Participar do processo político é chato, mas indispensável

Steven Bipes

Steven Bipes

Especial para o UOL

A rotina se tornou familiar: pegar o jornal de manhã é reconhecer que você não está mais surpreso, mas deprimido com as notícias recentes de Brasília e de seu impacto econômico. Então, é fechar o caderno e seguir a batalha diária para manter seu negócio, seu emprego, sustentar sua família e permanecer otimista no meio do furacão político e econômico. De um lado, seus amigos e familiares buscam oportunidades no exterior, do outro a Lava Jato e as perspectivas negativas da economia se espalham no horizonte. Enquanto isso, segue cada vez mais comum colocar a culpa por toda esta confusão na classe política: corrupta, antiética, imoral, ineficiente, não representativa.

Ao observar a votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara, em 17 de abril, todos notaram a baixa qualidade de muitos dos deputados eleitos, representando o povo no Congresso Nacional. Com grande parte dos membros da Casa sob alguma forma de investigação, os cidadãos não estão, inicialmente, errados em sua atribuição de culpa. Mas sigo com a sensação de que essa análise é falha. Primeiro porque não identifica a raiz do problema e, segundo, porque esse comentário simples representa o ápice do não engajamento cívico dos brasileiros.

Quando perguntamos nas ruas quais os principais culpados dos problemas do Brasil, a resposta quase unânime é "o governo e os políticos". E se perguntamos qual a solução, ouvimos que o governo e os políticos deveriam fazer alguma coisa. Fernando Henrique Cardoso disse, certa vez, que a cultura democrática brasileira ainda "não pegou". De fato, não há aqui a compreensão de que quem comanda o show e quem tem a responsabilidade final em um país democrático é o cidadão, não o político.

Faça uma pesquisa informal e pergunte aos seus colegas quantos senadores representam seu Estado ou quantos deputados federais o representam. Pergunte seus nomes, suas políticas, quantas vezes entraram em contato com esses representantes para expressar sua opinião e oferecer soluções. Pergunte quantas vezes tentaram mobilizar a família e amigos a fazer o mesmo. Você receberá como resposta olhares em branco, talvez um nome, acompanhado de incredulidade e zombaria.

Esse comportamento é compreensível. Por que um indivíduo que está lutando para sobreviver vai dedicar seu tempo para tentar falar com interlocutores que, considerando margens estatísticas, provavelmente estão sob investigação? Assim, a responsabilidade comumente aceita pelo cidadão brasileiro é somente a de apertar um botão na cabine de votação a cada poucos anos e deixar que os políticos sigam como se existisse um piloto automático até a próxima eleição. Adicionalmente, aceitam encher as ruas em manifestações, bater panelas, e, claro, reclamar em conversas informais.

O que não é compreendido é que, embora necessário, isto é insuficiente para que a democracia funcione. Participar ativamente do processo político pode ser chato, demorado e irritante, mas é indispensável. Este é o pacto social democrático. Podemos viver em uma ditadura e reclamar sobre não ter voz ou podemos viver em uma democracia e fazer o trabalho chato de governar. Podemos, ainda, sofrer a emoção de se sentar na parte de trás de um táxi sem motorista. Pode ser chato sentir-se como um inútil escrevendo uma carta para um político, assim como é chato ir ao supermercado e à academia, mas são coisas que precisamos fazer. Chatice é uma das contas da autonomia que não está sendo paga.

Muitos dizem que a tentativa de colaborar é inócua, pois o sistema está todo errado e só sobrevive na política brasileira quem rouba. A difícil verdade é que esse pensamento é justamente o cerne da corrupção na qual o Brasil se encontra hoje. Se admitirmos que esse jogo é impossível de ganhar e que a participação cívica não funciona, então voltamos para uma "neoditadura". Não uma de generais, mas de funcionários eleitos, sem patrão, sem responsabilidade, trabalhando da mesma forma como muitos fariam se tivessem um salário garantido e nenhum supervisor ou cliente. A ditadura do ausente.

O sentimento comum de que o país está à deriva e sem governança é certo. Só que não são apenas bons políticos que estão faltando, é você. No cesto de soluções políticas estão os discursos de sempre: maior transparência, maior criminalização, multas para a corrupção, financiamento público das campanhas etc. Estas propostas são ferramentas para uma boa governança, mas não o "x" da questão. O principal são pessoas éticas e dispostas a contribuir com os meios que têm: opiniões, tempo, energia, proposições, criatividade, esforço. E a fé de que os esforços farão uma diferença positiva.

A atual classe política brasileira revela três problemas graves. Primeiro: não todos, mas uma grande parte dos políticos é antiética. Segundo: demograficamente eles não representam a população. Terceiro: a grande maioria pertence ao passado, pois está aí há décadas, e não há nenhum grupo de novos líderes por vir. Onde estão os futuros líderes? Tem muito espaço para bons homens e boas mulheres na política. É consensual que novos braços são necessários em Brasília, desesperadamente. Mas ninguém está disposto a arregaçar as mangas e encarar esse desafio. Você conhece alguém? Você iria?

 O estadista inglês Edmund Burke escreveu: "A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons não façam nada". Será que esta nova geração de homens e mulheres brasileiros, éticos, vai se levantar e construir a cultura de participação cívica? Será que estas pessoas vão assumir a responsabilidade e liderar? Enquanto estamos parados, estamos alimentando a corrupção. Vamos parar de reclamar. Escreva uma carta, ofereça soluções, reúna-se com seus políticos eleitos. Torne-se um. Você é melhor do que eles. O Brasil precisa de você.

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Steven Bipes

é diretor-executivo da Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (AmCham Rio).

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