80 depois de 'Raízes do Brasil', onde está o brasileiro cordial?

Filipe Pinto Monteiro

Filipe Pinto Monteiro

Artigo do internauta

Há 80 anos surgia um mito. Aliás, um mito que permanece quase inalterado até os dias de hoje, o do "brasileiro cordial". Resultado da interpretação distorcida do clássico "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Holanda. Em tempos de caos político e administrativo, como o que vivemos atualmente, volta e meia acusam o brasileiro de ser essa figura supostamente benevolente, bondosa, paciente a ponto de não reagir ou reagir morosamente contra os descalabros das autoridades brasileiras.

O próprio autor de Raízes desmentiu este entendimento em torno do termo na famosa polêmica com o escritor Cassiano Ricardo em 1948, ao lembrar-lhe que a cordialidade era uma característica bem mais ampla e ligada diretamente aos impulsos do coração. Forjado pelos sentimentos e valores da família patriarcal brasileira, o homem cordial, aquele ligado às peculiaridades da vida rural e aristocrática, podia ora se expressar de forma mais afável e amorosa, ora de forma cruel e vingativa.

O fato é que Sérgio Buarque deixou bem claro à Cassiano: "Cabe-me dizer-lhe ainda que também não creio muito na tal bondade fundamental dos brasileiros". A vocação para a fraternidade, para a solidariedade, para a amabilidade não era de ser, como muitos ainda acreditam, característica inata e irreversível do cidadão de nossas terras. Este, à bem da verdade, dada as suas raízes, tem horror e reage hostilmente às leis, regras, regulamentos, enfim, aos limites que o Estado, naturalmente, impõe à sociedade.

Sérgio Buarque, no entanto, sugeriu a fórmula de que quanto mais progresso, civilidade e urbanidade, menor a possibilidade do homem cordial se fazer presente e permanente. Afinal, era filho de uma época remota, de desmandos de senhores de terra e escravocratas, de desventurados, audaciosos e arrogantes colonizadores ibéricos. Sua força advinha justamente do despotismo, da arbitrariedade, da predominância de interesses privados sobre os públicos. Estava, pois, fadado a desaparecer.

Frente aos eventos atuais e instigados pela efeméride do lançamento do livro de 1936, vale o exercício hipotético de pensar afinal, por onde anda o "pobre defunto", na definição do próprio Sérgio. Parece-nos –e aqui estamos apenas especulando–  que o homem cordial sobreviveu e transpôs as fronteiras do universo agrário luso-brasileiro. Hoje circula pelas ruas e avenidas do país, destilando todo o seu ódio contra o estado democrático de direito, reagindo bestialmente àqueles que não compartilham de sua opinião, distribuindo murros, insultos e pontapés aos que apenas se dispõem ao diálogo.  

Mantendo-nos fiéis à ideia-síntese de Sérgio Buarque, talvez caiba dizer que o homem cordial, avesso às relações impessoais do indivíduo inserido na ordem citadina, à sombra do quadro familiar que o persegue mesmo fora do recinto doméstico, agora exige, demanda e ordena, a torto e a direito, conforme suas próprias convicções. Nostálgico e tradicional, mal-humorado e mal-educado, nos leva a testemunhar novamente uma situação constrangedora: brasileiros reunidos em coro uníssono por uma ruptura institucional, inflamados por uma verve anticomunista já surrada, tal qual os idos de 1964 –como se nada valesse anos de amadurecimento de nossas instituições democráticas.

Aí está ele, cordialmente bufando pela retomada da insensatez. Sérgio Buarque nunca se posicionou de forma definitiva sobre o seu desaparecimento ou sua sobrevida. Fica ao leitor a interpretação que melhor lhe satisfizer.

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Filipe Pinto Monteiro

é doutorando em História pela Casa de Oswaldo Cruz e internauta do UOL

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