É pouco provável que Brexit gere uma crise financeira global

Carlos A. Primo Braga

Carlos A. Primo Braga

Especial para o UOL

O referendo sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia (UE) contribuiu para aumentar a volatilidade de mercados financeiros nos últimos meses.  O debate que precedeu o referendo atraiu interesse bem além das fronteiras da UE.  Líderes como Barack Obama e Xi Jinping se manifestaram a favor da permanência.  Até mesmo o FMI demonstrou preocupação com a possibilidade da saída do Reino Unido da UE (Brexit).  O resultado do referendo de ontem, contrariamente às previsões das pesquisas de opinião dos últimos dias, foi claro: uma maioria (52%) dos eleitores no Reino Unido votou a favor do Brexit.

Os grupos a favor e contra o Brexit oferecem uma caricatura simplificada do debate a respeito do processo de globalização. De um lado estão os "cosmopolitas": aqueles que encaram a globalização de uma forma positiva e votaram a favor da UE por ter confiança no projeto mais ambicioso de integração econômica e política entre economias de mercado no pós-guerra.  Embora os "cosmopolitas" não constituam um grupo homogêneo, eles tipicamente têm um nível mais elevado de educação, se concentram em centros urbanos, como Londres, e são particularmente influenciados por argumentos econômicos. 

Do outro lado, os "nacionalistas": grupo que enfatiza os perigos da perda de soberania associada com a participação do Reino Unido na UE e o peso burocrático de Bruxelas. Este grupo de eleitores foi mais influenciado pelo debate sobre os "perigos" da imigração estrangeira –seja no contexto da liberdade de movimento de pessoas na UE, seja com relação às dificuldades de administrar fluxos migratórios de países que não são membros da UE a partir do momento que esses imigrantes (na maioria dos casos, refugiados de crises geopolíticas) chegam à Europa.

O impacto inicial nos mercados financeiros do decisão a favor do Brexit foi devastador. A libra esterlina chegou a perder mais de 10% do seu valor com relação ao dólar em operações na manhã de hoje. Mercados de ações ao redor do mundo sofreram correções significativas, o ouro apreciou mais de 5%, e moedas como o iene e o franco suíço (que também servem como reserva de valor) experimentaram pressões significativas.  Bancos Centrais vêm emitindo declarações para tentar acalmar mercados, garantias de que injetarão liquidez caso necessário, e em alguns casos, como o da Suíça, optado por intervenções para evitar apreciações exageradas.  Volatilidade –e indicadores de nervosismo em mercados financeiros– aumentaram dramaticamente (cerca de 52% no caso do VIX, no início das operações em Chicago).

O choque político também tem dimensões históricas. Brexit gerou não apenas a decisão de David Cameron de renunciar ao cargo de primeiro-ministro do Reino Unido em um futuro próximo, mas também especulações sobre a possibilidade de um novo plebiscito na Escócia sobre a sua independência do Reino Unido. Os escoceses votaram majoritariamente contra o Brexit e pretendem agora explorar alternativas para permanecer na UE.  Além disso, partidos radicais na França, Holanda, Itália e leste europeu certamente irão explorar o Brexit como um modelo para justificar o desmantelamento da UE nos próximos anos.

Embora seja difícil prever todas as ramificações do resultado do referendo é possível especular o seguinte: a turbulência em mercados financeiros diminuirá à medida em que o choque inicial da surpresa seja digerido por agentes econômicos.  Em outras palavras, é pouco provável que o choque do Brexit gere uma crise financeira global equivalente ao que ocorreu após o colapso do banco Lehman Brothers em 2008.  O sistema financeiro internacional está melhor preparado –por exemplo, em termos de reservas de capital– para administrar o choque atual. 

A economia do Reino Unido, porém, passará por um ajuste significativo.  Decisões de investimento serão postergadas até que haja mais clareza sobre as condições de acesso de mercado aos países da UE, que respondem por mais de 40% das exportações britânicas.  Empresas multinacionais, por exemplo, terão de revisar suas estratégias já que decisões originalmente baseadas na expectativa de um livre acesso a cerca de 500 milhões de consumidores na UE podem ser afetadas. O setor financeiro, em particular, terá de reconsiderar o papel de Londres como centro financeiro caso bancos globais baseados em Londres passem a enfrentar restrições para operar em mercados na UE.

A complexidade da renegociação de potenciais acordos comerciais entre o Reino Unido e a UE é um fator adicional a ser considerado.   Desde o cronograma do "divórcio" –quando o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que regulamenta o processo de saída de um membro da UE, será notificado pelo Reino Unido– até os detalhes do processo negociador nos dois anos subsequentes à notificação, o grau de incerteza é enorme.  Um recurso ao Artigo 50 seria uma novidade, já que ele nunca foi utilizado desde a implementação do Tratado de Lisboa, em 2009.  Se há uma certeza é a de que os principais membros da UE não estarão dispostos a fazer concessões significativas ao Reino Unido, já que isto encorajaria outros países a explorar alternativas distintas de participação no mercado comum europeu.

23 de junho será lembrado como o dia em que um dos países líderes do processo de globalização resolveu adotar uma estratégia mais nacionalista, refletindo a estridência de políticos populistas e a incapacidade das elites de comunicar os benefícios da integração internacional. Nigel Farage and Boris Johnson no Reino Unido (em virtude de suas carreiras políticas), Putin na Rússia (em virtude do enfraquecimento da UE), Trump nos EUA (como uma demonstração da popularidade da sua narrativa anti-internacionalização), e Marine Le Pen (como um exemplo a ser seguido pela França) festejarão essa data. Para a economia mundial, porém, essa data será lembrada como o início de um "divórcio litigioso" com externalidades geopolíticas e econômicas significativas.

  • O texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL
  • Para enviar seu artigo, escreva para uolopiniao@uol.com.br

Carlos A. Primo Braga

é professor associado da Fundação Dom Cabral e ex-diretor de Relações Externas para a Europa do Banco Mundial

UOL Cursos Online

Todos os cursos