Resgate da confiança pode evitar novos recordes de inadimplência

José Luiz Rossi

José Luiz Rossi

Especial para o UOL

O Brasil registrou um triste e preocupante recorde histórico: 60 milhões de brasileiros na lista de inadimplentes. Se somarmos todos os valores dos compromissos sem pagamento, chegaremos a R$ 256 bilhões. A grave crise econômica foi crucial para esta cruel estatística.

As perdas de crédito agravam não somente os problemas financeiros das organizações que concedem empréstimos, mas também prejudicam o sono e o bem-estar de 41% dos brasileiros adultos, hoje negativados. O que parece uma situação isolada, acaba afetando nocivamente todo o país.

A simples redução, por exemplo, de 20% dos calotes às empresas, R$ 70 bilhões, equivale a dois anos de arrecadação de ICMS do Estado do Rio de Janeiro, que está passando por uma crise financeira profunda. Ou ainda, sete meses de ICMS em SP.

A inadimplência, em trajetória de alta, impulsionada pelo crescimento do desemprego, só deve começar a cair em 2018. O prognóstico leva em conta a análise de diversas variáveis, entre elas nível de atividade econômica, evolução da massa de rendimentos e nível de emprego. A pergunta que se faz é: como estancar a sangria da inadimplência e depois recuar a níveis sustentáveis?

Do ponto de vista da conjuntura econômica, tudo aquilo que fez a inadimplência subir deve andar em direção contrária, ou seja: inflação e taxas de juros iniciarem um movimento de queda; desemprego parar de subir e, mais adiante, voltar a cair.

Do ponto de vista estrutural, para melhorar a atuação do mercado de crédito, temos dois fatores que contribuem para a maior eficiência: o ambiente regulatório e a disseminação do Cadastro Positivo. Com este último, o Brasil já conta para combater o superendividamento e ajudar na transformação do comportamento financeiro do cidadão.

Levantamentos revelam que o pleno funcionamento do Cadastro Positivo poderia reduzir em 45% a inadimplência. O desafio, no entanto, é que cada consumidor deve autorizar sua inclusão. Nos países desenvolvidos, quem não quer fazer parte solicita sua saída. Nesse regime, a formação do cadastro se dá rapidamente. O consumidor, por outro lado, dispõe de uma ferramenta que evita dar o "passo maior que a perna".

Ainda nas ações estruturais, destaco a importância de um ambiente regulatório favorável ao desenvolvimento do país. Todos os atores do mercado financeiro enfrentam hoje a criação, da noite para o dia, de normas que dificultam a recuperação do crédito e o acesso das famílias a empréstimos, colocando em risco o segmento.

Uma legislação, de autoria do então deputado Rui Falcão (PT), que está vigorando em São Paulo, impõeàs empresas, em plena era digital, gastar sete vezes mais com um antigo modelo de carta. A correspondência proposta, que substitui um comunicado usado pelos birôs de crédito há mais de 30 anos, com sucesso, é ineficiente. Além de exigir a assinatura do cidadão, em sua residência e no horário comercial, cria burocracia e custos adicionais ao consumidor.

Não surpreende a opção das empresas de não enviar a carta com aviso de recebimento, agravando, dessa forma, a situação da inadimplência no país. O que surpreende é a manutenção da lei mesmo diante de impactos tão negativos. Dentre eles está a redução de R$ 4,2 bilhões no crédito às famílias em SP, afetando, principalmente, as de rendimentos mais baixos. A nova lei paulista, assim, colocou em risco uma importante conquista: a inclusão social, alcançada graças ao crédito.

O cenário adverso e histórico que estamos enfrentando, entretanto, pode ser uma oportunidade para corrigir desvios estruturais, inclusive nas metodologias de crédito. Hácondições de alcançar uma conjuntura econômica capaz de conter a inadimplência.

Para isso, resgatar a confiança é fundamental. É a confiança no futuro que faz a população poupar –exercício essencial na educação financeira–e consumir conscientemente. É a confiança que faz o empresário investir. Quando o futuro é incerto, não se vê sentido no sacrifício para ter algo maior lá na frente.

A confiança num ambiente regulatório, que deve apoiar o desenvolvimento do país, também é urgente. As empresas e todos os agentes econômicos não podem ser surpreendidos por leis que não têm finalidade social e colocam em risco a inclusão social, alcançada graças ao crédito, importante ferramenta de combate à pobreza e crucial para o desenvolvimento econômico de qualquer país. Precisamos mudar a cultura da ineficiência e contar comleis que cumpram função social e apoiem o desenvolvimento do país.

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José Luiz Rossi

é presidente da Serasa Experian

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