Mensageiro do nordestino, caiu no gosto popular. Cordel é tudo, até poesia

Bráulio Bessa

Bráulio Bessa

Especial para o UOL

A literatura de cordel entrou pelas porteiras do nosso país no século 18. Trazida nos baús dos colonizadores, pouco a pouco, foi ganhando terreno e se popularizando em terras tupiniquins, principalmente, no sertão nordestino.

Ao que se sabe, o principal responsável pela popularização do cordel no país foi o poeta Leandro Gomes de Barros, um paraibano nascido em 19 de novembro de 1865 na pequena Fazenda da Melancia, localizada em terras pertencentes ao município de Pombal.

Leandro escreveu grandes clássicos da literatura de cordel como o que se vê abaixo.

A SOGRA ENGANANDO O DIABO

Dizem, não sei se é ditado,

Que ao diabo ninguém logra;

Porém vou contar o caso

Que se deu com minha sogra.

As testemunhas são eu,

Meu sogro, que já morreu,

E a velha, que é falecida.

Esse caso foi passado

Na rua do Pé Quebrado

Da vila Corpo Sem Vida. [...]

Dois folhetos de Leandro serviram de inspiração para a construção da peça "O Auto da Compadecida", escrita pelo mestre Ariano Suassuna: "O Cavalo Que Defecava Dinheiro" e "O Dinheiro".

Um longo caminho

Por se tratar de uma poesia claramente popular, rimada e metrifica, o cordel saltou das páginas de folhetos dependurados em barbantes nas feiras e ganhou voz melódica no gogó dos cantadores de viola. Sendo o sertão um terreno fértil e carregado de causos, lendas e histórias, o cordel se tornou o principal mensageiro do povo nordestino e caiu no gosto popular.

Por muito tempo, e até hoje, o cordel foi visto com olhos tortos pelas demais classes literárias, muitas vezes sendo associado ao poeta matuto e sem estudo. Porém, a sua complexidade construtiva e as inúmeras regras e possibilidades no processo de criação provam exatamente o contrário.

Algumas das formas consagradas são as seguintes: a Quadra, que conta com estrofes de quatro versos; a Sextilha, com estrofes de seis versos; a Septilha, com sete versos; a Oitava, de oito versos; o Quadrão, quando os três primeiros versos rimam entre si, o quarto com o quinto e com o oitavo, já o sexto rima com o sétimo; a Décima, caracterizada por uma estrofe de dez versos e; o Martelo, com estrofes formadas por decassílabos. Há muitos outros modos pelo sertão, mas que não me vêm à memória apesar do quengo cearense.

Tendo os poetas cantadores como principais divulgadores da nova manifestação popular, desde a chegada dos folhetos nos navios portugueses até se tornar uma verdadeira paixão sertaneja, o cordel foi ligeiro feito coceira de macaco e coice de bacurim. Destaco os nomes de Apolônio Alves dos Santos, natural de Guarabira (PB); Cego Aderaldo, nascido no Crato (CE) –mas morou muitos anos em Quixadá (CE) e findou seus dias em Fortaleza, ele foi um dos maiores cantadores da história– e Patativa do Assaré. Nascido na serra de Santana, município de Assaré (CE), ele é considerado o maior poeta popular brasileiro e, para mim, um verdadeiro gênio.

A propósito, Patativa foi a minha maior inspiração. Aos 14 anos, ao conhecer sua obra, me apaixonei e botei na cabeça que seria poeta feito o Patativa. Hoje, carrego tatuado em minha pele um de seus poemas mais famosos:

Eu sou de uma terra que o povo padece

Mas não esmorece e procura vencer.

Da terra querida, que a linda cabocla

De riso na boca zomba no sofrer

Não nego meu sangue, não nego meu nome

Olho para a fome, pergunto o que há?

Eu sou brasileiro, filho do Nordeste,

Sou cabra da Peste, sou do Ceará. [...]

Hoje é global

O cordel tem em sua natureza uma facilidade muito grande de se adaptar. Num primeiro momento, ocupava apenas os folhetos dependurados e vendidos a valores simplórios em feiras populares, os cadernos costurados a mão, a melodia dos cantadores, as declamações eloquentes dos declamadores. Depois, invadiu as páginas de jornais e folhetos impressos em máquinas a laser.

