É preciso alterar o processo de escolha do presidente da Câmara

Fabiano Angélico

Fabiano Angélico

Especial para o UOL

"Michel Temer é Eduardo Cunha", disse o ex-ministro Romero Jucá, em conversa com o ex-presidente da Transpetro Sergio Machado, que teria ocorrido em março deste ano. No mesmo diálogo, Jucá falou em "estancar a sangria" da Lava Jato.

Em junho, reforçando as suspeitas de que os dois políticos do PMDB são próximos, a imprensa revelou que o presidente interino e o agora ex-presidente da Câmara encontraram-se numa noite de domingo, numa reunião fora da agenda oficial da mais alta autoridade do país, num claro atentado à transparência. O encontro serviu para a tentativa de se construir um acordo: Cunha deixaria a presidência da Câmara e, em troca, o governo Temer trabalharia para colocar na presidência da Casa alguém que pudesse salvar o mandato parlamentar de Eduardo Cunha. Hoje, cumprindo a primeira parte do suposto acordo, Cunha renuncia à presidência da Casa, e um novo presidente deve ser eleito em breve.

Tal acordo, se de fato existe –evidências permitem supor que sim–, está em total dissonância com os princípios éticos, democráticos e com a separação dos Poderes. Apesar disso, há chances razoáveis de que seja bem-sucedido, caso não haja movimentação da sociedade brasileira. A maneira mais adequada de se evitar esse temerário acórdão é alterar o processo de escolha do próximo presidente da Câmara dos Deputados.

Numa época em que até candidatos à presidência de clubes de futebol fazem debates acalorados, é irreal que o candidato à presidência da Câmara seja eleito a partir de uns poucos conchavos entre pequenos grupos de políticos, sem que a população tenha a mais vaga ideia de como pensam os candidatos apresentados para a disputa.

Na atual conjuntura, o presidente da Câmara dos Deputados é o primeiro na linha sucessória do País. O Brasil precisa escolher com cuidado a pessoa que ocupará este cargo, nesse grave momento pelo qual passa o país.

Diante desse quadro, é fundamental que o processo eleitoral que se avizinha seja mais aberto e transparente, com: registro antecipado de candidaturas; divulgação obrigatória, por parte dos candidatos, de um documento que contenha seus planos e diretrizes; a realização de debates públicos entre os candidatos registrados.

A vacância da presidência da Câmara é uma oportunidade para que o Brasil possa avançar na modernização de suas instituições, e para que possamos barrar articulações ocultas da "velha política".

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Fabiano Angélico

é jornalista, especialista em Transparência e Combate à Corrupção, mestre em Administração Pública e consultor da Transparência Internacional

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