pesquisar em latimes.com é US$ 2,50 por artigo, ou US$ 4,95 por um passe de um dia para o arquivo, limitado a quatro artigos.)
  • Os bancos de dados acessíveis do sistema de bibliotecas do condado de Arlington (Virgínia) incluem o ProQuest, que oferece pesquisas e download de centenas de jornais. (Os artigos arquivados no washingtonpost.com custam US$ 2,95.)

    Como indica Price, eu poderia estar sentado num Internet café em Londres, pegar meu cartão da biblioteca de Boulder e descarregar de graça artigos arquivados do "Boulder Daily Camera" ou de centenas de outras publicações. (Não é realmente grátis, é claro: meus impostos pagam pelo serviço.)

    A Internet não é ótima?

    Bem, se você é um editor de jornal e tem um arquivo pago de matérias na web, talvez não pareça tão ótima agora. Mas o que você vai fazer a respeito? Começar uma briga com sua biblioteca local e exigir que ela não ofereça acesso gratuito ao seu arquivo ou a qualquer outro jornal e revista? A repercussão de relações-públicas dessa estratégia será incômoda. Exigir que as empresas de bancos de dados (para as quais você vende seu conteúdo e recebe royalties) não distribuam seus dados para bibliotecas locais? Essa estratégia contém um risco um pouco menor de RP, mas também vai prejudicá-lo, já que você recebe royalties sempre que um membro da biblioteca local acessa seus artigos arquivados através do sistema da biblioteca.

    Não é tão ruim... ainda

    Na verdade, pelo menos por enquanto, a situação não é horrível. Enquanto as bibliotecas continuam aumentando os bancos de dados acessíveis, a maioria dos cidadãos ainda não sabe que esses serviços gratuitos existem. É um novo fenômeno o fato de você não precisar entrar numa biblioteca para acessar os bancos de dados de artigos.

    Também ainda há muitos cidadãos (embora uma minoria em muitas comunidades) que sequer possuem cartões de biblioteca - que são necessários para se acessar de casa os bancos de dados gratuitos. A média nacional dos Estados Unidos é 62% dos adultos residentes terem cartões de biblioteca, segundo um recente estudo da Associação Americana de Bibliotecas.

    E as bibliotecas não são conhecidas por suas habilidades de marketing. A editora da revista "Searcher", Barbara Quint, que é considerada uma guru em bancos de dados online e tendências de bibliotecas, oferece uma anedota que vai animar os editores que ainda oferecem arquivos pagos:

    Uma bibliotecária de uma rica comunidade americana recentemente negociou um acordo com um grande banco de dados de notícias para abrir o acesso aos usuários de computador que possuem cartão de bibliotecas, de suas casas. Ela fez uma grande promoção, chegando a pendurar uma faixa no prédio da biblioteca anunciando a nova disponibilidade do serviço gratuito. Os resultados foram decepcionantes, para dizer o mínimo. Uma análise mostrou que menos de 50 pessoas acessaram o serviço de seus computadores domésticos.

    Dada a inexperiência de marketing e a falta de verbas nas bibliotecas públicas, talvez o público não descubra que bom negócio elas oferecem. Talvez as pessoas da sua cidade continuem pagando taxas infladas por artigo nos sites dos jornais porque continuam sem saber que não precisam pagar.

    Mas acho que isso não vai acontecer. Com o tempo as pessoas vão descobrir e os arquivos pagos na web vão ter problemas - ou serão obrigados a adotar o modelo gratuito para poder competir.

    Por que você não deve combater isso

    Como indicam Quint e Price, a chave disso tudo é colocar seu conteúdo na frente do consumidor - não importa onde. No meu exemplo de Boulder, o usuário da web que paga US$ 1,95 por artigo obviamente é o cliente preferido do "Daily Camera". Mas o usuário mais esperto que sabe da opção gratuita em casa não é um prejuízo total para o jornal. O "Camera" ganha um royalty por artigo que o assinante da biblioteca obtém através da web - só que menor. (É interessante notar que ambos os cheques de royalties para o "Camera" virão do Newsbank.)

    Price cita o conhecido comportamento do consumidor do "princípio do mínimo esforço". Ele quer dizer que se alguém já está em um site de notícias e descobre certa informação importante - mesmo que seja cobrada -, é mais provável que pague a taxa do que saia procurando um lugar mais barato para encontrar a mesma coisa. É esse comportamento que talvez possibilite manter uma estratégia de arquivos pagos diante da concorrência gratuita das bibliotecas públicas. (Mas francamente não recomendo.)

    Tornar-se gratuito?

    Se você leva a sério a "ameaça" das bibliotecas, talvez a solução seja oferecer acesso grátis aos seus arquivos de notícias. (Ou pelo menos exigir um registro do usuário para ter acesso.) Existem exemplos de arquivos de livre acesso entre jornais como o "San Francisco Chronicle" e o "St. Petersburg Times" da Flórida, mas eles são minoria no setor.)

    Ron Dupont, diretor-geral do SPTimes.com, diz que seus arquivos geram "centenas de milhares de page-views por mês, e pelo menos por enquanto ele não acha que a modesta renda de cobrar por um arquivo compensaria a renda de publicidade gerada por essas page-views. Ele também teme irritar os usuários. No entanto, Dupont diz que não espera que o SPTimes.com passe a cobrar taxas por arquivos no futuro. (Seu concorrente, "The Tampa Tribune", cobra.)

    Uma última coisa a considerar é quanto um jornal pode ganhar com uma estratégia de arquivos pagos. A maioria das empresas jornalísticas hesitam em divulgar os números do rendimento dos arquivos - mas mesmo entre os grandes jornais é muito raro superar os US$ 50 mil por ano.

    Com as recentes medidas das bibliotecas públicas para permitir o acesso de casa aos grandes arquivos de jornais, eu certamente questiono a estratégia de se cobrar altas taxas por notícias arquivadas. Imaginem: um modelo já instável da indústria jornalística está tendo suas fundações abaladas por... bibliotecários.

    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves





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