Sem suor e sangue, mudar governo não garante futuro promissor

Alencar Burti

Alencar Burti

Especial para o UOL

Num contexto de forte recessão e grande insatisfação da maioria da população, é enorme a probabilidade de que o impeachment da presidente Dilma Rousseff seja aprovado. Diante desse cenário político, cabe perguntar: como a economia brasileira reagiria à mudança de comando?

Em primeiro lugar, os mercados financeiro e cambial –que já são ansiosos por natureza- deverão continuar repercutindo a expectativa de substituição da fracassada nova matriz macroeconômica por um modelo de política econômica mais coerente. Assim, pode-se esperar que o Ibovespa siga em trajetória de expansão e que continuem pressões para redução da taxa de câmbio.

A valorização do real, combinada com a desaceleração dos preços livres –decorrente da queda da atividade econômica e do menor reajuste dos preços administrados– deverá intensificar a redução da taxa de inflação, antecipando a redução da Selic pelo Banco Central, prevista pelos analistas de mercado.

Mas só a redução dos juros não garante a retomada da atividade econômica (a partir dos investimentos produtivos e do consumo), pois depende fundamentalmente da confiança das famílias e das empresas, que marcaram sucessivos recordes negativos nos últimos meses. A mudança de governo pode atuar positivamente sobre as expectativas, mudando essa trajetória.

A recuperação efetiva dessa confiança, a partir da dissipação das incertezas, pressupõe que o novo presidente seja capaz de aglutinar apoio político suficiente não somente para a realizar ajustes de curto prazo de nossa descarrilada economia, mas também para promover as reformas estruturais que recuperem a capacidade de crescimento do Brasil.

Nesse sentido, não se pode cometer o erro de pensar que, sem sangue, suor e lágrimas, com a mudança de governo vai ser inaugurado um futuro promissor. Será necessário um forte ajuste fiscal, centrado em cortes de gastos e de benefícios, principalmente no campo previdenciário, o que exigirá uma cota de sacrifício por parte da sociedade. Esta, em muitos momentos de sua história, esteve disposta a pagar o ônus das mudanças econômicas, se fosse capaz de acreditar que o esforço não seria em vão. Caberá ao novo governo estabelecer, de forma transparente e realista, quais serão os objetivos perseguidos pela nova política econômica e que instrumentos utilizará para alcançá-los.

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Alencar Burti

é presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e da Federação das Associações Comerciais do Estado de São Paulo (Facesp)

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