País precisa avançar em questões básicas da meteorologia

Mário Francisco Leal de Quadro

Mário Francisco Leal de Quadro

Especial para o UOL

Primeiramente, gostaria de esclarecer que falar sobre mudanças climáticas no Brasil atualmente é como tentar discutir sobre política, futebol ou religião. É um assunto complexo, que envolve uma série de questões que extrapolam apenas a discussão de como o clima do planeta vem se comportando e o que se espera para os próximos anos. Mas, como meteorologista de graduação e há vinte anos trabalhando na área, vou me ater neste espaço apenas à questão meteorológica, sem defender pontos de vista com relação a esse tema.

Ressalto apenas que, como única opinião pessoal, o ser humano tem uma necessidade inerente de sempre encontrar "culpados" para o que inicialmente não possui explicação científica e, posteriormente, a própria ciência se encarrega de juntar o quebra-cabeça desses grandes fenômenos climáticos que vieram a público nas últimas décadas.

Como exemplo disso, posso citar na década de 1980 o "El Niño" e, nos anos de 1990, o "buraco na camada de Ozônio". Todos esses fenômenos, assim como as mudanças climáticas têm sido atualmente, tiveram uma superexposição na mídia, tornando mais difícil explorar e, consequentemente, divulgar as relações de causa e consequência deles à população.

Das aulas de geografia, sabemos que o Brasil é um país de grande extensão territorial e, por isso, sofre influência de distintas massas de ar que determinam o "clima" do Brasil e países vizinhos durante as quatro estações do ano. Em função desses extremos climáticos que caracterizam o Brasil, pode-se afirmar que qualquer alteração neste padrão, independente se for natural ou antropogênica, afeta diretamente o regime de temperatura e chuvas de uma determinada região brasileira.

Aqui, cabe um esclarecimento entre escalas temporais, pois pretendo citar exemplos de eventos meteorológicos extremos que acontecem em uma escala temporal de horas, ou até dias, que obviamente não caracterizam o clima de uma região. Nesse ponto, gostaria de fazer uma primeira reflexão sobre esse aumento de eventos extremos que foram registrados.

Eventos extremos no Brasil

É inegável que nos últimos 15 anos o Brasil vem sendo assolado por inúmeros eventos meteorológicos extremos nas escalas de tempo e clima. Esses fenômenos diversos englobam estiagens prolongadas no Sul, Sudeste e seca no Nordeste do Brasil. Destacam-se aqui as estiagens prolongadas na Amazônia nos anos de 2005 e 2010 e as chuvas irregulares nos últimos três anos, que têm agravado a situação de seca na Região Nordeste.

Também foi registrado um aumento significativo no registro de outros fenômenos meteorológicos, como tempestades com incidência de raios, granizo, vendavais, chuvas torrenciais e contínuas provocando alagamentos e enchentes. Faço um destaque especial também para a incidência de tornados no centro-sul do Brasil, sendo mais impactantes os que ocorreram em Indaiatuba (SP) em 2005, em Guaraciaba (SC), no ano de 2009, Taquarituba (SP), em 2013, São Gabriel, (RS) em 2014. Mais recentemente, em Marechal Cândido Rondon (PR), Treze Tílias (SC) e em Xanxerê (SC), em 2015. Em julho de 2013, tivemos um registro de neve histórica generalizada nos três Estados do sul do Brasil.

Além disso, entre os meses de janeiro e fevereiro de 2014, registrou-se uma onda de calor intensa que durou 18 dias consecutivos, com temperaturas bastante elevadas e ausência de chuvas no período. Nesse mesmo período, o Sudeste do Brasil sofreu e ainda sofre com a "crise hídrica", reflexo de dois fatores combinados, que são: a redução significativa das chuvas, principalmente nos meses considerados mais chuvosos, associada à falta de gerenciamento na questão do armazenamento de água em função do aumento do consumo.

Atualmente, o Brasil também está sob a influência de um forte El Niño, amplamente divulgado na imprensa nacional. Este fenômeno faz com que passemos por momentos críticos do ponto de vista climático, em que, novamente, a atuação da meteorologia é de fundamental importância. O nordeste do Brasil, que há três anos sofre com a seca, deve ampliar os prejuízos sociais e econômicos. Já o sul do Brasil vem sofrendo nessa primavera com chuvas intensas responsáveis por desastres naturais, que têm provocado perdas tanto para os setores produtivos como para as pessoas. 

No entanto, grande parte dos fenômenos citados tem sua origem por causas naturais, ou seja, são parte dos efeitos do clima em determinado local. Além disso, fenômenos como o El Niño Oscilação Sul (ENOS) ocorrem, em geral, a cada três anos, e durante sua atuação podem se sobrepor a fenômenos locais, intensificando ou inibindo os mesmos.

Mas ainda fica a pergunta. O que tudo isso tem a ver com o aquecimento global? Essa é uma questão importante, mas talvez não a essencial neste momento. Nos últimos anos, a ciência da meteorologia e a consequente sub área climatologia têm evoluído significativamente, principalmente através do avanço tecnológico e computacional.

Mas ainda precisamos avançar principalmente na compreensão dos aspectos físicos da atuação dos fenômenos meteorológicos na atmosfera. Um exemplo clássico foi o Furacão Catarina, que se formou em março de 2004, atingiu o litoral sul de Santa Catarina e foi o primeiro furacão registrado no Atlântico Sul.

Em outras palavras, precisamos avançar em outras questões básicas da meteorologia, como uma organização de uma rede de monitoramento meteorológica, padronizando e organizando dados ambientais coletados na superfície terrestre e em altitude. Carecemos de uma política nacional que delegue responsabilidades nessa área tão importante e que está diretamente relacionada com a comprovação dos impactos do aquecimento global no Brasil.

Por outro lado, inúmeros esforços de pesquisadores nacionais e internacionais têm sido feitos, principalmente relacionados a estudos dos efeitos das mudanças climáticas no Brasil. Isso vem sendo realizado através dos diversos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Recentemente, tivemos a reunião da COP 21 em Paris, em que foi assinado o "acordo de Paris", que valerá a partir de 2020, no qual os países participantes ratificaram o documento de se comprometer em longo prazo em manter o aquecimento global "muito abaixo de 2ºC". Este acordo é um sinal de que, independente da porcentagem de contribuição de cada país para o aumento da concentração de gases poluentes, todos vão sofrer com isso.

E eu diria mais: independente das previsões que os diversos cenários que os modelos do IPCC estão prevendo para os próximos 50 a 100 anos, nosso papel é da conscientização com relação ao nosso papel como cidadãos. Talvez o maior legado dessa discussão sobre as mudanças climáticas é o fato de estarmos rompendo as fronteiras dos países e continentes. Devemos nos unir para pensar e deixar um planeta melhor para nossos filhos e netos.

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Mário Francisco Leal de Quadro

é professor do Curso de Meteorologia do Instituto Federal de Santa Catarina. Possui doutorado em Meteorologia na USP (Universidade de São Paulo)

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