Economia mundial pode ter entrado em uma fase de estagnação secular

Carlos A. Primo Braga

Carlos A. Primo Braga

Especial para o UOL

O início do ano lunar chinês (8 de fevereiro) coincidiu neste ano com o Carnaval brasileiro. Este é, de acordo com o zodíaco chinês, o "ano do macaco". Na astrologia chinesa, o caráter do animal é combinado com um dos cinco elementos básicos (fogo, água, terra, metal e madeira) da filosofia chinesa para dar uma maior granularidade às predições astrológicas.

Neste contexto, 2016 é identificado com o macaco e o fogo. Esta combinação, segundo os astrólogos, é particularmente volátil, e a expectativa é de um ano de turbulências financeiras e políticas. No Brasil, o término do Carnaval também marca o início real do calendário politico e econômico que vai transcorrer sob a chancela do macaco e do fogo.

É importante reconhecer que predições astrológicas e econômicas têm um histórico que deixa muito a desejar. John Kenneth Galbraith costumava dizer que "the only function of economic forecasting is to make astrology look respectable" (a única função de previsões econômicas é de dar respeitabilidade à astrologia).  Ainda assim, a combinação do ano do macaco com a atualidade da política e da economia no Brasil torna irresistível especulações sobre o futuro, mesmo para aqueles que, como eu, desconfiam da astrologia e de previsões econômicas.

Por que esperar mais turbulências nos próximos meses? Vamos esquecer a astrologia por um momento e focar em quatro variáveis que apontam nesta direção.

Em primeiro lugar, a economia mundial parece ter entrado em uma fase de estagnação secular, caracterizada por um excesso de poupança com relação a níveis planejados de investimento. Como consequência, a maior parte do mundo industrializado está convivendo com taxas de juros extremamente baixas e em alguns casos até mesmo negativas em termos reais.

Não há um consenso sobre as causas desse desequilíbrio, mas certamente a crise financeira global contribuiu para essa tendência, embora a queda de taxas reais de juros já pudesse ser identificada antes da crise. O aumento da desigualdade na distribuição de renda, o processo de desalavancagem após o acúmulo excessivo de dívidas pré-2008 e o advento da nova economia, caracterizada por companhias que não precisam de fazer altos investimentos em capital físico, como Apple e Google, são alguns dos suspeitos usuais.

Desaceleração da economia

A realidade, porém, é de uma crescente dissonância entre políticas monetárias dos principais bancos centrais de países industrializados, com os EUA começando a adotar uma política mais restritiva, enquanto o Japão e a Europa continuam a utilizar políticas heterodoxas (inclusive a adoção de taxas de juros nominais negativas em alguns casos) na tentativa de reanimar suas economias.  Como consequência, mercados financeiros e taxas de câmbio continuarão a ser impactados por expectativas distintas sobre a eficácia das ações das autoridades monetárias, uma receita para mais volatilidade.

Em segundo lugar, a desaceleração da economia chinesa também contribui para a expectativa de volatilidade. Embora os números de crescimento do PIB chinês sejam objeto de grandes debates, o consenso atual é de que a China já está trilhando uma trajetória de crescimento bem abaixo dos 7% da retórica oficial –na faixa dos 3% a 5% por ano nos próximos 10 anos de acordo com alguns analistas.  Em parte isso simplesmente reflete o esgotamento do modelo de crescimento alimentado por taxas estratosféricas de investimento em infraestrutura.  Basta mencionar que entre 2009 e 2011 a China consumiu mais cimento do que os EUA em todo o século 20!

A consequência da desaceleração econômica e da crescente vulnerabilidade do sistema financeiro chinês sugerem que uma depreciação futura do yuan não pode ser descartada. Nesse ínterim, observaremos uma tendência a um aumento de fuga de capitais e de nervosismo em mercados financeiros. 

Em terceiro lugar, a queda do preço de commodities –um processo correlacionado com a desaceleração da economia chinesa– e, em particular, do petróleo, está afetando significativamente a posição fiscal dos membros da Opep.  Vários desses países já estão enfrentando crises fiscais na medida em que seus orçamentos refletiam expectativas de um preço do petróleo na faixa dos US$ 100 por barril. 

A queda nos preços gera benefícios para consumidores ao redor do mundo, mas o efeito de destruição potencial de riqueza associado a esse ajuste equivale a uma correção de cerca de US$ 100 trilhões (o resultado de uma queda no preço de cerca de US$ 70 desde 2014 versus o estoque verificado de reservas mundiais de petróleo). Isso, inevitavelmente, vem criando um viés negativo em mercados financeiros e magnifica o potencial de movimentos especulativos.

Por fim, cabe mencionar os efeitos complexos das atuais crises geopolíticas. As turbulências no Oriente Médio, por exemplo, têm gerado externalidades significativas para a Europa e os fluxos crescentes de refugiados estão colocando à prova a estabilidade de acordos legais que embasam o mercado comum europeu. Para complicar ainda mais a situação, a decisão britânica de fazer um referendo em 23 de junho sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia promove mais nervosismo nos mercados.

Todos esses pontos sugerem que, independentemente da astrologia, o ano de 2016 será um período particularmente volátil. Desnecessário dizer que isso não ajudará a economia brasileira. É bem verdade que a nossa atual crise é dominada por problemas domésticos (irresponsabilidade fiscal, falta de credibilidade do governo afetando decisões de investimento, corrupção institucionalizada, paralisia política etc.), mas o cenário externo não ajuda. Em suma, após as festividades do início do ano lunar chinês e do nosso carnaval, devemos nos preparar para um clima de quarta-feira de cinzas no âmbito doméstico, e para as consequências das estrepolias do "macaco de fogo" no âmbito internacional.

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Carlos A. Primo Braga

é professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Economia Política e Dívida do Banco Mundial

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