Empresários devem parar de se vitimizar para ser parte da solução

Otto von Sothen

Otto von Sothen

Especial para o UOL

Não há como negar que vivemos tempos desafiadores no Brasil, enfrentando uma das maiores crises da história recente do país. O baixo desempenho da economia, a inflação crescente, a alta do desemprego e a necessidade de investimentos nos rodeiam onde quer que estejamos: ao abrir o jornal, ao ligar a televisão, ao passar os olhos pelo celular ou nas conversas de elevador. A sensação é de que estamos reféns do porvir, mas o que virá?

Sou executivo de carreira e, nos últimos dois anos, estou à frente de uma empresa familiar brasileira que atua no segmento de materiais de construção. Como muitos setores da economia, estamos sendo impactados pela fraca demanda resultante da desaceleração da construção civil e do segmento de infraestrutura.

Por algum tempo, fomos beneficiados com redução no IPI para o setor, pois a roda não podia parar de girar e se mostrava necessária uma solução paliativa. Atualmente, não somos mais contemplados com medidas protecionistas, mas outros setores são. E é daí que parte a minha reflexão sobre como o empresariado brasileiro pode atuar de uma maneira mais organizada no diálogo com o governo. 

O empresariado brasileiro se acostumou a discutir melhorias para seus setores específicos de atuação, mas precisamos mudar de discurso e de postura ao assumir a liderança na conversa com governo, sociedade e trabalhadores. Precisamos nos unir para pleitear avanços para a economia como um todo e atuar na defesa de aspectos intrínsecos para uma economia saudável: o livre mercado, o empreendedorismo, a concorrência e a liberdade de comércio.

Para começar, uma das ideias seria a desmontagem gradual dos mecanismos protecionistas no comércio exterior em paralelo com condições que garantam melhorias de produtividade real nas empresas –o mesmo princípio valeria para negociações salariais e dissídios. Como conceito, aumentos reais devem ser acompanhados de aumentos de produtividade.

Essas melhorias de produtividade seriam parcialmente financiadas através da redução dos custos do governo (cargos comissionados e ministérios, por exemplo), que se refletiria em reduções da carga fiscal –a reforma tributária seria complementada com uma iniciativa que acabaria com guerra fiscal entre estados.

Além disso, outros mecanismos podem fortalecer a conversa entre o empresariado. Um deles é a reedição do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social –o "Conselhão"– como principal órgão de aconselhamento do governo e no qual empresários participam ativamente.

Nessas discussões, o empresariado deverá estar bem representado –com diversidade de setores e regiões– para que haja um entendimento do que precisa efetivamente ser feito.

Experiência a favor do Brasil

Precisamos parar de nos vitimizar e colocar a serviço do país a experiência de liderança que temos nas nossas empresas. Somos parte fundamental da economia quando vai bem e quando vai mal e, por isso, precisamos protagonizar a discussão de maneira proativa e orquestrada.

Alguns exemplos lá de fora já estão chegando ao Brasil e podem nos inspirar. Um dos mais bem-sucedidos é o movimento "Capitalismo Consciente", criado por John Mackey (co-fundador da rede de supermercados Whole Foods), Raj Sisodia (professor do Babson College) e outros membros da comunidade acadêmica e empresarial, que busca reforçar o papel do capitalismo como mola propulsora do progresso e do crescimento econômico, mas também com foco no consumo consciente e na sustentabilidade de todos os recursos do planeta.

São duas frentes nas quais o empresário retoma seu papel de liderança e volta a ser parte da solução.

Tenho observado com bastante tristeza, em especial ao longo da última década, que o empresariado é visto como algo nefasto, frequentemente acusado de visar o lucro a qualquer custo, sem atentar ou se importar com outros aspectos a sua volta.

É fato que há empresários que ainda pensam assim, o que é evidenciado pelas recorrentes denúncias de financiamento público a certos segmentos, pela frequente visita de empresários a Brasília para pedir desonerações fiscais para seus respectivos negócios ou setores e pelos escândalos de quebras de algumas empresas e bancos, outrora poderosos, que se revelaram verdadeiros castelos de cartas.

Porém, acredito que esses casos sejam exceções, minoria absoluta. O empresariado brasileiro está repleto de exemplos de líderes sérios, corajosos e desbravadores, que assumem riscos e que fazem o país funcionar ao gerar milhões de empregos, contribuindo direta e indiretamente para o estímulo dos mais variados setores da economia.

Ao falar de números milionários, a campanha difamatória confunde faturamento com lucro. Na típica empresa industrial com atividade no Brasil, após descontarmos todos os custos de produção, impostos, salários e benefícios, dificilmente sobram mais que 5% de ganho sobre o faturamento líquido.

A conversa é longa, mas vamos aos fatos: o que fazemos? Os empresários vão ao governo defender a imposição de barreiras tarifárias para seus setores para compensar esses custos e procurar tornar suas empresas competitivas frente aos produtos importados. E quem paga a conta? O consumidor brasileiro, através de produtos cada vez mais caros.

Precisamos parar de atuar na consequência e atacar as causas de nossos problemas. Com um discurso coeso, o empresariado pode dar início às mudanças estruturais e, também, na percepção negativa que a sociedade tem da classe. Apresentando resultados efetivos de melhora da economia e da realidade da população, naturalmente o setor se fortalece.

Sei que a solução não é fácil, pois requer uma reeducação generalizada da sociedade, desmontando estruturas viciadas que estão em funcionamento há muitos anos, mas sugiro que se comece. O empresariado pode e deve assumir devidamente seu lugar nesse debate de reinvenção do país.

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Otto von Sothen

54 anos, é presidente do Grupo Tigre, economista e tem MBA pela J. L. Kellogg Graduate School of Management de Evanston (EUA)

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