Bipolaridade da Guerra Fria ainda ecoa na política da América Latina

Ricardo Luigi

Ricardo Luigi

Especial para o UOL

Quando o recém-eleito presidente argentino, Mauricio Macri, anunciou sua nova ministra das Relações Exteriores, o nome de Susana Malcorra foi bastante saudado. Muitos aspectos pesam a seu favor. Além da experiência como chefe de gabinete da ONU, chefiou missões de paz pelas Nações Unidas e foi bem-sucedida no setor privado, tendo trabalhado em grandes corporações.

Em seus primeiros pronunciamentos, a chanceler argentina declarou a intenção de "desideologizar" a política externa argentina, que deverá ser tratada de forma pragmática e como política de Estado. As palavras de Malcorra, de certa forma, reverberam o ideário do presidente Macri e de boa parte dos líderes políticos em ascensão na América Latina. Estaríamos rumo a uma nova onda?

Na primeira década do século 21, uma "onda rosa" (uma referência a políticos de esquerda, boa parte com inspirações socialistas) varreu a América Latina. Lula, no Brasil; Hugo Chávez, na Venezuela; Evo Morales, na Bolívia; Tabaré Vázquez, no Uruguai; Michelle Bachelet, no Chile; Rafael Correa, no Equador; Fernando Lugo, no Paraguai; Néstor Kirchner, na Argentina; e Daniel Ortega, na Nicarágua. Se somarmos com Cuba e o posterior governo de Ollanta Humala, no Peru, pode-se dizer que a América Latina chegou a ter mais de uma dezena de governos de esquerda.

A saudada onda prometia pôr fim ao período neoliberal que se espraiou pela região durante os anos 1990. Por um lado, determinados investimentos sociais foram inegavelmente realizados, diminuindo a pobreza, sem, no entanto, romper a estrutura da desigualdade social. Por outro, a ideologia da esquerda demonstrou-se mais sólida na teoria do que na prática. O "esquerdismo real" esbarra em muitos dos erros que condenava na direita.

Casos de sucesso da esquerda –como os governos da Bolívia e do Equador– apontam que a questão deve ser analisada com maior complexidade. Outro legado da "onda rosa" é uma agenda de âmbito social, que conseguiu influenciar diversos países pelo mundo.

E quanto à "ola azul" (onda azul, em referência à retomada de governos mais à direita em países latinos)? A direita já havia reconquistado o poder no Paraguai –de forma duvidosa, do ponto de vista democrático–, apesar do êxito econômico que se seguiu. No Chile, com Piñera, o sucesso foi menor, o que provocou a volta de Bachelet. O que acontece na Argentina não é novo, mas nos atemos a ela, porque é o caso mais recente, depositário de novas esperanças.

A manutenção do kirchnerista ministro da Ciência, Liño Barañao, foi uma grande atitude, condizente com o "pragmatismo" e a "desideologização" que o novo presidente argentino diz seguir. Mas Macri comete um grave equívoco ao afinar a fala com sua ministra e pedir uma desideologização do Mercosul e da região, como um todo, em busca de "caminhos concretos".

Ele praticou a ideologia da "contraideologia". Como se as propostas de esquerda fossem utópicas, e as suas não. Como se não houvesse mais esquerda e direita, e a partir de então vigorasse uma nova ideologia.

Lamento dizer que não estamos rumando para uma nova ideologia. Como na metáfora do jornalista e escritor best seller dos EUA Thomas Friedman, "o mundo é plano". E cada vez mais chato. A América Latina é cada vez mais bipolar, com uma movimentação de um lado a outro que parece não seguir racionalidade alguma, agitação a serviço de uma inércia. Alguns setores ganham com a criação de novidades que não são inovações, mas puro marketing. Não são reformas, e sim um retrofit capenga.

A abordagem em relação às iniciativas de integração regional é paradigmática desse transtorno bipolar com ares narcisistas. Foram criadas por governos de direita. Ganharam novo impulso ao serem apropriadas por governos de esquerda. São incompreendidas por ambos, ora subestimadas, ora superestimadas injustamente. O ataque desmedido ao Mercosul e a apologia desmesurada ao TPP (Tratado Transpacífico) ainda não encontram respaldo na realidade.

Uma ideologia que reproduz ecos da Guerra Fria não é nova. Uma ideologia que requenta o ideal tecnocrático, pragmático e supostamente científico-racional do neoliberalismo "à latina", dos anos 1990, também não é nova. Na verdade, a América Latina se parece cada vez mais com os Estados Unidos, oscilando entre "republicanos" e "democratas". Cada um dos polos fica tempo suficiente no poder até que a sociedade se canse e deposite sua esperança na mudança. Isso se reproduz num eterno retorno.

A "ola azul" parece ser mais uma onda. Não é necessariamente ruim, nem boa. Ataca pensamentos contrários e se esquece de que é uma visão de mundo, com suas vantagens e seus prejuízos. É apenas mais uma das alternativas, embora tente se vender como "o único caminho". Ao fazê-lo, perde o senso autocrítico e a oportunidade de avançarmos substantivamente.

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Ricardo Luigi

é professor de Relações Internacionais da Universidade Paulista (Unip), diretor do Centro de Estudos em Geopolítica e Relações Internacionais (Cenegri) e doutorando em Geografia

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