Voz das ruas se mostra cada vez mais livre, mas não apolítica

Pedro Henrique Torres

Pedro Henrique Torres

Especial para o UOL

O ano de 2016 mal começou e as ruas já estão aí: ocupadas. Se podemos fazer um prognóstico –não por clarividência, mas por análise da conjuntura–, é que este ano teremos muitas manifestações por todo o país. Trata-se de ano eleitoral, de definição sobre o impeachment presidencial, de Olimpíadas no Rio de Janeiro e de crise econômica, ambiental e política –assim como na saúde, na educação, na infraestrutura, entre tantas outras áreas. 

2015 terminou com dois campos antagônicos da arena pública disputando um campeonato à parte sobre quem levaria mais gente às ruas: o PT e os aliados do governo federal contra a parte da oposição favorável à saída da presidente Dilma Rousseff. No dia 13 de dezembro, a primeira manifestação de rua pós-acolhimento do pedido impeachment teria sido um enorme fracasso, na opinião dos apoiadores do governo federal.

A memória das manifestações de março e abril, que teriam levado, segundo os organizadores, quase 2 milhões de brasileiros às ruas contra o governo, –ou a de 16 de agosto, já com cerca de 800 mil pessoas– começava a ficar para trás.

Apesar disso, na narrativa dos organizadores (Movimento Brasil Livre, Revoltados Online e Vem Pra Rua), tratava-se mesmo de um ensaio sem tempo para grande divulgação, sendo, no entanto, importante para não deixar o assunto esfriar e convocar seus simpatizantes para uma nova manifestação no dia 13 de março. Para o governo e para o PT, era fundamental, mesmo que no plano simbólico, ganhar o fla-flu das ruas ao menos nesse round e levar, três dias após a manifestação pela saída da presidente, o maior número possível de pessoas para as ruas.

Pelo menos em 42 cidades, em 25 Estados, com estimativa total de 98 mil pessoas pelas polícias e de 292 mil pelos organizadores, os atos se mostraram maiores do que último registrado em 20 de agosto e foram um alívio, mesmo que momentâneo, para os apoiadores da presidente.

Para além da disputa sobre "quem leva mais gente à rua" ou "o PT não tem mais o monopólio das ruas", o que é visível é que cada vez mais as ruas se mostram livres, sem donos. Não só as ruas em si, mas tudo o que cerca a sua ocupação: coletivos espontâneos, movimentos apartidários, anarquistas, temáticos, entre tantas formas que são criadas e recriadas a cada dia. Ser livre, independente ou apartidário não significa ser apolítico –que fique claro.

Os partidos políticos e a classe política não têm mais hoje o poder de convocação e a liderança que outrora tiveram. Os partidos estão envelhecidos em seus quadros e ideias. A última eleição foi prova disso, e as eleições municipais deste ano devem reforçar isso ainda mais. Logo elas, no âmbito das cidades, que poderiam representar um espaço de vanguarda das transformações que milhares de brasileiros anseiam, incluindo temas hoje esquecidos pelos partidos tradicionais, como a participação e a justiça social e ambiental no espaço urbano.

É importante nos lembrarmos de pelo menos três eventos e movimentos políticos recentes: as jornadas de junho de 2013, a greve dos garis do Rio de Janeiro em 2014 e a luta dos estudantes de São Paulo em 2015. Em todos os casos, o protagonismo das ruas não teve a cor da bandeira partidária desse ou daquele partido.

No caso dos garis, vitoriosos, as negociações subverteram até a tradicional negociação via sindicato, em um episódio raro. Os estudantes de São Paulo, igualmente vitoriosos em sua demanda, também rechaçaram entidades ligadas historicamente a partidos, lembrando em alguns casos cenas de 2013 em que manifestantes com bandeiras e camisas de partido eram vaiados e criticados nos protestos –algumas vezes agredidos.

A população urbana cresce, e é nas cidades que estão hoje as grandes crises e os desafios do século 21. É na cidade também que estão os grandes coletivos de ruas e de ocupação do espaço público. Entender que a rua não tem dono –ou melhor, que "ninguém manda no que a rua diz", como ensinam cartazes espalhados por algumas de nossas cidades– parece imperativo para se analisar os movimentos urbanos que só tendem a ganhar força nos próximos anos.

  • O texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
  • Para enviar seu artigo, escreva para uolopiniao@uol.com.br

Pedro Henrique Torres

é mestre em Planejamento Urbano e doutorando em Ciências Sociais

UOL Cursos Online

Todos os cursos