Letargia do governo desmanchou o mundo da fantasia econômica

Otto Nogami

Otto Nogami

Especial para o UOL

Uma frase dita certa vez por Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia, de que o Brasil é um país do futuro e sempre será, não deixa de ser uma verdade à medida que analisamos retrospectivamente os dados da economia brasileira. Quando começamos a ter a sensação de que tínhamos entrado, definitivamente, no clube dos emergentes de grande potencial e, principalmente, de que estávamos ricos, como por encanto, tudo se transformou no que éramos algumas décadas atrás: borralheiros.

De dez anos para cá vivemos o mundo da fantasia, com crédito abundante, estímulos ao consumo, passeios internacionais mais baratos que o turismo doméstico, enxovais sendo comprados em Miami, carro zero na garagem, consumo de artigos de luxo. E tudo isso confirmado pelas estatísticas oficiais, com dados nunca antes alcançados na história do país. Baixo índice de desemprego, recordes sucessivos na exportação, crescimento da classe média, redução das disparidades sociais e de renda.

Mas, por outro lado, um pequeno conjunto de dados preocupava e não permitia que a atenção se desviasse deles: inflação, contas públicas e a taxa de câmbio. Nossos comentários a respeito da performance da economia, à época, sempre traziam um certo ceticismo, pois a inflação, por exemplo, se mantinha acima da meta de inflação (4,5% ao ano) e os dispêndios públicos insistiam em se manter crescentes, proporcionalmente maiores que o aumento da arrecadação.

A mudança da equipe econômica neste segundo mandato da presidente trouxe um certo alívio pois, pelo currículo do ministro da Fazenda, ajustes nas contas públicas eram tidos como certos, o que permitiria a retomada do processo de crescimento da economia brasileira.

Entretanto, o que se viu foi um permanente embate entre correntes ideológicas que resultaram em uma total inanição do governo ao longo do ano, associado à falta de diálogo entre o Executivo e o Legislativo. E essa letargia fez estourar a bolha de consumo, desmanchar o mundo da fantasia. A cada mês vendo aumentar o buraco fiscal, a enxurrada de aumentos (principalmente energia elétrica e combustíveis), o recuo da atividade industrial, a crise da Petrobras, a dívida e a inadimplência das famílias, as obras paradas, a dificuldade em arrumar as manobras fiscais da equipe econômica anterior.

E o último mês de 2015 reserva um espaço especial na história do Brasil. Inflação de dois dígitos, contas públicas estouradas –com o governo admitindo que não terá dinheiro para pagar nem um centavo dos juros da dívida e se endividando cada vez mais–, desemprego crescendo de maneira assustadora, orçamento das famílias comprometidas, dólar beirando os R$ 4 (ao longo de 2015 ele ficou 50% mais caro).

Juntando-se a tudo isso, uma semana antes do Natal, foi tirado, pela segunda vez, o selo de grau de investimento do Brasil. Ou seja, o país passou a ser classificado internacionalmente como um mal pagador dos seus compromissos financeiros internacionais. Sem falar do evento jurídico-político que é o início do processo de impeachment da presidente.

Expectativas negativas para 2016

Com esse histórico, o que podemos esperar de 2016? No campo político, começaremos o ano com a mídia dando destaque ao andamento do processo de impedimento da presidente, e de cassação do presidente da Câmara dos Deputados. No campo policial, o noticiário estará dando cobertura às fases da operação Lava Jato, cujos desdobramentos ainda são imprevisíveis, pois, aparentemente, ainda estamos vendo apenas a ponta de um iceberg. Dependendo das evidências que surgirem, o comprometimento do Executivo e do Legislativo pode aumentar ainda mais.

Já no campo econômico, o cenário também não é dos melhores, a começar com a substituição da equipe econômica. E a maior preocupação está justamente nessa questão. A troca do ministro da Fazenda reside no fato de que a presidente optou por não adotar um ajuste nas contas públicas mais rígido, o que vai levar, segundo projeções iniciais, a mais um resultado deficitário, antes do pagamento dos juros, aumentando ainda mais a dívida do governo.

Do ponto de vista macroeconômico, essa atitude pode levar o país a uma situação ainda mais complicada, dificultando cada vez mais a retomada do crescimento. 2016 já se apresenta como um ano de grandes expectativas. Infelizmente ruins, pois, independentemente do que o noticiário nos reserva, não sabemos em que direção caminhará a educação, a saúde, a segurança e a infraestrutura. Não nos foi dito, até agora, o que se pretende fazer para reverter essa situação em que o país se encontra, ou onde se pretende chegar ao final de governo, se é que vai chegar.

  • O texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
  • Para enviar seu artigo, escreva para uolopiniao@uol.com.br

Otto Nogami

60 anos, é economista, professor de economia do MBA Executivo do Insper e sócio da Nogami Participações. Possui MBA em Finanças e doutorado em engenharia de produção. É autor de 8 livros, dentre eles Princípios de Economia (ed. Cengage)

UOL Cursos Online

Todos os cursos