Para a indústria automotiva, o culpado são os outros

Luiz Carlos Bastos de Mello

Especial para o UOL

Sabemos –os que viveram com consciência mínima de cidadão os diversos "Brasis" dos anos 50 até o da quadra atual– que, no âmago de nossas crises, mora uma cultura virótica que se autorreproduz, irremediavelmente transmissível e castrante, que nada tem a ver com os chamados vícios do patrimonialismo herdado dos lusos colonizadores.

De fato, esse mal, que se radica metasticamente pelos bulbos subterrâneos e através dos próprios ramos contaminantes de sua copa, resulta primeiramente da nossa educação, aquela de contornos primitivos a que continuamos submetidos. Em seguida, do comodismo endêmico de que padece a natureza humana, tanto na geografia dos ricos quanto na dos pobres, e cujo rebento mais teratológico foi vergastado, aqui em terras cabralinas, pelo nosso poeta de terra mais autêntico –mas não menos erudito em simbolismo–, Luiz Gonzaga, ao versejar e cantar em sua já esquecida "Vozes da Seca": "esmola a um homem que é são, ou lhe mata de vergonha, ou vicia o cidadão".

Estranho paralelismo esse através do qual se procura, nestas linhas, traçar entre o nosso comportamento de eterna e letárgica expectativa (latente, em nossas repetitivas respostas eleitorais diante de comportamentos gritantemente deletérios aos interesses do país, como os que estarrecem a todos agora) e, parece absurdo, aquele que emana das declarações de expatriados ou nativos executivos automotivos, ao apontarem a desorganização governamental como causa maior da acentuada queda de vendas de veículos neste ano.

Ao se arvorarem como poderosos e inalcançáveis catões modernos, figuras há que, ao criticarem as autoridades do dia, muito convenientemente deixam de sopesar os adjutórios de todos os tempos que os fizeram construir aqui o inestimável patrimônio gerador de lucro e de certezas para o futuro, lastreados nas "burras" do Tesouro Nacional, que alimentamos diuturnamente, e em um mercado ainda virgem. Tanto uma como outra, de estruturação e fruição cada vez mais difíceis e contingenciais em suas imperiais "Romas" de origem.

Mestres que são na área do "direito comparado", sabem esses "sábios" que, desde quando aqui aportaram na metade do século passado, com tapete de incentivos a lhes proteger os pés, o discurso de proteção de nível de emprego –o de antes e o atual (falácia pura, isso porque a realidade da Terceira Revolução Industrial já a faz inconsistente)–, visando deter a perda de confiança junto aos investidores internacionais, é puro jogo de cena. O Brasil de boas oportunidades –o de agora, inclusive– está sendo "comprado", larga, ávida e silenciosamente,  como o diz constante noticiário a respeito.

Um tipo de competição determinada por uma efetiva concorrência não é exatamente o que se observa pelas bandas tupiniquins, na esfera automotiva. Desde sempre, aliás. A expectativa é a de que o peixe de boa e saudável gordura ômega 3 mais cedo ou mais tarde será distribuído aos "carentes" de sempre, pelo governo do dia. 

Daí, por que se dar ao risco da luta cruenta de conquista de mercado, mediante o uso do arsenal básico em qualquer economia de mercado digna do nome? Ou seja, reduzir custo unitário, qualidade como obrigação e não atributo, e inovar na busca e retenção de mercados que não os meramente gravitacionais (sem promoções estéreis e enganosas), explorando as oportunidades mercadológicas que a tecnologia oferece. Esta, cada vez mais sob o controle e influência dos gigantes do meio, que definitivamente não são mais "estranhos do ninho" (Apple, Google, entre outros).

A Lei de Darwin, desprezando-se qualquer alusão mais imaginosa, é a que deve ao final prevalecer: os melhores e mais adaptáveis sobrevivem, à custa dos menos capazes. Isso aconteceu nos Estados Unidos nos anos 30 do século passado, na Europa e, no futuro, na China, com as suas mais de 100 montadoras, das quais a imensa maioria nem sequer aflora à superfície.

Ao longo do tempo, a "esmola" a que se referia Gonzaga de tal maneira se tornou lugar-comum na estratégia de fomento à economia automotiva brasileira, que, ao invectivarem o governo, as transnacionais que aqui operam, pela voz dos seus "embaixadores" plenipotenciários e assistentes nativos, preferem nunca se perguntar sobre o que não fizeram eles próprios, e que, tanto quanto a desorganização nossa que censuram, é causa das vendas severamente declinantes como as deste ano.

Que aqui seja um teatro de operações militares em que sobrevivam os que, como a história automotiva demonstra, saibam construir pontes imunes às adversidades cíclicas do mercado, poupando-nos de lamúrias de conveniência como as que se habituaram a encharcar a imprensa e, por extensão, a nós compradores e contribuintes.

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Luiz Carlos Bastos de Mello

é ex-presidente da Ford Brasil e consultor

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