Temer põe governo em risco ao negligenciar opinião pública

Marco Antonio Carvalho Teixeira

Marco Antonio Carvalho Teixeira

Especial para o UOL

Desde que foi alçado à condição de presidente interino, Michel Temer escolheu priorizar a construção de sua maioria no Parlamento com o intuito de aprovar projetos e ficar blindado de crises políticas. Tal estratégia já vinha sendo evidenciada antes mesmo da aprovação da admissibilidade do processo de impeachment.

Naquele momento, partidos que ainda se mantinham com ministérios no governo Dilma, e que poderiam evitar o afastamento da presidente, como o PP, o PR e o PSD, aos poucos foram abandonando o barco petista após encontro com emissários do PMDB, que provavelmente garantiram a eles espaços no ainda inexistente governo peemedebista.

Resultado: a admissibilidade do impeachment foi aprovada com folga na Câmara e no Senado; PSDB, DEM e PPS passaram a integrar a base de apoio de Temer e a oposição ficou restrita ao PT, PC do B, PDT e Rede, que juntos não somam sequer uma centena de deputados.

Ao apostar alto na negociação congressual, o temerismo negligenciou uma questão central: a evidência de que a queda do prestígio social de Dilma Rousseff, fato que mais impulsionou as grandes manifestações populares pró-impeachment, deu-se muito mais em função dos escândalos de corrupção e do agravamento da crise econômica do que apenas como reflexo das controversas pedaladas fiscais.

Os tempos atuais não permitem reafirmar impunemente que os problemas políticos são resolvidos apenas no âmbito de acordos no Congresso, ficando a sociedade à margem das decisões. O governo interino demonstra que ainda não percebeu que a sociedade mudou e que, por exemplo, a reputação pública do governo passou a interferir diretamente na imagem do governante, além de pressionar parlamentares em suas tomadas de decisões.

Em tempos de redes sociais e de vigilância pública, os políticos eleitos se preocupam mais com o custo eleitoral de suas decisões, sobretudo em questões de grande repercussão social. A aprovação do parecer pela cassação de Eduardo Cunha, num contexto em que o presidente afastado da Câmara usou de todas as manobras regimentais para inviabilizá-lo, é apenas um dos exemplos de como a pressão social pode alterar um embate político quando a matéria em questão está sob a vigilância pública.

A aprovação do fim do voto secreto para a cassação de detentores de mandatos eletivos e apreciação de veto e a pressão que levou a aprovação e sanção da Lei Anticorrupção são outros exemplos. As diversas fontes de informações e de produção de notícias, que circulam principalmente pelas redes sociais, têm agido no sentido de escancarar posições distintas e tonar menos assimétrica a relação entre representantes e representados.

Por estar mais habituado ao jogo político institucional do que com o diálogo com organizações da sociedade, é provável que o governo interino continue jogando suas fichas apenas na negociação congressual. O recente acordo com os governadores acerca das dívidas dos Estados demonstra ainda mais a força política do atual presidente interino. Todavia, como a Lava Jato vem atingindo personalidades graúdas do governo e do PMDB, provocando a queda de ministros e sinalizando para o possível afastamento de outros, Temer já emite sinais de preocupação o prestígio social do governo.

Se a economia não apresentar sinais evidentes de recuperação e personalidades do governo continuarem sendo envolvidas em delações e pedidos de inquérito por parte da Justiça, a desconfiança social tende a aumentar ainda mais e pode impactar negativamente no apoio do Congresso ao presidente interino.

Ao desconsiderar a demanda da sociedade por reputação na formação de sua equipe de governo, Michel Temer, da mesma forma que ocorria com Dilma Rousseff, ficou exposto ao risco de crise política permanente. O melhor caminho seria substituir preventivamente ministros cujos nomes estão na linha de risco da Operação Lava Jato e de outros escândalos. Tal medida enfraqueceria Michel Temer perante os partidos aliados e o PMDB? Provavelmente sim. Mas diminuiria o custo de agir apenas a posteriori aos efeitos de um escândalo que ninguém ainda sabe qual a sua verdadeira dimensão.

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Marco Antonio Carvalho Teixeira

é doutor em Ciência Política e vice-coordenador da graduação em Administração Pública da Eaesp-FGV

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