Ao agir como uma ilha, Brasil foi inexpressivo em Davos

Ilona Szabó de Carvalho

Ilona Szabó de Carvalho

Especial para o UOL

Davos, a reunião anual do Fórum Econômico Mundial, impressiona, seja pela riqueza da organização ou de seus participantes. Seus críticos dizem que não passa de um encontro daqueles que defendem o falho sistema econômico vigente. Este ano, convidada como Young Global Leader, pude ver com meus próprios olhos que eles teriam razão,se não fossem além da página dois das riquíssimas discussões que acontecem na pequena cidade suíça.

Há, nesse centro do poder, muito espaço para reflexão crítica sobre os mais variados assuntos, desde a ética nos negócios e o futuro das políticas de governança até o enfrentamento dos desafios globais por todos os setores da sociedade. Infelizmente, são poucos os brasileiros que ousam ir além do feijão com arroz econômico do encontro. A cobertura da mídia nacional tampouco ajuda. No fim, ficamos de fora de discussões que poderiam fazer diferença para nossa sociedade.

A edição deste ano teve como tema principal a chamada quarta Revolução Industrial, provocada pelo uso intensivo da tecnologia e suas implicações positivas e negativas: uma ampliação da capacidade de análise de dados e de automação de várias áreas, favorecendo avanços, por um lado, e uma expectativa de perda de empregos formais, por outro.

Além do tema principal, algumas preocupações globais apareceram em todas as discussões, como o recrudescimento do populismo pelo mundo. Esse receio é personificado na candidatura de Donald Trump à presidência dos EUA e o que sua improvável, mas possível, vitória significaria para um mundo já bastante conturbado.

O impacto da desaceleração da China e a volta de uma geopolítica polarizada, como na época da Guerra Fria e a crise migratória sem precedentes na história recente da Europa –que coloca em risco o acordo de livre circulação de pessoas, um dos quatro pilares da União Europeia– apareceram nas discussões como fatores que ameaçam o nível de globalização já alcançado.

Por último, a necessidade de reinventarmos a indústria de petróleo à luz do acordo sobre o clima e a iminência de uma nova crise global mobilizaram algumas das mentes mais brilhantes do nosso tempo –de políticos e presidentes de empresas a prêmios Nobel e lideranças da sociedade civil de todas as áreas.

Dados os temas, me surpreendeu a total falta de expressividade do Brasil e da América Latina. Dois presidentes da região estavam lá (o do México e o da Argentina), mas só falaram das mudanças políticas em seus países. Não lideramos em momento algum essas discussões, muitas das quais nos dizem respeito profundamente, como a nova crise econômica e dos modelos de governança. Agimos no Brasil como se fôssemos uma ilha isolada, mas somos um país de dimensão continental. Ficamos, infelizmente, na página dois.

Até a presença da mídia brasileira era escassa por lá, e contavam-se nos dedos os presentes. Todos os editores e donos dos mais importantes veículos do mundo aproveitam a ocasião para beber da fonte, entender os desafios que vivemos e abordar líderes de expressão presentes.

Com essa postura, estamos perdendo a chance de participar de uma conversa global.

As questões que nos afligem, sejam epidemias de saúde, seja a mudança climática, problemas de segurança ou os desafios na educação, "vis a vis" as novas necessidades desse mundo tecnológico, são questões globais, não apenas brasileiras. Tomar parte dessa conversa é ter a chance de impactar o mundo com soluções que venham daqui e de aprender com falhas e avanços de outros lugares.

Sei que não é fácil participar desse diálogo. A língua é uma grande barreira, e é preciso ter uma fluência quase nativa em inglês para acompanhar anglo-saxões e europeus. Mas não é só isso, precisamos também acompanhar avidamente notícias do que acontece para além do "Oiapoque ao Chuí".

Não estamos acostumados a fazê-lo, diferente de nossos pares estrangeiros, que já incorporaram as questões globais à sua rotina. Até eu, que por formação acadêmica e em meu trabalho me proponho a ter uma visão do nível local ao global nos temas da segurança, justiça e desenvolvimento, me surpreendi com o quanto fiquei para trás em alguns momentos. É difícil, mas é um esforço que vale a pena.

A crise política pela qual passamos já indica que precisamos de um novo projeto de país. Pois nele precisamos incluir também o objetivo de formar mais e melhores cidadãos globais, que possam contribuir para um futuro melhor não só para brasileiros, mas para a humanidade.

Comecemos educando nossas crianças para se preocuparem com o seu parquinho, biblioteca e com o seu bairro. Mas não podemos esquecer do passo seguinte: a partir do senso de responsabilidade cívica e engajamento local, ampliar a nossa visão de mundo e entender que somos parte de um todo e que devemos deixar um legado positivo para além de nossas fronteiras.

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Ilona Szabó de Carvalho

37 anos, é diretora-executiva do Instituto Igarapé, especialista em redução da violência e política de drogas e Young Global Leader do Fórum Econômico Mundial (2016)

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