Agora, após chegar a todos os meios de comunicação de massa do país, o cordel pisa num terreno novo, porém cheio de possibilidades. São versos e rimas navegando em galope acelerado, num cavalo chamado internet.

O uso das novas mídias e das redes sociais é de importância ímpar para a preservação e, porque não dizer, para a apresentação de inúmeras manifestações populares que estavam sendo esquecidas ou nem mesmo sendo conhecidas pela geração atual. Inúmeros poetas estão rompendo a barreira da presença física e se fazendo presentes em todos os recantos do mundo com sua arte.

É a democratização da tecnologia, da informação, do conhecimento. A literatura de cordel jamais poderia ficar desatenta a isso. Hoje, o Cordel é global.

Não acredito que esse processo de transição e adaptação esteja pondo em risco a essência do cordel. Prefiro acreditar que essas novas ferramentas de comunicação estão ampliando e até mesmo inserindo um novo conceito nessa manifestação popular por tanto tempo esquecida e desvalorizada pelos grandes meios de comunicação de massa.

Minha experiência na internet

Sou um desses poetas cibernéticos. Escrevo poesia de cordel desde os 14 anos, porém, por morar na pequena Alto Santo (18 mil habitantes), no interior do Ceará, nunca tive a possibilidade de apresentar meus poemas a muita gente. Passei vários anos sem escrever, até que vi nas redes sociais uma válvula para expressar minha poesia para qualquer pessoa, em qualquer hora do dia, em qualquer lugar do planeta. Fiquei maravilhado com essa possibilidade.

No cordel, o poder da palavra falada é bem maior do que o poder da palavra escrita. Então peguei um aparelho de celular e gravei a declamação de um dos meus cordéis, publiquei nas redes sociais e tive um susto, em poucas horas, o vídeo já tinha milhares de visualizações. Pronto! Era isso uma maneira diferente e inovadora de fazer o cordel chegar até as pessoas, não importando onde elas estivessem.

Passei a gravar vídeos curtinhos, falando sobre tudo que meu quengo louco de poeta pensava. Quando percebi, já estava sendo chamado de Poeta da Internet, Luiz Gonzaga da Internet etc. Aqui vai um exemplo do que eu ando falando por aí:

SOBRE A VIDA

Só eu sei cada passo por mim dado

nessa estrada esburacada que é a vida,

passei coisas que até mesmo Deus duvida,

fiquei triste, capiongo, aperreado,

porém nunca me senti desmotivado,

me agarrava sempre numa mão amiga,

e de forças minha alma era munida

pois do céu a voz de Deus dizia assim:

-Suba o queixo, meta os pés, confie em mim,

vá pra luta que eu cuido das feridas.

SOBRE O AMOR

Ninguém pode escolher a quem se ama

é o amor quem lhe escolhe e diz vá lá

não existe uma regra certa pra se amar

Deus que escreve e que dirige toda trama

um roteiro escrito com comédia e drama

e ninguém sabe como o filme vai findar

não se avexe, deixe o amor lhe carregar

pois se existe um fato que eu acredito

É que na vida todo amor é bonito

feio mesmo, é viver e não amar!

Graças à internet, meus cordéis já passam da marca de 20 milhões de visualizações, o que mostra que existe sim um público consumidor de cultura regional nas redes sociais.

Semanalmente, os versos de minha poesia matuta também entram em milhares de lares e de corações no Brasil e no mundo através do meu quadro Poesia Com Rapadura, no programa Encontro com Fátima Bernardes. Tudo isso é só o começo dessa luta pela valorização e preservação dessa arte que é nossa.

Certa vez assisti a uma entrevista do mestre Chico Anysio em que ele disse que "o humor é tudo, até engraçado". Se me perguntarem um dia o que é cordel, direi:

Cordel é tudo.

Até poesia.

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Bráulio Bessa

30 anos, é escritor, poeta, palestrante, empreendedor social e cultural e criador do projeto "Nação Nordestina". Também participa do programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo

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