Desmatamento zero não é uma utopia

Aline Tristão Bernardes

Aline Tristão Bernardes

Especial para o UOL

O combate ao desmatamento é tarefa sua. Minha. De todos nós. Sociedade civil, iniciativa privada e governo precisam se unir para, juntos, dar conta desse recado.  Durante séculos, a floresta foi vista como um obstáculo ao desenvolvimento. Quem mantinha áreas verdes em suas propriedades era considerado improdutivo ou louco.

Mas, felizmente, fazemos parte, agora, de um processo complicado e lento de mudança de mentalidade. Muita coisa boa está acontecendo e velhas práticas estão sendo substituídas por outras melhores, mais sustentáveis, em todo o país. A floresta está deixando de ser entrave para ser fonte de possibilidades.

Apesar da Amazônia ser a nossa maior estrela, temos aqui outros cinco biomas. Todos ricos em aspectos econômicos, sociais e ambientais. No entanto, nosso grande reconhecimento de boas práticas no mundo vem das plantações florestais, hoje entre as mais sustentáveis do planeta.

É incrível que tenhamos alcançado esse marco com espécies exóticas, que não existiam no país, e não tenhamos (ainda!) conseguido fazer o mesmo com nossas matas nativas. Cerca de 70% dos 7,8 milhões de hectares de florestas plantadas brasileiras são certificadas. Porém, menos de 1% da Amazônia legal o é.

A certificação atesta que o manejo florestal é conduzido de forma absolutamente responsável. Para as empresas, ela agrega valor ao produto, abre portas para novos mercados, minimiza riscos reputacionais e melhora a gestão corporativa, já que são feitas auditorias rigorosas. Para o consumidor final, o selo é um elo entre a produção e o consumo responsáveis de produtos florestais e permite que se tome decisões em prol das pessoas e do meio ambiente.

Para que mais gente cobre a certificação e mais empresas se certifiquem, é preciso que o contexto os estimule e traga retorno para os investimentos. A economia florestal, que nunca recebeu a devida atenção dos governos brasileiros, precisa estar no centro do debate.  Falta comando e controle, mas há outros problemas enraizados que precisam ser superados –como a questão fundiária, o complexo sistema tributário, a dificuldade de acesso ao crédito, a falta de mecanismos financeiros que estimulem a conservação, como o pagamento por serviços ambientais, e a ineficiência logística.

Você sabia que é mais fácil mandar uma tora de Manaus para a Holanda do que para São Paulo? Pois é.  Ainda faltam políticas públicas que favoreçam o consumo responsável de produtos de origem florestal no Brasil.

A situação, de fato, não é das melhores. Mas há soluções. Ou, simplesmente, vamos nos resignar e esperar o fim? É fundamental comunicar coisas boas, porque é preciso acreditar e fazer por onde. Então, saibam que na Amazônia há uma empresa que explora madeira há mais de vinte anos no mesmo lugar. E já há algum tempo, passou a abastecer com energia advinda dos resíduos da sua produção cerca de 70 mil pessoas. No Acre, uma comunidade extrativista atestou suas boas práticas e reforçou sua ligação histórica com a terra. No sul, uma ervateira certificada provou aos vizinhos que certificação –e sustentabilidade– não é loucura. Óleos naturais da Mata Atlântica são tidos como um excelente fixador de perfume, e, sim, dão retorno financeiro.

O desmatamento zero não é uma utopia. Aumentar a área certificada, que respeita aspectos sociais e ambientais, passa pela valorização da economia florestal e do combate a ilegalidade. Não é possível concorrer com quem não paga impostos, não tem licenciamento ambiental, não oferece os mínimos direitos aos trabalhadores. Essa briga é da sociedade brasileira. Antes de tudo é preciso virar compromisso, porque é só a partir deles que o discurso se consolida em prática. Bom mesmo é saber que há alternativas, mesmo que ainda haja muito trabalho pela frente.

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Aline Tristão Bernardes

é bióloga, mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre e diretora-executiva do escritório nacional do FSC (Forest Stewardship Council)

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