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Proibir sacolas plásticas não melhora problema de gestão do lixo

Guilhermino J. M. Fechine

Guilhermino J. M. Fechine

É professor e pesquisador da Universidade Mackenzie. Possui doutorado em química pela Universidade Federal de Pernambuco, mestrado em engenharia química e graduação em engenharia de materiais

Especial para o UOL

16/11/2014 06h00

Com última decisão de um órgão especial do Tribunal de Justiça de São Paulo, a lei de 2011 que proibiu a distribuição de sacolas plásticas pelos supermercados aos consumidores foi considerada constitucional.

Assim, a sociedade está novamente diante da pergunta se as sacolas são vilãs ou não do meio ambiente. Entre os mais preocupados com o debate estão, de um lado, os que ganham com a manutenção do hábito; do outro, legisladores e o governo municipal. No meio do embate estão os consumidores, que se perguntam se realmente a proibição colabora com a diminuição da poluição ambiental.

O principal argumento é que o uso de sacolas plásticas em supermercados colabora com a poluição ambiental, uma vez que o material pode levar até duzentos anos para se deteriorar e, por isso, se acumula juntamente com o lixo doméstico, criando um problema para gerações.

A proibição da distribuição das sacolas conduz grande parte dos consumidores que as reutilizam a comprá-las para o acondicionamento do lixo, um hábito muito disseminado pela praticidade e disponibilidade do material. Nesse momento é necessário fazer uma reflexão em torno de uma decisão que pode prejudicar o consumidor, sem surtir o efeito benéfico ao meio ambiente que todos esperam. É interessante colocar outras variáveis nessa equação.

Sempre que há enchentes e alagamentos, sacolas e garrafas plásticas são as primeiras identificadas entupindo bueiros e córregos. É fácil culpá-las como sendo principais agentes que entopem os boeiros da cidade, como se a falha entre o despejo descontrolado e a eficiente coleta de lixo não fosse o problema.

Opinião - Guilhermino Fechine

  • Chegou o momento de entender que a mudança mais sustentável requer um conjunto de ações que podem não ter um efeito imediato, e cosmético, mas que nos guiará para uma solução progressiva, segura e cidadã

    Guilhermino Fechine, professor e pesquisador da Universidade Mackenzie, sobre a proibição da distribuição de sacolas plásticas em supermercados

Até hoje nunca nenhuma sacola nem garrafa plástica foi vista correndo sozinha para bueiros ou córregos. Estranho querer tirá-las de circulação pela interrupção do ciclo de utilização de um produto. Por um lado, seria importante o reforço do trabalho de conscientização da responsabilidade do consumidor no descarte do material; por outro, uma revisão da gestão pública do lixo, que deixa a desejar.

A durabilidade de duzentos anos do polímero, nome científico do plástico, é, na verdade, a evidência de uma de suas principais propriedades, a grande quantidade de energia armazenada em sua formação. É mais lógico aproveitar essa característica por meio da reciclagem. O procedimento, além de permitir que o material não se torne lixo durante sua vida útil, também preserva parte da energia e matéria-prima, bem como esforço humano para produzi-lo.

A reciclagem de plásticos possui diversas alternativas. A mais conhecida é a reciclagem mecânica, na qual o material plástico é coletado e reprocessado, produzindo novos produtos. No caso da sacola plástica, para que as mesmas sejam recicladas mecanicamente, estas têm que passar por um processo de limpeza, e é este fato que, em algumas situações, pode inviabilizar esse processo.

A segunda opção é reciclagem energética, na qual o material plástico é queimado para gerar energia elétrica. Aqui vale lembrar que hoje em dia a reciclagem energética tem total controle do material resultante na queima do plástico, não gerando nenhum tipo de poluente por meio de utilização de filtros.

Porém está não é a única solução para o problema do acúmulo do material como descartável. Outras opções convergem para uma resposta completa e sustentável para questão. Sacolas biodegradáveis possuem um forte apelo junto à imaginação das pessoas. Um produto que, após descartado, retornaria ao meio ambiente por meio de decomposição feita por microrganismos que sumiriam com o material sem deixar resíduos poluentes.

Porém, é importante salientar que essas sacolas são feitas de polímeros biodegradáveis que precisam de um ambiente com temperatura, umidade e pH adequados para sofrerem esse processo de forma completa.

Uma das grandes vantagens é a possibilidade de utilizar o resultado dessa transformação como adubo, procedimento chamado de compostagem. Essa informação deve ser necessariamente difundida para que não se imagine que o material irá sumir se forem descartados em qualquer lugar, de qualquer forma.

Outro ponto de atenção para essa opção é a necessidade do rigor da utilização do termo biodegradável, que tem sido utilizado de forma errônea para identificar materiais que são apenas fragmentáveis. Esses plásticos se deterioram rapidamente virando pó, entretanto, não são consumidos pelos microrganismos e podem ser acumulados em solo e lençóis freáticos de forma poluente.

O cenário ideal é um conjunto de ações integradas e permanentes. Contribuindo para o resultado de qualquer política de gestão do lixo escolhida, é necessário o reforço da educação ambiental para a população, que passa do ensino fundamental às universidades, com a adesão dos diversos meios de comunicação.

Qualquer opção sempre terá que ter um apoio completo de toda a sociedade, que precisa assumir a responsabilidade de não descartar resíduos sólidos em ambientes inadequados. As prefeituras devem fazer uma coleta 100% efetiva, com um programa de coleta seletiva crescente.

A proibição da distribuição das sacolas plásticas reduzirá os gastos das redes de supermercados, aumentará para parte da população que tem os recursos disponíveis para isso, desafiará a criatividade da outra parte em substituir um hábito tão difundido, e quem sabe o que o mais provocará. Porém, nós, a população, vamos novamente tomar o caminho mais fácil sem a devida reflexão? Retomar a proibição é deslocar o problema. Devemos encarar a situação da gestão do lixo com suas complexidades.

O plástico sendo descartado da melhor maneira possível pela população bem informada e com acesso a locais corretos para o despejo. Se foi produzido para durar, que tenha sua maior parte retornada para a reciclagem. Se é biodegradável, que seja levado para usinas de compostagem. Um sistema de coleta eficiente e inteligente.

Um aumento da utilização de sacolas e embalagens retornáveis. Chegou o momento de entender que a mudança mais sustentável requer um conjunto de ações que podem não ter um efeito imediato, e cosmético, mas que nos guiará para uma solução progressiva, mais segura e cidadã.

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