Rio desperdiçou chance de usar Jogos para criar novo pacto social

Rebeca Lerer

Rebeca Lerer

Especial para o UOL

Muitas promessas e palavras bonitas recheiam o dossiê de candidatura dos Jogos Olímpicos Rio-2016. Desde 2009, quando o país venceu a concorrência da Olimpíada, que os brasileiros vivem a expectativa de receber o mais importante megaevento global.

Na esteira da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Pan-Americanos de 2007, a cidade do Rio de Janeiro –um cartão-postal do Brasil– tem convivido com a dor e com o glamour de hospedar todos esses megaeventos. Tanto o Pan como a Copa, que prometiam ser tanto experiências estruturalmente transformadoras nas vidas dos moradores da cidade como um preparatório para os Jogos Olímpicos, acabaram marcados por denúncias de violações de direitos humanos, de dívidas públicas e de obras caras e mal-acabadas.

Mais do que trazer títulos, glórias e medalhas para o país, a realização desses eventos acentuou as remoções forçadas e a violência policial nas operações em favelas e em periferias. Entre 2009 e 2013, na cidade do Rio de Janeiro, mais de 19 mil famílias foram removidas. 

Em 2014, ano da Copa no Brasil, houve o aumento de 40% nos homicídios decorrentes de intervenção policial no Estado do Rio. Os relatos de violações e abusos perpetrados por tropas militares que policiaram favelas, como parte da segurança da Copa, reforçam o saldo negativo associado ao torneio de futebol.

Hoje, a aproximadamente 40 dias para o início das Olimpíadas, o legado pré-olímpico no Rio de Janeiro acumula mais de 2,5 mil pessoas mortas pela polícia desde que a cidade se tornou oficialmente a anfitriã, em 2009. Nas últimas semanas, essa sensação de derrota –antes mesmo que os Jogos tenham começado– tem se aprofundado com o rastro de sangue deixado por tiroteios e por operações policiais quase diárias em diversas favelas cariocas.

Novamente, as comunidades mais afetadas pela violência vinda do Estado são as localizadas no entorno das vias de ligação entre o aeroporto internacional e as áreas de atividades olímpicas.

Em 17 de junho, completando o quadro de desalento, o governador em exercício, Francisco Dorneles decretou oficialmente "estado de calamidade" no Rio de Janeiro. Tal ato abriu espaço para se reduzir serviços essenciais, de forma a garantir a realização dos Jogos.

Não basta o silêncio das autoridades estaduais em relação aos inaceitáveis índices de letalidade da polícia. Afinal, desde abril, ocorreram pelo menos três chacinas no Rio de Janeiro, com cinco mortos pela polícia em cada, e nenhuma palavra do governador ou do secretário de Segurança a respeito.

Tampouco basta a lentidão da Justiça e a omissão do Ministério Público na investigação, na responsabilização e na reparação dos casos de mortes praticadas por agentes do Estado. A solução apresentada pelo governo para a sociedade foi a de priorizar a realização do megaevento, ainda que isso coloque em risco a garantia de direitos básicos.

A pergunta é inevitável e, provavelmente, permanecerá sem resposta: onde está a "modelagem econômica robusta" tão promovida nos documentos de apresentação da Rio-2016 e que listava legados pré e pós-jogos para "reforçar o tecido social e ambiental do Rio e do Brasil"?

É lamentável que as oportunidades de renovação da vida urbana, trazidas pela Olimpíada, não tenham se traduzido em um novo pacto social para o Rio de Janeiro. Passou da hora do Estado mudar o eixo da segurança pública e abandonar a lógica de guerra às drogas com incursões de blindados e de armas de guerra em áreas densamente povoadas e criminalizadas por sua pobreza.

Fato é que os últimos anos poderiam ter sido aproveitados para aumentar o foco em inteligência policial e também para implementar protocolos que regulassem o uso da força pela polícia, erradicando as práticas de execuções extrajudiciais e reduzindo o racismo. Porém, assim como ocorreu nos outros megaeventos, tudo indica que a Olimpíada vai acontecer concomitantemente aos jovens negros moradores de favelas engrossando as estatísticas ao pagarem, com suas vidas, o alto custo desse fracasso coletivo.

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Rebeca Lerer

é coordenadora da campanha Jovem Negro Vivo, da Anistia Internacional no Brasil, e jornalista

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